Jorge A. H. Rangel *

Jorge A. H. Rangel *

“Estão os hotéis de Hong Kong repletos de hóspedes sempre, os bons; está o único hotel que há em Macau, dias seguidos assobiando por fregueses.”

 

No fim da Grande Guerra (1914-18) era visível o declínio acentuado de Macau. Enquanto em Hong Kong se abriam novas vias de crescimento e prosperidade, Macau definhava e já nem sequer tinha condições para atrair forasteiros que, nesse tempo e nas décadas seguintes, começavam a demandar a nova colónia britânica. Num artigo publicado no jornal “O Macaense”, de 7 de Novembro de 1920, Manuel da Silva Mendes punha o dedo na ferida:

 

Sem hotéis

“Faz grande falta em Macau um hotel que se possa dizer bom. Há uns seis ou oito anos ainda havia o Hotel da Boa-Vista e o Macau-Hotel, que serviam menos mal. Nenhum deles, porém, estava bem à altura já do conforto desejável e por isso não tantos forasteiros aqui vinham, como, se melhores fossem, viriam visitar-nos.

Pelintras são poucos os que viajam e destes o maior número metem-se em qualquer canto, nos lugares de terceira ou quarta ordem, que todos os bons hotéis em regra têm, e fazem ou cuidam que fazem mesmo assim grande figura – Em que hotel Você ficou? – No Palace Hotel. (Já se entende: nas traseiras de um quarto ou quinto andar com vistas sobre a cozinha e o depósito de carvão; mas o sujeito, cuidando que em outro sentido a resposta lhe tomaram, fica com vontade de lá voltar para mais uma vez se envaidecer).

Têm sobre os de meia tijela os hotéis de luxo esta vantagem: aparato, conforto, bons bifes, macios aposentos para quem tem dinheiro e gosta de gozar; lugares de segunda ordem, comodidade, para quem na bolsa tem modéstia; e muita vaidade para pelintras amigos de aparentar grandezas. E há tantos.

Quer, porém, em Macau um rico, novo ou velho, sobre um macio sofá um charuto espiralizando fazer luzir os dólares e abundantemente de champanhe regar a pança, dão-lhe de verga um soi-disant sofá e do ‘José e Joaquim and Co.’ uma mixórdia avinagrada. Se quer um dandy noivo com a noiva gentil por uma temporada em Macau aluar-se, ou outro que noivo não é, com uma romântica gazela em ‘flirt’ uns dias passar, em vez dos fofos colchões que o caso requer, com soldadesco leito topa que os ideais do himineu logo desfaz ou outras ilusões.

Não está bem. Não será para muito, mas não é terra Macau para tão pouco. A guerra explicou e justificou muita coisa: mas, agora, que tantos ricos há, que tanta gente viaja, estamos desaproveitando riqueza, dinheiro, e perdendo nome, ineptamente. Estão os hotéis de Hong Kong repletos de hóspedes sempre, os bons; está o único hotel que há em Macau, dias seguidos assobiando por fregueses.

É o caso: trepa quem tem unhas (unhas aqui é cabeça) e nós não as temos. Os chineses, no ‘manejo’ dos quais está o único hotel que aqui existe, o New Macao Hotel, terão vontade mas, está provado, não têm jeito para isto. Um ‘tiang’ com bico de rouxinóis, ninhos de andorinha, barbatanas de peixe, rebentos de bambú, ‘vinho’ de rosas e… pipáchais, arranjam bem: fora disto, não dão. E isto não é o que o rico quer, a não ser uma vez para dizer que viu… e que provou…

Foi nomeada, há dois anos ou mais, uma grande comissão (de que felizmente não fizemos parte) de turismo chamada, que no seu complexo programa tinha, se bem nos recordamos, um capítulo encimado com a palavra Hotéis. Ora não seria por culpa da comissão, mas o caso deu-se de ficarmos daí em diante cada vez em matéria de hotéis ‘mais pior’. São sempre assim as grandes comissões; se fazem pouco as pequenas, não fazem as grandes nada.

