Carlos Frota *

Carlos Frota *

Leio, qual filósofo irónico, que o príncipe consorte da Dinamarca, Henrik, marido da Rainha Margreth, decidiu, quando o fatídico mas solene momento chegar, ser sepultado em lugar à parte do da rainha, não beneficiando pois da companhia eterna, no mesmo sarcófago, da sua augusta soberana e esposa.

Razão? O príncipe “vingar-se-á”, a título póstumo e por toda a eternidade, do enorme vexame, da terrível inferioridade que sofreu e sofre em vida: o de não ter sido nunca elevado à dignidade real, isto é, de não ter sido rei, o igual de sua mulher !

Nunca ter sido igual àquela com quem partilha em vida o leito e o pequeno almoço, o café da manhã em robe de chambre… e os sabores e dissabores da Coroa!

Mas repare-se no exemplo de Filipe, Duque de Edimburgo: sofre da mesma desigualdade congénita, o seu sangue azul não tem o mesmo tom de azul da sua tão digna Elizabeth, mas sem tugir nem mugir, aceita a situação heroicamente, com estoicismo militar. Talvez pensando em Albert, o marido da sereníssima, fertilíssima Rainha Vitória.

Albert, tão activo em vida, serviu a soberana em todas as frentes, dando-lhe generosamente a prole e as ideias… e,  por tudo isso, foi endeusado na morte!

O Príncipe Filipe definiu-se por várias vezes como o líder mundial das inaugurações de exposições e descerramento de placas comemorativas.

Será que Henryk da Dinamarca pode reclamar legado tão… activo?

 

Confissões de um príncipe com sorte

 

Confessava  há tempos, com  franqueza… senão com ingenuidade (!) o bem humorado príncipe Harry, segundo filho de Carlos, herdeiro do trono de Inglaterra que, se pudessem recusar as obrigações inerentes aos cargos, ninguém, entre os seus parentes, quereria ser rei nem assumir os outros deveres da família real. Pois…

Ao ler tais reflexões, não pude deixar de pensar, ironicamente, que toda a gente prefere o prazer e o privilégio… sem encargos…

E se ser “royal” é ter um “very special job”, compreende-se que vestir o uniforme das paradas é certamente uma maçada, em vez de ir jogar polo ou passar uma noite de farra elegante em Nova Iorque.

E que participar em enfadonhos jantares de Estado, em Buckingham, com os monocórdicos discursos de circunstância, é tarefa muito menos apetecível do que andar incógnito pelo mundo, em todos os lugares onde o luxo impera e a cortesia se paga, com as algibeiras recheadas de libras…

…da lista civil, a expensas dos súbditos de Sua Majestade, fiéis pagadores de impostos.

As monarquias modernas sempre me fascinaram. Pelo seu desafio permanente entre simbolismo tradicionalista, largamente ultrapassado pelo secularismo e racionalidade dos novos tempos, e o perigo mortal da irrelevância social e política.

Entre a sábia gestão mediática da sua “utilidade”, e o vazio inevitável das mensagens para um mundo que, pelo vistos, ainda sofre, paradoxalmente, dessa doença infantil:  acreditar em histórias de fadas e príncipes encantados.

 

 

 Cale-se lá com isso, ó vizinho!

 

Foi revelado que Trump, em conversa telefónica já “antiga” com o homólogo mexicano, tentou pressionar Enrique Pena Nieto a que este se calasse, quanto a reiteradas declarações públicas de que “ não pagará o muro”.

O tal muro que conheceu várias versões, ao sabor dos trumpianos discursos de comício, desde uma altíssima barreira intransponível, nova maravilha da engenharia americana, até um muro coberto de painéis solares, fonte inesgotável de energia para ser utilizada… nessa terra “de ninguém” que é a fronteira comum?

