Raul Maximo Silva

Raul Maximo Silva

O início das relações entre o Vietname e o Ocidente teve lugar durante os séculos XVI e XVII.

Nos textos imperiais sobre a História do Vietname (Kham dinh Viet su), Nguyen Hoa, do reino de Le Trang Tong, relata que em 1533, ano do início da última dinastia Lê, um ocidental, de nome “Inékhu” (talvez Inácio) veio, por via marítima, pregar o catolicismo nas aldeias de Ninh Cuong e Quan Anh, no distrito de Nam Truc e na aldeia de Tra Lu, no distrito de Xuan Truong, província de Nam Dinh mas, imediatamente, foi alvo de um decreto de proscrição.

Embora não tivesse sido possível identificar o país de origem do tal “Inékhu”, os contactos com as comunidades locais permitiram confirmar que os portugueses tinham sido os primeiros ocidentais a chegar ao Vietname nos séculos XVI e XVII.

Na primeira metade do século XVI, um certo número de portugueses chegou ao litoral da Indochina: Fernando Peres em 1516, Duarte Coelho em 1523 e António Faria em 1535 e ainda outros, sobreviventes de naufrágios.

Duarte Coelho foi militar e administrador colonial tendo servido na Índia entre 1509 e 1527.

1.1Nessa época visitou os territórios do Sião e da Cochinchina, actuais Tailândia, Vietname e China. Por ordem de D. Manuel I, partiu de Malaca em 1523 para descobrir as costas da Cochinchina e o delta do rio Mekong. Tentou estabelecer um acordo de comércio com os senhores locais mas, devido aos confrontos entre os clãs senhoriais rivais, tal foi impossível.

Ergueu um padrão com as armas do reino de Portugal algures na orla costeira dos antigos reinos do Tonquim, da Cochinchina e de Champa (actual Vietname) o qual, continua por localizar.

Em 1518, esteve na ilha de Cu Lao Cham, na baía de Faifo (Hoi An) onde deixou uma inscrição gravada a qual, mais tarde, seria avistada por Fernão Mendes Pinto como relata na sua obra Peregrinação.

O capitão António Faria foi o primeiro militar português a chegar ao Vietname.

Desembarcou em Da Nang em 1535 e ao que consta foi o responsável pelo estabelecimento do entreposto comercial português em Faifo (Hoi An). Até ao séc. XIX, Hoi An foi um dos mais importantes portos do sudeste da Ásia.

Por volta de 1540, as relações comerciais entre Portugal e o Vietname (Cochinchina), foram estabelecidas, inicialmente com o Sul devido ao porto marítimo de Faifo (Hoi An) que viria a tornar-se um centro de comércio com vários países do mundo.

Todos os anos, em Dezembro ou Janeiro, um ou dois navios partiam de Macau com destino a Hoi An onde adquiriam sedas, açúcar, pimenta e outros bens.

Nessas embarcações mercantis viajavam também missionários que propagavam a fé cristã e serviam como intérpretes. A rota comercial Macau – Vietname era vital para o comércio marítimo português naquela região asiática.

Mais tarde, já com a feitoria portuguesa estabelecida em Hoi An, os portugueses comerciavam com os locais, com chineses, japoneses e com todos aqueles que, com esse fim, se deslocavam a Hoi An.

Da China, traziam tutanaga (cobre da China), chá, porcelanas e outros bens. Vendiam açúcar à Índia e seda crua e madeiras (eaglewood) aos holandeses de Batavia (actual Jacarta).

A religião e o comércio estiveram sempre  associados na expansão da presença portuguesa no Vietname. Para poderem exercer livremente as suas actividades, padres e comerciantes viam-se obrigados a oferecer valiosos presentes aos senhores das dinastias Trinh e Ngyuen.

O fornecimento de tecnologia militar, de armas e de homens que davam formação militar aos exércitos locais foi também fundamental para a manutenção das boas relações.

Nessa área, destacou-se João da Cruz, um mestiço natural de Macau que viria a ser o principal fundidor na capital imperial de Sinoa (Hué).

Ainda hoje, no interior da fortaleza dessa cidade, podem ser vistos canhões, bacias, caldeirões e outros objectos de bronze que ostentam o seu selo.

No Vietname, os portugueses não construíram fortalezas e até recusaram, várias vezes, a oferta dos soberanos locais para que construíssem um bairro e uma feitoria na antiga cidade de Tourane (actual Da Nang), embora aí tivessem comerciado intensamente, assim como em Faifo e Sinoa (actual Hué), e noutros portos, mais a norte, próximos de Hanói.

Os Nguyen e os Trinh, senhores dos reinos da Cochinchina e do Tonquim, sempre tentaram atrair os mercadores portugueses à sua área de influência apesar de terem existido longos períodos de interdições ao comércio e guerras.

Vicissitudes várias levaram a que os europeus se dessem conta da extrema dificuldade em efectuar um comércio rentável com o Vietname e de propagar aí a fé cristã. Uma a uma, as delegações ocidentais foram abandonando as respectivas feitorias e, após 1700, apenas os portugueses mantinham relações comerciais com o Vietname, numa época em que o declínio do império português, iniciado com a ocupação espanhola, era já um processo irreversível.

No rasto dos mercadores, em 1527, chegaram os missionários dominicanos. Outros missionários portugueses,  entretanto chegados, estabeleceram uma Missão católica em 1596.

Em 1615, um ano após a proibição do catolicismo no Japão, os missionários jesuítas Francesco Buzzoni (italiano), Diogo de Carvalho e o leigo António Dias (portugueses), acompanhados por um grupo de cristãos japoneses exilados do seu país, entre os quais Joseph Paul, um japonês convertido, desembarcaram no porto de Cua Han (Da Nang) no dia 18 de Janeiro.

Nesse dia, Buzzoni celebrou missa e baptizou dez novos cristãos, actos religiosos que marcaram o nascimento da Igreja vietnamita. Foi através dos jesuítas expulsos do Japão que o cristianismo ganhou verdadeira solidez no Vietname.

Em 1626, outros jesuítas chegaram a Hanói e iniciaram a evangelização de Tonquim.

Após o regresso de Diogo de Carvalho ao Japão em 1616 onde viria ser condenado à morte em 1624 (mártir de Sendai), Buzzoni recebeu um reforço de Macau em 1617, o padre português Francisco de Pina.

Para que a pregação da religião fosse bem sucedida era fundamental que fosse feita na língua local e Francisco de Pina foi o primeiro europeu a dedicar-se ao estudo da língua vietnamita e a falá-la fluentemente. Foi na missão de Hoi An, no contacto com os falantes nativos, que se apaixonou pela língua vietnamita e se auto-propôs a realizar uma tarefa de todo exigente e pioneira; romanizar a língua escrita do Vietname, que até então era apresentada sob o antigo registo baseado em ideogramas de feição chinesa. A morte acidental aos 40 anos de idade, impediu-o de concluir o seu projecto.

Também os primeiros dicionários bilingues Anamita-Português-Latim e Português-Anamita-Latim, foram elaborados pelos missionários  portugueses  Gaspar do Amaral e António Barbosa. Infelizmente, os manuscritos desapareceram.

Os séculos XVI e XVII foram a era dourada das relações históricas e culturais luso-vietnamitas com destaque para o comércio, a propagação do catolicismo e a criação do Quoc Ngu, a escrita oficial da língua vietnamita, criada a partir da romanização da mesma cujo pioneiro foi o padre português Francisco de Pina.

 

* Membro da NamPor (Associação de Amizade Portugal-Vietname)