António Aresta *

António Aresta *

Em Outubro de 1979 desembarca em Macau Rogério Peres Claro (1921-2015), natural de Setúbal, para chefiar a Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. Licenciado em filologia românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, professor do ensino técnico, colega e amigo de Sebastião da Gama, Rogério Peres Claro tinha um percurso cultural, político e educacional bastante diversificado que iria colocar ao serviço de Macau, sobretudo os seus dotes de inteligência, sabedoria e organização.

Homem de grande lealdade ao regime do Estado Novo, Rogério Peres Claro foi dirigente da União Nacional, da Juventude Escolar Católica, da Mocidade Portuguesa, deputado à Assembleia Nacional [VII Legislatura, 1957-1961; IX Legislatura, 1965-1969; X Legislatura, 1969-1973] e Inspector Provincial de Educação em Moçambique [1970-1975]. Mas, acima de tudo, foi um homem de cultura, jornalista e director de jornais [“Distrito de Setúbal”, “A Voz de Estremoz”, “Revista Cetóbriga”], escritor, tradutor e editor.

A sua obra é vasta e abrangente pelo que apenas destaco os seguintes títulos: “O Drama de Bocage” (1949) ; “Setúbal no Século XVIII – as informações paroquiais de 1758” (1957); “Eça de Queirós e a Europa – as ideias de Eça” (1958); “Cartas do Director aos Alunos e Alunas da Escola Industrial de Setúbal” (1972); “A Educação da Juventude Portuguesa” (1973); “Setúbal de há 100 anos : 1877” (1977) ; “António Gedeão, os caminhos do seu lirismo” (1983); “Versos do Cantador de Setúbal: António Maria Eusébio (O Calafate)” (1985); “Um Século de Ensino Técnico Profissional em Setúbal: da Escola de Desenho Industrial Princesa D. Amélia à Escola Secundária Sebastião da Gama, 1888-1988” (2000). Como se nota, mesmo fora da sala de aula, os professores são em regra construtores de saberes que colocam ao serviço da comunidade.

Em Macau sucedeu a Túlio Lopes Tomaz na complexa administração educativa nesses anos charneira, de 1979 a 1982. Com base nos relatórios anuais  coligiu em 1997 o precioso volume “A Administração Escolar em Macau, 1979/1982”, publicado pela Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, na Colecção Educação Memórias, sob a égide do Grupo de Trabalho para o Estudo da História da Educação em Macau. Nenhum outro director dos Serviços de Educação produziu uma obra similar, o que deveras se lamenta, porque a breve trecho serão mesmo histórias perdidas, sofrível e lacunarmente reconstituídas através do sumário legislativo publicado no Boletim Oficial.

O governador era o general Nuno Melo Egídio e o secretário-adjunto para os Assuntos Sociais e Cultura era José Mercier Marques, oriundo do gabinete de estudos e planeamento do Ministério da Educação e Investigação Científica então tutelado por Luís Veiga da Cunha.

Recorda-nos Peres Claro que “estavam os Serviços da Educação atribuídos a uma Repartição, exiguamente instalada no 6º andar-C do Edifício Ribeiro da Rua de Santa Clara, fronteiro ao Jardim de S. Francisco, com uma Secção de Actividades Circum-escolares numa acanhada dependência do 8º C. Transferira-se para ali em Janeiro de 1977, no nº 6 da Avenida da República”.

A Repartição dos Serviços de Educação transforma-se em Direcção dos Serviços de Educação, através do Decreto-Lei nº 27-F/79/M, de 28 de Setembro e que em 1980 já era Direcção dos Serviços de Educação e Cultura. A “instalação dos Serviços, que se reconhecia imperiosa em novas dependências, só veio a ocorrer em fins de 1980, porque se pretendera aproveitar o ensejo para se recuperar um conjunto de moradias situadas na Avª. Conselheiro Ferreira de Almeida, de característica arquitectura colonial portuguesa, integradas no conjunto urbanístico do Bairro de São Lázaro. Assim: Em Fevereiro de 1980 foi adjudicada por $907.058,60 a obra de adaptação da moradia nº 95, destinada a sede dos Serviços, com a promessa de estar concluída em Outubro do mesmo ano. Só esteve em Novembro”. Essas instalações foram as penúltimas, sob a administração portuguesa.

A organização burocrática era razoavelmente complexa [repartição de ensino e cultura; repartição da juventude e desportos; conselho pedagógico; comissão de classificação de espectáculos; comissão de bolsas de estudo; conselho coordenador das actividades gimnodesportivas; conselho de arbitragem; conselho técnico e jurisdicional; liceu; escola preparatória; 4 escolas primárias; 1 escola infantil] tendo em consideração a dimensão da comunidade portuguesa.