Cala-te lá, ó vizinho! Como quem diz: não me embaraces mais e deixa lá  de falar nessa “coisa”! Vamos resolver isto a bem, pela calada. Basta de ser constantemente lembrado por mais essa promessa tola de campanha!

-É preciso ter lata, Mr. President!

O senhor desrespeita um povo, ridiculariza uma nação, insulta um presidente, e depois quer o silêncio, para que as suas inflamadas promessas, tolas promessas de campanha sejam esquecidas !

Apetecia dizer:

Fala mais alto, fale constantemente, Presidente Pena Nieta! Denuncie as tolices populistas vindas de Washington!

Mas não, não será assim. Enrique Pena Nieto terá que pensar, como qualquer líder responsável, defensor dos interesses do seu país,  na renegociação do  Acordo NAFTA versão Trump. Na comunidade mexicana nos Estados Unidos. Nas empresas americanas no México. E nos empregos que elas asseguram…

A diplomacia será aqui, mais uma vez, um forçado calar da boca, para que se salvem interesses muito para além da resposta contundente que o vizinho Donald merecia. E continua a merecer.

 

O grande júri

 

Robert  Mueller, o director do FBI sucessor de Comey, amplia a investigação contra Trump, na controvérsia sobre a natureza das suas relações com a Rússia, e decide-se pela constituição de um painel de cidadãos, para deliberarem sobre o início ou não do processo acusatório contra o presidente.

A constituição do grande júri confere só por si uma relevância ainda maior à investigação em curso, transformando simbolicamente a natureza puramente processual das diligências, até aqui empreendidas, numa espécie de devolução ao povo do que ao povo  pertence : julgar o presidente.

Com todas as precauções de confidencialidade em torno das pessoas que o painel de jurados intimar a depôr, e não transformando por isso o que se vai seguir numa espécie de “tribunal popular”, não há dúvida de que, no plano simbólico e não só, o TrumpGate como já lhe chamam, assume a partir de agora uma seriedade incontestável, bem no centro da justiça (e cada vez mais da  política…) americana.

 

Em honra do seu nome

 

António Escaramuças, perdão, Anthony Scaramuchi (perdoe-se-me o tentador aportuguesamento do nome, tão ajustado está ao temperamento brigão do personagem) foi o mais breve director de comunicação da Casa Branca: dez dias.

Entrou com ares de leão, e saiu com a invisibilidade de um pequenino rato hanster. Nem Trump respondeu à sua tentativa de uma última explicação telefónica. Finished! Out!

Scaramucci insultou toda a gente e iniciou guerras que não podia ganhar. Um pequeno Napoleão pois, exilado agora na sua própria ilha  de Santa Helena.

Cheguei, vi e perdi – dir-se-á o falso herói.

Sabe-se, de outras presidências, tanto republicanas como democratas, que o círculo de colaboradores mais próximos do Gabinete Oval é sempre, mais ou menos, um mundo de facas afiadas, na eterna disputa de saber quem ganha as preferências e os ouvidos do boss.

Mas agora é mais grave, porque a tal dinâmica “normal” acresce a idiossincrasia do Chefe.

Todo o problema da Casa Branca de Trump reside na personalidade no inquilino que ali começou a viver desde 20 de Janeiro. Nas escolhas que faz. No modo como se processam as relações entre colaboradores e na facilidade com que vêm a público.

Se a guerra civil é má, ter cada episódio estampado on line na comunicação social é pior ainda!

Mas quem foi que generalizou afinal a espontaneidade criativa  dos twitters?

 

O  infeliz destino de Rex Tillerson

 

Numa existência anterior, num mundo talvez mais perfeito sem o próprio saber,  o homem mandava na Exxon Mobil, tomava decisões importantes, percorria o mundo a fazer negócios decisivos, a tratar quase tu cá tu lá os grandes líderes mundiais, como Putin.

Agora, os twitters de Trump fazem a política externa da América.

E o Secretário de Estado o que faz? Palavras cruzadas?