João Botas* macauantigo@gmail.com

João Botas *

Seja bem-vindo a “Macau Antigo” nas páginas do JTM, “um jornal com memória”. Semanalmente darei a conhecer um pouco da história de Macau privilegiando a imagem mas sem descurar nas palavras. Apesar do nome não é só do passado que nos vamos ocupar. O princípio norteador será o mesmo do blogue “Macau Antigo” criado em 2008 e que até hoje já recebeu quase 600 mil visitantes.

Inauguro esta rubrica com um exercício de comparação. Um antes e depois, ou se preferirem, uma espécie de “descubra as diferenças”.

As imagens retratam a Travessa da Paixão… talvez o sentimento que melhor descreve a minha relação com o território. Entre a imagem mais antiga e a mais recente existe uma diferença de cerca de um século. Não deve ter muito mais de 30 metros de extensão esta travessa que começa na rua de S. Paulo (entre os números 31 e 33) e acaba na rua da Ressurreição, na escadaria que dá acesso às ruínas (séc. XVI) e, virando à esquerda, ao templo Na Tcha (séc. XIX) e ao Largo da Companhia de Jesus.

Na imagem do postal (à esquerda), ao fundo, ainda se vê parte da cerca que circundava a igreja da Madre de Deus (vulgo Ruínas de S. Paulo) e que tinha diversas portas de acesso. Ali, era uma delas.

Viajando até à época da construção das ruínas percebemos que descendo por esta travessa num instante estaríamos no Porto Interior, a porta de entrada marítima de então. Segundo Monsenhor Manuel Teixeira a travessa “foi, felizmente, consertada pelas Obras Públicas, em meados de 1961”.

O tempo passou e do lado esquerdo os prédios “ganharam” mais um piso enquanto do lado direito foram reconstruídos e “avançaram” pela travessa adentro tornando-a mais estreita.

Na década de 1990 viria a ser alvo de um novo “conserto”.

20130919-23pDesconheço a origem do topónimo e nem na “Toponímia de Macau” (a “bíblia” sobre Macau que Monsenhor Manuel Teixeira nos deixou) aparece uma explicação. A cerca rodeava toda aquela imensa zona gerida pelos jesuítas (horta, colégio, igreja, etc…). Num documento do século XVII pode ler-se: “A cerca do Colégio fez a mesma cidade, para porem ali em salvo suas mulheres e filhos, vindo, como se temia, naus holandesas, por naquela cidade não haver fortaleza”. Os ataques holandeses ocorreram entre 1603 e 1622.

A fortaleza (de S. Paulo) do Monte foi construída entre 1617 e 1626 tendo ficado pronta já depois da derrota holandesa a 23/24 de Junho de 1622 e que deu origem ao “Dia de Macau” praticamente esquecido no pós-1999.

Comentários e/ou sugestões podem ser enviados para o email macauantigo@gmail.com

Até p’ra semana!

 

* Jornalista, autor do blog Macau Antigo (http://macauantigo.blogspot.com) e alguns livros sobre a história de Macau e antigo residente no território