João Figueira *

João Figueira *

Somos sobretudo memória. Sem ela não conheceríamos a saudade e a nostalgia, viveríamos como Sísifo, a recomeçar todos os dias no sopé da montanha. Falo, claro, da memória consciente, a que está ligada à ideia de recordação e lembrança. Não da que se localiza no subconsciente (ou inconsciente) e à qual mais dificilmente acedemos ou utilizamos.  Por outro lado, nem todas as memórias nos marcam de forma igual, assim como nós próprios vamos construindo memórias ao longo da vida. Ou seja, ela é uma certa percepção do presente face ao passado, com tudo o que de construção esse processo comporta. No meu caso, as minhas primeiras e mais longínquas memórias sobre a guerra colonial, sem que soubesse o que isso era, estão localizadas nas prédicas dominicais da missa das 10h ou nas cartas do Toninho.

O Toninho era o filho de um conhecido industrial da Covilhã, cujas tias eram minhas vizinhas e a quem quase diariamente ouvia falar do sobrinho querido que estava na guerra num sítio nebuloso para mim, chamado Guiné. Eram descrições de meter medo as que elas partilhavam com a minha mãe, sempre com o credo na boca e as promessas de mais novenas e rosários a nossa senhora pela segurança do “menino”.

Estas memórias da minha infância distante assaltaram-me há dias, no interior da Guiné, em cuja capital, Bissau, estive na última semana no âmbito da minha atividade académica. Estava a meio da antiga ponte Craveiro Lopes, a uns 200 quilómetros a norte de Bissau, quando subitamente me veio à lembrança a imagem e a memória do Toninho, com quem nunca falei, e por isso ele nunca passou para mim de uma imagem afastada do medo e da possibilidade de morte prematura.

Ali, naquela ponte que foi cenário e testemunha de tanta emboscada nos anos 60 do século passado, agora transformada em bocado tranquilo de uma estrada de pouco movimento, é impossível não lembrar essas estórias antigas de tristeza e luto, às vezes disfarçadas pelas prédicas heroicas de um pároco que transformava a missa num espaço de propaganda da ditadura.

Não sei o que é feito do Toninho, sei que voltou ileso da guerra, por causa, garantiam as tias mais beatas que conheci, das rezas e promessas feitas nos bancos da igreja de Santiago, na Covilhã. Bruscamente, como se fora no Verão passado, regressei por instantes, naquela ponte guineense, à cidade da minha infância e a um tempo em que via os adultos segredarem coisas e falarem por meias-palavras, sem que entendesse a razão de tanto disfarce ou percebesse do que falavam. Olhando para trás, é essa uma das imagens que guardo de um certo passado cinzento e triste como eram os invernos naquela cidade de industriais falidos e operários pobres. Mesmo que na escola nos ensinassem que a Covilhã, por causa dos lanifícios, era a “Manchester portuguesa”.

Eis, em suma, como a Guiné de hoje me transportou até um passado longínquo e  aqui relatado em meia-dúzia de linhas. O que, bem vistas as coisas, vem dar razão a Santo Agostinho, que no livro XI de Confissões afirma não ser correto falar de passado, presente e futuro. Do seu ponto de vista há, sim, três tempos: “o presente dos factos passados, o presente dos factos presentes e o presente dos factos futuros”. Assim, o presente do presente corresponde à visão,  o presente do passado é a memória e o presente do futuro é mera expectativa.

Só vivemos, portanto, o presente, mesmo que as viagens interiores ao passado nos proporcionem sensações e emoções difíceis, por vezes, de explicar.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau