Regina de Azevedo Pinto*

Regina de Azevedo Pinto*

21 de Março, dia mundial da Poesia. Nasceu na 30ª Conferência Geral da UNESCO a 16 de Novembro de 1999 pretendendo celebrar a diversidade do diálogo, da comunicação, através da criatividade e da inovação. Para mim é sinónimo de Liberdade. 21 de Março, o despontar da Primavera, a estação do ano que se segue ao Inverno e que precede o Verão, intervalo fértil, associada ao reflorescimento da flora terrestre. Para mim é Nascimento, é o despontar dos cortes ferozes de Inverno, a antecâmara do parto.

A poesia contribui para a diversidade criativa, utilizando a nossa percepção e de compreensão do mundo. A Primavera dá-nos as contribuições mais generosas da terra e da alma, a força que nasce de um suspiro frio.

A poesia é um sopro leve que assola, uma brisa que não nos contorna, não somos rotundas nesses momentos, somos terreno permeável, fértil, onde ela germina em nós. É um sopro que abraça a solidão, a natureza, a nossa intimidade e as nossas revelações. Esta simbiose faz-nos mergulhar na mais profunda solidão, um mergulho em apneia para a nossa intensa intimidade, onde em comunhão com a natureza emergimos com as certezas das nossas revelações, já de boca aberta prontos para engolir o oxigénio, desesperados por ele. Esse oxigénio, é a poesia. Poesia num campo de primavera, onde os sonhos são flores. É uma gargalhada de luz, é cinestesia dos sentimentos. É o nosso entendimento interior a perceber o exterior, uma ponte de comunicação, de prazer. É o abrir das pálpebras para belezas que se descortinam. A virtude é inexpugnável tal como a poesia. É assim que a sinto, um amor correspondido. Uma orquestra de emoções que corre para a janela. Às vezes correm com tanto entusiasmo que se atropelam, outras vezes espreitam com delicadeza apenas, encadernadas pela subtileza. Ora querem falar todas ao mesmo tempo, ora comunicam com os olhos, a retina da memória num silêncio inaudível… Mas vêm sempre para a janela, para serem acariciados pela luz morna que ela emana, a Primavera. Fazem fotossíntese, produzem oxigénio, sustentada em fé, sentem e cantam a nota da poesia. O vento é o mesmo, mas toca-nos de forma diferente traz nas suas costas perfumes de tantas flores…

Todos os caminhos levam apenas a um sítio, aquilo que nós somos, ao nosso jardim, nada nos pode deter desse encontro, tal como nada pode deter a Primavera de despontar. Pode-se cortar um jardim inteiro, fatiar sem escrúpulos as sílabas do amor mas ninguém consegue deter o despontar do verbo amar. A poesia é a primavera dos sentimentos, um ninho de sonhos, o láudano que nos acaricia a alma, que a afaga. Primavera e poesia são sinónimos.

 

* Advogada em Lisboa