Jorge A. H. Rangel *

Jorge A. H. Rangel *

“Assombrava-me como levou a cabo obra tão multiforme, desdobrando-se, com igual naturalidade, por iniciativas de apostolado, de alta cultura, de educação, de ensino…”

 

Francisco Videira Pires, “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão” (IIM, 2011)


 

 

Por ocasião do centenário do nascimento do Pe. Benjamim Videira Pires, S.J. (1916-1999), decidiu a Revista de Cultura, do Instituto Cultural do Governo da RAEM, dedicar-lhe um amplo espaço do número 53 da sua edição internacional, para o que convidou reputados investigadores, como Aureliano Barata, António Aresta, Ana Cristina Alves, Celina Veiga de Oliveira, Jorge de Abreu Arrimar, Jorge Bruxo e Maria de Lurdes Escaleira, a contribuírem com artigos sobre a vida, o pensamento e a obra deste missionário, pedagogo, historiador e escritor, que foi uma das mais marcantes personalidades da vida cultural e cívica de Macau na segunda metade do século XX.

Os trabalhos apresentados, cujos títulos bem apelativos são “A Miscigenação de Benjamim Videira Pires”, “Padre Benjamim Videira Pires: Percurso de Um Educador e Historiador de Macau”, “A Identidade Cultural de Macau no Pensamento de Benjamim Videira Pires, S.J.”, “A Embaixada Mártir de Benjamim Videira Pires: O Cristianismo e a Sua Circunstância”, “Subindo no Céu do Oriente” e “Pensamento e Acção de Benjamim Videira Pires em Religião e Pátria”, permitem ao leitor abarcar, em larga medida, a dimensão excepcional que esta figura multifacetada alcançou e projectou através da sua intervenção persistente e consequente em variados domínios.

Coube-me o privilégio de abrir esta série de qualificadas contribuições com um artigo intitulado “Benjamim Videira Pires, S.J. – Memória e Homenagem”.

 

Outros actos comemorativos

Por iniciativa do Instituto Internacional de Macau (IIM), foi dado início, logo em Janeiro de 2016, às comemorações deste centenário, com uma bonita e bem participada sessão, eloquentemente protagonizada pela professora e investigadora Beatriz Basto da Silva. Entretanto, o IIM havia publicado, em 2011, o livro “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão”, de Francisco Videira Pires, ele próprio também sacerdote jesuíta e escritor, além de professor universitário e sociólogo, cujo testemunho é incontornável quando se pretende evocar o legado do seu irmão em Macau. Por isso, nas notas introdutórias que me foi solicitado que redigisse para abrir este capítulo da Revista de Cultura, para além de recorrer à memória que guardei do relacionamento que pudemos manter ao longo de muitos anos, fui buscar naquela oportuna biografia, que o IIM integrou na sua colecção “Missionários para o Século XXI”, os elementos necessários à correcta caracterização daquela notabilíssima personalidade nos diversos enquadramentos e facetas que importa destacar.

Bom seria que as acções atrás referidas tivessem sido complementadas com mais realizações, na forma de palestras, artigos e edições, sendo desejável a republicação de algumas das obras mais emblemáticas de Benjamim Videira Pires e a compilação de trabalhos seus que ficaram dispersos por jornais e revistas. É um desafio que se lança de novo a instituições locais com óbvias responsabilidades nos sectores académico e cultural, em geral.

Notas biográficas

O livro “Os Extremos Conciliam-se (Transculturação em Macau)” de Benjamim Videira Pires foi, para muitos, a sua obra mais exaltante, pela profundidade de interpretação do sentido da missão de Portugal no Oriente e do papel de Macau no contexto do prolongado encontro de culturas que aqui se produziu. Ela contém uma sucinta nota biográfica, referindo o seu nascimento em Torre de D. Chama, Mirandela, em 1916, e o seu ingresso na Companhia de Jesus em 1932, sendo ordenado sacerdote em Agosto de 1945. Completou a formação em Salamanca, foi professor e partiu para Macau em Novembro de 1948, “onde estudou chinês, tendo vindo a exercer funções docentes (Liceu Nacional Infante D. Henrique) e pastorais (capelão militar, etc.)”.

Sobre as suas múltiplas actividades, aquele apontamento biográfico acrescentou ainda o seguinte:

“É director, desde 1961, do Instituto D. Melchior Carneiro, de que também é fundador, pertencendo ainda a diversas associações de História (membro do Instituto Histórico Ultramarino, governador da International Association of Historians of Asia, etc.) e tendo representado Portugal e Macau em várias conferências e colóquios nacionais e internacionais.

A sua obra literária encontra-se dispersa em várias publicações, particularmente, na revista ‘Religião e Pátria’ (1956-1968), tendo publicado também alguns livros, com destaque para ‘A Mulher Venceu’, ‘Pregai o Evangelho’, ‘Jardins Suspensos’ (poesia), ‘Espelho do Mar’ (poesia), ‘A Embaixada Mártir’ e ‘Portugal no Tecto no Mundo’.”

Este livro saiu do prelo em 1988, sendo edição do Instituto Cultural de Macau. Dez anos depois, em Agosto de 1998, Benjamim Videira Pires, após um período dolorosamente atribulado neste território, partiria definitivamente para Portugal, já visivelmente debilitado, vindo a falecer no ano seguinte.

Ninguém melhor do que o seu irmão e íntimo confidente, Francisco Videira Pires, podia ter feito a sua biografia. Na introdução, sintetizou deste modo a dimensão da personalidade do irmão, por quem nutriu “admiração superior à de qualquer outro membro da família”:

“Quando, em começos de Janeiro de 1949, arriba a Macau, vindo de Hong-Kong, a bordo do Kuantung, ‘uma sucata velha, de chaminé alta como um charuto’, o P. Benjamim, no vigor dos 32 anos, longe andava de pensar que só regressaria definitivamente a Lisboa, em voo da TAP, às 6 da madrugada do dia 6 de Agosto de 1998, reduzido a uma ruína e em cadeira de rodas. Neste espaço de quase 50 anos, a sua vida confunde-se de tal modo com a da ‘Cidade do Santo Nome de Deus’, em apostolado sacerdotal e actividade cultural, que não soam a hipérbole as palavras do Prof. Doutor Veríssimo Serrão, na carta de pêsames que me escreveu, ao afirmar que, enquanto a herança portuguesa perdurar nesse território, o nome de meu irmão permaneceria também indelevelmente ligado a ele.

Não é fácil escrever sobre um irmão que, para mais, em cartas e dedicatórias de livros, sempre me chamava ‘irmão duas vezes’ – pelo sangue e sacerdócio comuns. Ninguém, por isso, foi tanto seu confidente. A sintonia psicológica, percursos e ideais idênticos, longa e constantemente entrecruzados, permitiram-me viver com ele, em completa empatia, ano a ano e a despeito das distâncias geográficas, cada um dos seus grandes ou pequenos dramas. A carta e o telefone, quantas vezes madrugada alta, pontuavam ‘os trabalhos e os dias’ dum e doutro.”

O título que escolheu foi “P. Benjamim Videira Pires, Meu irmão”. É preciso ler esta obra para melhor se entender o longo percurso e o período conturbado da sua vida nos últimos anos em Macau.

António Aresta, professor e investigador, com extensa e valiosa obra dedicada a Macau, incluiu-o entre as 28 “figuras de jade”, portugueses que se notabilizaram pela sua ligação ou relação com o Extremo Oriente, cujas breves biografias foi publicando no Jornal Tribuna de Macau e reuniu depois em “Figuras de Jade – Os Portugueses no Extremo Oriente” (IIM, 2014).

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.