Carlos Frota *

Carlos Frota *

Falo dos emigrantes e dos refugiados. Mal amados uns, os outros são os novos párias que interpelam governos e organizações internacionais.

 

Pura miopia política

Na América, crianças a estudar, filhas de imigrantes ilegais, correm o risco de expulsão por Trump. Que, com a sua “expertise” bem conhecida de jurista, como de tudo aliás, e não ouvindo sequer a instância judicial própria, declarou inconstitucional o programa DACA do seu antecessor.

Obama reagiu mas, para já, é Trump e a maioria republicana que têm a palavra e a decisão finais.

Como o antigo presidente, quem se opõe à revogação do DACA olha sobretudo para o contributo futuro de milhares de jovens a estudar, numa América incapaz de se renovar, do ponto de vista demográfico, sem recurso à imigração.

o Anti-DACA converte-se assim (como antes o Anti-Obamacare), no novo nome da miopia política de Donald Trump. Ou, segundo a linguagem desportiva, é mais um golo na própria baliza…

Noutro contexto geográfico e histórico, milhares de pessoas continuam a sair, por todos os meios, de suas terras, na margem sul do Mediterrâneo, para procurarem uma nova oportunidade na Europa rica e em paz.

Dada a surpresa e a dimensão do sucedido, as autoridades nacionais e as comunitárias da União Europeia, impreparadas,  reagiram atabalhoadamente, a esse longo cortejo de infelizes, vagas de homens, mulheres, crianças, recém-nascidos, velhos, sãos e incapacitados fisicamente. Mas, no fim, a maior parte dos governos europeus respondeu com abertura e generosidade.

 

Justiça europeia

Mas alguns não. O Tribunal Europeu acaba de inviabilizar o pedido da Hungria e da Eslováquia para ficarem isentas do acolhimento de refugiados, segundo quotas nacionais decididas a nível comunitário. O Tribunal decidiu bem. Qual é a noção húngara ou eslovaca da solidariedade europeia? A pergunta fica no ar…

Noutro contexto, em Myanmar, milhares também, da etnia Rohingya, fogem para os países vizinhos, por causa das exacções sobre si praticadas pela maioria budista e o exército nacional birmanês.

O Bangladesh vê-se a braços com multidões para auxiliar, para acolher como pode, ou melhor, não pode.

O que faz (ou não faz…) a Senhora Aung San Suu Kyi? Desfez o mito da dissidente lendária, quase de ficção?

O SGNU António Guterres clama, desesperado, por uma solução internacional da questão Rohingya. Que tarda.

 

Coragem e experiência

As eleições gerais alemãs, do próximo dia 24, têm vários aspectos interessantes, para o observador externo. E, desde logo, como é que CDU e SPD, parceiros numa coligação que, apesar das sucessivas crises na Europa e no mundo, tem governado a Alemanha com estabilidade e prudência, podem agora competir, como rivais, num pleito eleitoral tão decisivo para as ambições de liderança de Martin Schultz, como para o coroar da já longa carreira política da actual chanceler. E voltar muito provavelmente a coligar-se, se Merkel for reeleita pela quarta vez.

Mas as próximas eleições alemães têm outra dimensão, muito mais substancial: é que fecharão, para já, o ciclo delirante do populismo europeu, consolidando a opção democrática e pró-europeia, tão essencial à estabilidade da Alemanha e da UE.

De facto, o menos que se pode reconhecer é que, ao concentrar maioritariamente (como se espera) o seu voto nos dois partidos do ainda governo, e independentemente da nova relação de forças que possa surgir, o povo alemão dará prova de grande sensatez, não embarcando em aventuras.

 

Lembrar a crise

Não se gostou nada da omnipresente Merkel, bem sei, durante a crise do euro. Diabolizámo-la mesmo em Portugal, como noutros países do sul aliás, e pelas boas razões, quando se sentiu que eram os mais pobres que pagavam a crise.

Mas talvez a intervenção diplomática da chanceler não tenha estado ausente na superação dos grandes impasses negociais, mormente no caso limite da dívida grega. Bem diferente, no tom e na forma, do truculento ministro Schäuble.

Seria interessante que um dia Alexis Tsipras, o primeiro ministro de Atenas, escrevesse as suas memórias políticas, para se avaliar com justiça o quanto a chanceler terá ou não feito, para se conseguirem os compromissos políticos necessários, a fim de evitar a exclusão da Grécia da zona euro e mesmo, quiçá (como se chegou a referir), da própria União Europeia.

Aliás, não é difícil de prever os resultados de um referendo sobre o Grexit, se os gregos se sentissem abandonados por Bruxelas…

Schäuble ficará para a História como o rosto severo e o dedo acusador contra os países endividados, fonte “paradoxal” (?) de ganhos, afinal, para o establishment financeiro alemão.

Terá a Chanceler ficado pelo papel meritório de mera gestora política da crise?

De qualquer modo… já não estamos nesse contexto, bem ou mal ultrapassado. E o que contam são os desafios pela frente. Se Merkel voltar a ganhar os eleitores recompensarão uma líder experiente, madura, credível.

 

A carta de Obama

Tudo o que não existe, acrescente-se, do outro lado do Atlântico, onde, como Martin Schultz sublinhou, no debate televisivo de 2 de Setembro, os tweets impulsivos e desastrosos de um certo senhor abalaram, no mau sentido, não só o exercício da liderança ao mais alto nível dos Estados e a consequente prática diplomática, mas o grau de confiança de países e populações, muito para além da ilha americana.

Conclusão: Trump não deve ter lido a curta carta que Obama lhe deixou em cima da mesa, só agora divulgada. Concisa mas cheia de ensinamentos, terá parecido tão estranha ao destinatário, como se tivesse sido escrita em língua estrangeira…em swahili, por exemplo…

 

Liderança e credibilidade

Creditar-se-á além do mais a Merkel exactamente o que o presidente americano grotescamente criticou: a sua coragem política, na abertura da Alemanha aos refugiados.

Porque é preciso coragem, e a visão que a fundamenta, ao decidir contra os defensores do germanismo mais xenófobo, do apelo identitário o mais básico, e apontar aos alemães (e aos europeus) o caminho a seguir, na gestão de uma das crises mais difíceis das últimas décadas.

O caminho da abertura e não o do encerramento de fronteiras, sem recurso ao expediente fácil e demagógico que é sempre o discurso nacionalista, usado como instrumento de perpetuação política por alguns líderes europeus, saudosistas do passado, numa Europa que foi vítima da aberração totalitária.

 

A voz da Europa Unida

Noutra dimensão, a chefe do governo de Berlim provou que sabe falar com a actual liderança russa, o que é essencial para a estabilidade no velho continente.

E “ saber falar” é ter abertura para ouvir o outro lado, mas firmeza no discurso, ao defender a visão de uma Europa integrada que quer a Rússia como parceira, mas não a qualquer preço. Não se atemorizando com a ideia de uma nova ordem no Velho Continente, mais conforme à visão de Putin.

Nenhum outro líder europeu pode falar como Merkel ao actual líder russo, portadora que é do seu duplo background, único para os tempos que correm, de originária da antiga RDA e do seu domínio da língua russa.

Falar a mesma linguagem, no plano internacional é, cada vez mais, conhecer a História do outro lado, e a psicologia do interlocutor. E a visão do mundo que ambas moldam e que ressurge quando não se espera. Como nos ensina a Rússia pós Yeltsin.

* Primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau. Docente da Universidade de S. José.