João Figueira *

João Figueira *

Espantar-se era, para Nelson Rodrigues, o genial cronista brasileiro, tão imprescindível como respirar. Não concebia a vida sem espanto, despida de surpresa e de imprevisto. Todavia, o espanto implica atenção, estar desperto e vivo a tempo inteiro.

No filme estreado há dias, em Portugal, “Zeus”, há uma frase que parece ter sido escrita a pensar em Nelson Rodrigues: “toda a gente morre, mas nem toda a gente vive”. Ora, o que o talentoso jornalista e dramaturgo sempre soube foi viver intensamente, independentemente dos ziguezagues que o levaram, ora a apoiar a ditadura brasileira, ora, mais tarde, a defender com unhas e dentes na máquina de escrever as suas vítimas.

Foi esse mesmo espanto que aos 11 anos, quando passeava pela sua Boston natal sentiu Nat Hentoff, quando ouviu um som de clarinete que lhe mudou a vida. Era Artie Shaw que tocava numa loja de discos e, nesse instante, o trecho “Nightmare” que tanto abalou o então miúdo Hentoff não foi um pesadelo, mas a sua estrada de Damasco:  decidiu ali mesmo que a sua vida teria forçosamente de estar ligada aquele som mágico que tanto o espantou. Em breve e até aos 91 anos com que faleceu a semana passada no seu apartamento em Manhattan, tornou-se num dos mais respeitados e influentes escritores de jazz. Digo escritores porque ele foi mais que um crítico, que um fundador de publicações, entre as quais se destaca a Jazz Review, que criou com Martin Williams, outro nome incontornável da crítica de jazz.

Autor de quase quatro dezenas de livros, a maioria dedicados ao jazz, Nat Hentoff era possuidor de uma formação cultural consistente, apreendida em universidades norte-americanas, como Harvard, mas também na Sorbonne. Em 1952 começa a escrever na Bíblia do jazz, que era e é a Dowbeat. Pouco depois, substitui Leonard Feather como editor da revista, em Nova Iorque. Da qual seria despedido em 1957 por ter contratado uma secretária negra, sem antes ter pedido autorização ao proprietário da revista.

(Como é que uma publicação que vivia e vive, em grande parte, da música feita e protagonizada por negros ficou tão espantada – e o seu dono ofendido – por a sua redacção de Nova Iorque ter uma secretária negra?…)

Dizia eu que para Nelson Rodrigues o espanto era o seu respirar. Andava ele pelos quatro anos, como recorda em “A menina sem estrela”, quando um valsa – soube mais tarde que era da opereta “Conde Luxemburgo”, de Franz Léhar – vinda da casa do vizinho o abalou de tal modo que foi a partir daquele instante que “comecei a ouvir o mundo”.

E assim a música, enquanto espanto, pode mudar ou marcar a vida das pessoas. Como a um outro nível o erotismo marcou a escrita e a vida do cronista brasileiro. Parece estar tudo ligado. Porque faz sentido referir novamente “Zeus”, filme sobre a vida esquecida do sétimo presidente da república portuguesa, Teixeira Gomes, escritor de romances eróticos. Mas esse é apenas um detalhe. O que aproxima o presidente que partiu voluntariamente para o exílio na Argélia no primeiro cargueiro que saía de Lisboa e Nelson Rodrigues é uma certa febre e intensidade de viver.

Para o jornalista brasileiro, não havia “pior degradação do que viver pelo hábito de viver, pelo vício de viver, pelo desespero de viver”. O mesmo pensava Teixeira Gomes e por isso deixou tudo e partiu para não voltar – apenas para se encontrar consigo mesmo.

É para me espantar com esta figura e com o que ele foi e é, infelizmente, tão pouco conhecida, que hoje vou ao cinema ver o filme que Paulo Filipe levou sete anos a concretizar. Todo o espanto tem um sonho, uma insensatez ou persistência, que o torna ainda mais apetecível e desejado. E por isso inesquecível.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau