Jorge Silva*

Jorge Silva*

Um ano depois da surpreendente eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos, convém fazer um balanço, longe dos auto-elogios como é próprio de Trump. Saído da mais feroz campanha eleitoral norte-americana, Trump poderia ter optado por uma postura de Chefe de Estado com o intuito de unir os americanos, os seus apoiantes e os seus detractores.

Pelo contrário, o que ele fez foi um prolongamento da campanha eleitoral, colado ao seu eleitorado radical, com a habitual narrativa da realidade misturada com falsidades, omissões e factos alternativos.

O presidente Trump mostrou aquilo que se temia – totalmente impreparado para assumir o cargo mais poderoso do planeta. A sua Casa Branca, até à entrada do general John Kelly, como chefe de gabinete, foi o local mais caótico do Mundo, uma brincadeira, uma loucura total! Todos os dias havia uma demissão, uma notícia de reuniões supostamente secretas, com a filha e o genro de Trump a participarem na galhofa, os radicais de direita, mais as estratégias nacionalistas e de isolamento da América, a pressa em revogar a legislação mais importante da Administração Obama e o twitter a twittar de madrugada com o presidente a atacar tudo e todos, quando não insultava tudo e todos…

E o mais incrível era ver o presidente dos Estados Unidos, mentalmente e emocionalmente uma criatura instável, a utilizar hotéis que são sua propriedade, em detrimento de instalações oficiais da presidência, para não falar dos convidados estrangeiros que ficam hospedados no Trump Hotel em Washington…

Em termos de legislação de Trump no Congresso, 2017 foi um desastre. Nada foi aprovado pelos congressistas, de maioria republicana, que se assustam com a agenda do presidente. Destruir o Obamacare não foi ainda possível, financiamento para o Muro na fronteira com o México não foi, sequer, debatido e, talvez, a Reforma Fiscal seja a única peça legislativa que passará no Congresso.

Muito pouco para um homem que se anunciava como o rei das negociações e acordos políticos… Mas, mais do que a pobre substância, é o estilo Trump que não é digno de um presidente, mais a mais, dos Estados Unidos… Não se pode dizer não ao homem porque ele desata logo a chamar nomes aos supostos adversários.

Com a excepção da Fox New, lacaia do presidente, Trump odeia o resto da comunicação social e os jornalistas do país que não desarmam nas críticas e esclarecimento da opinião pública, desmontando o discurso oficial e as mentiras.

Tudo isto em um ano, é caso para dizer que o pesadelo vai continuar…a menos que…a menos que… a investigação sobre a influência russa nas eleições,  chegue aos amigos de negócios de Trump nos países do Leste Europeu, próximos de Vladimir Putin…

A ser verdade, Trump depois de ser o candidato da Manchúria, passaria a ser o presidente da Manchúria…

O seu discurso truculento e xenófobo pretende fazer os Estados Unidos, o país inclusivo, andar para trás, isolar-se do Mundo, fechar-se em copas. O ódio ao outro é uma constante e o desprezo pela realidade é monstruoso. No seu consulado, mais de cem pessoas foram assassinadas por compatriotas, por causa do romance trágico da América com o acesso e uso de armas, assunto tabu para os republicanos e Trump, naturalmente.

E, até, houve um atentado do grupo terrorista Estado Islâmico em plena Nova Iorque, prova de que uma das promessas de Trump não se concretizou, ele que prometeu ao seu aguerrido eleitorado, esmagar o Daesh e dar mais segurança aos americanos.

A nível internacional, rasgou importantes acordos com o Irão e Cuba, entrou em diálogo de megafone com o louco da Coreia do Norte, ameaçando uma guerra nuclear e só, verdadeiramente,  com a China e a Arábia Saudita encetou um diálogo mais sereno.

Com os sauditas, além do negócio das armas, a influência de Trump parece que vai até às detenções por corrupção no Reino, onde estão incluídos bilionários, antigos parceiros do actual presidente dos Estados Unidos, mas, desde há algum tempo, fidalgais inimigos.

Este homem, Donald J. Trump, nunca deveria ter sido eleito presidente dos Estados Unidos.

 

* Jornalista