O governador Melo Egídio considerava prioritário “incrementar as actividades culturais, com relevância para o intercâmbio cultural traduzido na presença de valores nacionais, nomeadamente a expansão da Língua Portuguesa”, enfatizando que “uns querem a conservação de tudo. Outros querem a destruição de toda a cidade antiga, em prol do progresso. Esta Administração quer que Macau seja a imagem de Portugal no Oriente. Por isso condena extremos. Temos de encontrar formulas intermédias que permitam integrar a história no dinamismo do progresso”.

Ora a compreensível ambiguidade desta e de outras proposições não passou despercebida à imprensa portuguesa de Macau, sobretudo ao quinzenário ‘Confluência’, ao semanário ‘O Clarim’ ou ao ‘Diário de Macau’, que esgrimiram argumentos que anunciavam preocupações legítimas quanto à desnacionalização do Território e que por vezes se entretinham com polémicas sazonais para consumo exclusivo da nossa comunidade.

Em Julho de 1978, o deputado Jorge Rangel apresenta, na Assembleia Legislativa, uma funda inquietação: “Não há ninguém no Território que não deseje saber o que está a ser feito com vista ao futuro, a razão de ser de algumas decisões tomadas, os custos envolvidos e até os erros porventura cometidos”. A política educativa parecia errática e sem visão de futuro, não colocando o ensino luso-chinês no topo das prioridades nas linhas de acção governativa.

No 10 de Junho de 1979, o Secretário de Estado da Cultura, David Mourão-Ferreira, trouxe novas e mais acutilantes preocupações em termos de defesa do património e quanto à problemática da difusão da língua portuguesa. Era tarde demais, mas era uma posição moralmente confortável para o poder político. Também por esse tempo, em 1979, prosseguia o labor insano do padre Joaquim Guerra, SJ, que deu à estampa o monumental volume “O Livro dos Cantares”. Dois anos depois surge o primeiro volume das “Quadras de Lu e Relação Auxiliar”, concluído em 1983 com mais quatro volumes. Este esplendor no diálogo entre culturas nunca mais foi igualado ou compreendido e, paradoxalmente, passou quase despercebido numa contemporaneidade distraída.

A escassez de falantes de língua portuguesa era uma pedra no sapato que sobremaneira incomodava os visitantes do mundo da lusofonia. O padre Videira Pires, SJ, escrevia em ‘O Clarim’, de 28 de Maio de 1981 : “deteriora-se, a todos os níveis, a qualidade do português falado e escrito, apesar dos propósitos e esforços dos Serviços de Educação e Cultura em promover o ensino da nossa língua nas escolas particulares”. Peres Claro difunde a posição oficial: “é injusta a acusação que permanentemente se faz às sucessivas administrações de não terem expandido o uso da língua portuguesa, mas natural em quem, chegado a Macau, não consegue fazer-se entender em português no ponto de desembarque, nos transportes, nos hotéis, por vezes nos próprios Serviços. Injusta por desconhecimento dos esforços feitos, ao longo de muitos anos, para ensinar-se os rudimentos de uma língua totalmente estranha na sua estrutura a uma população que nunca lhe viu utilidade, nem no convívio limitado do vende-e-compra diário. Aliás o homem português sempre gostou mais de aprender do que ensinar”. Como sabemos, ambos tinham razão.

Para abrir esse fechado mundo dos Serviços de Educação a toda a comunidade de Macau, Rogério Peres Claro lança um Boletim Informativo chamado ‘RUMO’, sob o lema, “educar não pode ser, nem é em Macau, privilégio de uns tantos, mas propósito de muitos e valiosos elementos, que nunca serão de mais”. Foram publicados doze números, com a respectiva versão chinesa, pelo que “constitui hoje um repositório circunstanciado de quanto e como se trabalhou na Educação em 1980 e 1981”.

Realmente o muito que então se fez, hoje parece muito pouco e escasso. Por isso é necessário reconhecer esse esforço e o mérito desse trabalho até porque a “Direcção dos Serviços de Educação e Cultura teve perante si um teclado de tarefas que procurou tocar harmonicamente, embora sem os meios humanos suficientes para o fazer, com a vontade determinada de cumprir o que lhe fora cometido, para além da rotina do serviço”.

Em 1981 o governador Melo Egídio é nomeado Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas. A 16 de Junho desse mesmo ano, toma posse como governador o Comandante Vasco de Almeida e Costa e sendo Jorge Rangel nomeado secretário-adjunto para a Educação, Cultura e Turismo.

Rogério Peres Claro regressa a Portugal, aposentando-se em 1982. A Câmara Municipal de Setúbal distingue-o, em 1989, com a Medalha de Honra da cidade. Continua a manter uma vida cultural activa, colaborando com o Centro de Estudos Bocageanos, do qual foi um dos fundadores. Entretanto a sua energia é direccionada para a construção da sede da Associação de Solidariedade Social dos Professores, sedeada em Setúbal.

Uma vida cheia que transbordou para a solidariedade e para a defesa da dignidade da profissão docente.