Carlos Frota *

Carlos Frota *

…E o resto. Sobretudo o resto, porque dele depende quase tudo. Desde a paz para a nossa geração e as que se seguirem, até  ao progresso contínuo de nações e de povos, mormente na vasta Ásia.

Estivesse ou não preparado, há um ano, para o nível de responsabilidades internacionais que assumiu – é Donald Trump (e não outro) um dos protagonistas mais decisivos do momento presente.

Reconhecendo a idiossincrasia do personagem, os anteriores anfitriões, japoneses e sul-coreanos, esmeraram-se no acolhimento. Mas foram as autoridades chinesas que meticulosamente organizaram o que foi qualificado de uma visita de estado “plus”, exprimindo o rigor e a qualidade excepcionais da hospitalidade, reservada a visitante tão relevante.

Mas a excelência do acolhimento não transforma a essência das questões por resolver. E a Coreia do Norte esteve assim no topo das prioridades dos dois líderes. Como o comércio bilateral.

Não tenho qualquer pejo em afirmar que a visita de Estado de Trump a Pequim constituiu uma vitória para a China, de todos os pontos de vista.

Houve o reconhecimento pelo presidente americano, do indispensável poder chinês, na co-gestão da actual ordem internacional. Os pontos citados da agenda política da visita foram numerosos, com os Estados Unidos a apelarem a uma maior intervenção de Pequim na gestão de crises.

Por tudo isso, foi sublinhada a natureza fundamental da relação sino-americana, de cooperação e não de confronto e tensão, como o  pilar dessa ordem.

A referência feita pelo Presidente Xi Jinping à área da Ásia- Pacífico como suficientemente vasta para os dois poderes mundiais caberem, é exemplo desse espírito de acomodação que abre espaço a uma transição pacífica à próxima inversão de posições das duas maiores economias.

No dossier mais delicado da agenda, a Coreia do Norte, foi notada a mudança de tom do périplo asiático de Trump, de Tóquio e sobretudo de Seul, para Pequim. Se o eco do discurso na Assembleia Nacional sul-coreana fez-se ouvir ainda em território chinês, o tom amenizou-se, resultado de uma sábia “terapia do ego”, ministrada ao visitante por uma diplomacia multimilenar. Não se sabe todavia o que foi combinado quanto à gestão da crise nuclear norte-coreana.

Constituirão os contratos bilionários, assinados por empresas americanas, o único saldo positivo tangível de uma visita que Washington pretendia muito mais ambiciosa?

Se sim e citando alguém conhecido: “I don’t blame China…”

 

Trump na APEC – a visão retrógrada

Confesso que me confrangeu o discurso passadista, historicamente atrasado, do presidente americano na cimeira da APEC.

Pois, ao condenar o comércio multilateral, que é o cimento mesmo da prosperidade do mundo de hoje – confirma a renúncia de um grande país em assumir, com espírito de pioneirismo, os grandes desafios de uma economia avançada. E que não aceita, como repto, a “obrigação” da renovação constante.

Com o discurso do presidente Xi Jinping, pelo contrário, a liderança da globalização ficou assim estabelecida, com óbvias consequências geoeconómicas e geoestratégicas.

Não compreendendo as regras do jogo internacional, Trump mete golos na própria baliza…

 

Do camelo ao bazar… digital 

Os sauditas, tradicionais cultores do ouro negro e medindo a sua (in)felicidade pelo preço do barril do crude, preparam o futuro de outro modo. Porquê? Porque o petróleo não é recurso ilimitado. Daí a necessidade de uma rápida mudança.

Como consequência, muitas outras transformações estão para vir, conforme a Visão da Arábia Saudita para 2030, plano estratégico ambicioso que o jovem príncipe herdeiro Mohammed bin Salman assumiu como missão concretizar.

É imenso o desafio que se impõe a si própria uma das nações mais ricas mas, ao mesmo tempo, terra de todos os atrasos sociais, num mundo em constante mudança. A reivindicação, conquistada recentemente mas ainda não efectiva, de as mulheres poderem conduzir automóveis, é a caricatura mesma do quotidiano num dos países mais fechados do mundo, mas cujas elites procuram sem disfarce, nas capitais do Ocidente, as delícias do conforto moderno.

A dimensão  do desafio político, a favor da mudança estrutural, reside exactamente aí, nesses atrasos que, ao serem postos em causa, vão mexer com o conservadorismo o mais obsoleto, controlado por um poder religioso que tudo fará para sobreviver.

 

Um “golpe de palácio”

O que acima fica dito descreve o contexto do golpe de palácio de há dias, a pretexto do combate à corrupção. Pois o número elevado de detenções e a posição social dos detidos obriga-nos a  uma leitura política – e não puramente criminal – da operação.

Para remover obstáculos ao seu plano de renovação acelerada, numa autêntica corrida contra o tempo, o príncipe herdeiro, Moahmmed bin Salman, com o apoio do pai, o Rei saudita, logrou obter o afastamento, com as dezenas de prisões que ordenou, de elementos destacados da família real, acusados de corrupção, mas de facto seus potenciais adversários na consolidação do poder, como futuro monarca.

É uma grande revolução “pacífica” (para já), para evitar outras, bem piores?

Olhando para a maioria, extremamente jovem do país, o rei e o príncipe herdeiro perceberam que, para a Família Real sobreviver, como instituição reinante, o poder tem que rejuvenescer, saltando duas gerações. E, por essa via, neutralizando, combatendo, miríades de interesses, mais ou menos obscuros.

Com que objectivo? Transformar a economia saudita num modelo não dependente do petróleo. Mais do que isso: converter o país num novo exemplo de modernidade, adequado ao século XXI.

Isso tem implícito lutar contra a tentação do radicalismo, como modelo de sociedade alternativa, obrigando o poder religioso a evoluir para um Islão moderado, longe do rigor wahabista e da sua utopia do califado. E da sua propagação violenta, terrorista, recrutando prosélitos numa juventude sem horizontes.

 

A visão 2030

No plano estratégico, concebido para guiar tais transformações,  “Arábia Saudita: a visão 2030” – se a ideia mestra é colocar o país numa era pós-petróleo – os efeitos serão muito mais amplos e profundos.

Quer na redefinição do papel do sector privado quer, como consequência, na aceitação de parceiros estrangeiros, de modo mais permanente, no interior do país. E quer na própria transformação cultural do país, numa espécie de transformação progressiva da sua identidade.

Tal transformação gradual é possível, como nos recorda a experiência de modernização chinesa das últimas quatro décadas. Mas, como na China, poderão tais transformações ocorrer sem pôr em perigo a evolução gradual do sistema político?

Bem se sabe que isso não dependerá exclusivamente da situação interna, mas também do modo como evoluir a conflitualidade regional.

Seguindo o eixo principal da rivalidade com o Irão, ou de sunitas contra xiitas – várias questões se impõem:

Como terminará a guerra no Iémen, cuja participação saudita é exactamente da responsabilidade de bin Salman? Qual será o papel de Teerão numa Síria pós-conflito? Como vai evoluir a mais recente crise no Líbano, com o Hezbollah a querer o reconhecimento político, pelo seu contributo na derrota do ISIS? Converter-se-á Beirute num próximo campo de batalha?

E quanto às alianças externas do país, se Trump parece ter consolidado para já a posição americana junto dos sauditas, outros actores importantes como a China e a Rússia, vão obrigar o jovem futuro monarca bin Salman a uma mobilidade táctica longe do alinhamento automático com os Estados Unidos.

As regras do mundo multipolar de hoje vão-se impondo…

 

* Primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau. Docente da Universidade de S. José.