Um bom hotel é, pois, uma das necessidades de que Macau precisa não sofrer. Como, porém, remediá-la, com lucros bons para quem se meter a isso, não sabemos nós; que se soubéssemos, não publicaríamos a receita, mas para nós a aviaríamos, que andamos do vil metal mais que bastante precisado.”

 

Nada que atraía forasteiros

Além de lembrar a falta de hotéis, Silva Mendes foi também demolidor, talvez injustamente, no que respeita à ausência de atractivos turísticos:

“Censurou-nos um amigo, não vai há muito tempo – um amigo que sabe, elogiando, censurar – porque havemos, por vezes, feito crítica com convincente lógica (sua expressão) destrutiva de ideias ou planos que o público tem por bons, sem indicarmos ao mesmo tempo substitutos que o mesmo público tenha por melhores, ou sem desanuviarmos os horizontes de coisas tristes. Aqui, porém, esperamos que igual merecida crítica nos não caiba, porquanto, em vez de um bife um coiro, que é o que dão, ninguém, o nosso amigo inclusive (que não é de maus comeres), por certo, há que goste. Deve este artigo satisfazê-lo agora, pelo suco não, que não tem nenhum, que lhe dê proveito, mas por ver que não caem as suas observações em roto saco. Resolvem-se problemas destes pela particular iniciativa, ou, quando esta falta ou não é eficaz bastante, pela acção daqueles que têm por cargo velar de cima, em instância última, pela pública prosperidade.

De lamentar é que em Macau a iniciativa particular não baste, sobretudo se atendermos a que em muitas terras de bem somenos cabedais e movimento ela é suficiente. Parece que é sina nossa aqui não termos nada que atraia forasteiros, como tantas outras terras têm. Em Portugal, por exemplo, tem Lisboa o bom colares, Coimbra as arrufadas, o bom mexilhão Aveiro, o Porto seu conceituado vinho e tripas, Braga frigideiras, todas as terras, enfim, seus pitéus, com que a gente se pode consolar à tripa forra. Em Macau, de original, só conhecemos, de ver que não de experimentar, de mãos chinesas os ‘tiangs e pipáchais’ e de macaístas o ‘chao chao diabo’, que não são positivamente para turistas, entre os quais abundam, nos tempos que vão correndo, fracas damas delicadas, comeres dos mais apetitosos.

Tudo hoje anda mudado. Os espirituais apetites estão pelo preço agora dos rublos. Não vemos, como já vimos, bichas de gente de enfiada para as igrejas: tudo enfia hoje, de automóvel para chegar depressa, não vá o bife arrefecer, para o hotel ou o restaurante. Carnais apetites, e nada mais. Temos até certo receio, tão solitárias as igrejas e os museus estão, de lá entrar, não vão mal dizentes línguas pôr as nossas espirituais tendências em suspeita, quando lá, a sós com o sacristão ou o porteiro, nos lobriguem.

Temos aqui no ‘Macaense’, repetidas vezes, a excelência dos prazeres espirituais posto em relevo, e aconselhado (posto que de pesado conselho não sejamos, mas, enfim, na qualidade de carola, que ainda nos honramos de nestas coisas possuir) ao governo, mas em vão, artísticos atractivos aos turistas apresentar. Confessamos, porém, que temos andado no reino da lua ou começado pelo fim; e hoje reconhecemos que devem o bife e os colchões moles ter na vida primazia, e que, sem isso, nada, como nos está acontecendo; depois, depois, outro bife, e talvez mais nada…”

Realmente, só muito tardiamente o território acreditou nas suas potencialidades turísticas e apostou nelas. Apesar da situação conturbada vivida na China, foram aparecendo alguns novos hotéis e restaurantes nas décadas de 1920 e 1930, mas uma promoção turística mais consistente só tomou forma a partir da criação de uma estrutura incipiente denominada Secção de Propaganda dos Serviços de Economia, a que se seguiu, já na década de 1960, a criação do Centro de Informação e Turismo de Macau.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.