Albano Martins

Albano Martins*

Sabe-se que quem chega ao aeroporto de Hong Kong, depois das quatro da tarde, com bagagem de porão, apenas pode ter ligação marítima para Macau, sem ter de entrar em Hong Kong, às oito da noite. Ao fim de horas e horas de uma viagem intercontinental extenuante, a empresa de navegação que explora a rota prenda-nos com mais essa violência a juntar às outras por todos nós conhecidas e que se traduzem em serviço de má qualidade.

Em Macau, as concessionárias de autocarros têm de fazer rotas e rotas a fio, poluindo tudo por onde passam, apenas para agradar um poder que parece ter caído numa qualquer rua de Macau, para agradar às suas gentes, mas que neste caso concreto dessa rota marítima, mostra-se incapaz de obrigar uma simples, mas poderosa concessionária, a aumentar a frequência das suas rotas do aeroporto de Hong Kong para Macau. No passado, se bem me recordo, existia uma rota que contemplava quem chegasse entre as 16 e as 17 horas. Hoje, tudo leva a crer que a concessionária terá resolvido maximizar lucros, empurrando com a barriga tudo para a última carreira, com o beneplácito ou a conivência das autoridades, claro, que isto não é ainda a república das bananas e há ainda quem por cá mande.

Pois, teoricamente sai-se do terminal de Macau quase 4 horas e meia depois de se chegar a Hong Kong, pois como se recordam, o transporte e o levantamento da bagagem em Macau é uma cena própria de um qualquer país esclavagista do século XV.

Ora, se bem me lembro, o vice-primeiro ministro português era suposto receber a comunidade às 20:30.

Primeiro erro, horário tecnicamente impossível, a não ser que viesse de helicóptero, coisa que a troika por certo não teria autorizado, como se viu não terá sido opção.

Controlei remotamente o atraso do nosso vice, para só ter de aparecer no Bela Vista depois da sua chegada ao local, por razões que não é difícil perceber. Quando me informaram depois que o atraso já andava por quase duas horas, tirei a gravata e fui à vida. Fiquei onde estava, que estava bem e melhor fiquei com a sensação de alívio que me passou pelo corpo.

Qualquer explicação oficial para o que é ou foi óbvio, só engana mesmo quem quer ser enganado. Em Portugal, cada vez menos gente prefere essa opção, e em Macau esses sapos são muito mais difíceis de engolir, que nós por cá ainda não chegámos à austeridade.

Está claro que o discurso, depois, saiu fora do contexto, que os chineses tinham quase todos marchado e só alguma comunidade portuguesa, meio atrapalhada ou meio envergonhada ou meio as duas coisas, resolveu não abandonar o barco.

Uma simples palavrinha, informando as gentes do acontecido, teria sido suficiente para que todos compreendessem, se razão houvesse para tal atraso que não a arrogância de algumas gentes.

Um pedido de desculpas logo a seguir, antes do discurso, resolveria o resto do desagrado e embaraço criados.

Ora, é essa deselegância a que Portas nos habituou desde os tempos em que liderava o semanário “O Independente”.

Falta de educação, provavelmente.

Altivez, por certo.

Em resumo, uma miséria, a que já nos habituámos!

Podemos e devemos escrever para mostrar o que nos vai na alma, mas é preciso cuidado e elegância com a forma como se escreve.

Não podemos baixá-la ao mesmo nível de quem nos prendou com um exercício de muito mau gosto!

Em acumulação, não vale a pena, também, mandar outro governante para os bancos da escola, da forma deselegante e achincalhada que se optou, em grandes parangonas, do tipo das caixas sensacionalistas do Correio da Manhã.

Se o homem errou, errou. Refere-se com pesar ou tristeza ou com repreensão ou como se quer, mas de outra forma.

Se o homem era ignorante, é outra questão mais séria, mas foi apontado para o lugar por quem foi eleito, e isso teremos de respeitar até que outro governo os substitua ou queiramos outro regime político que não a forma de democracia que temos. E quem somos nós para decidirmos sozinhos pelo país?

E eu até que sou dos que menos gosta deles.

Em Macau, os jornais erram com frequência, alguma rotatividade do pessoal na imprensa, como noutros negócios aliás, provavelmente tem criado situações propícias para que isso aconteça com mais facilidade, mas resta saber se isso também não tem nada a ver com os salários praticados no ramo ou com alguma incapacidade para aguentar a concorrência entre pares ou com outros sectores de actividade.

Perante gafes, nem sempre tão pequenas que passam despercebidas, há quem assobie para o lado, mas outros nem disso se apercebem porque “nem sabem o que fazem”, como diria Cristo, de quem como é sabido não sou fanático, o que é nalguns casos tão grave como a do nosso “jovem” governante que confundiu a RPC com a República da China. Ou Região Administrativa Especial com Região Autónoma, ou sei lá o que já têm vindo os nossos governantes a prendar-nos sempre que por cá resolvem abrir a boca na altura dos discursos ou das entrevistas que nos concedem.

Mas enganam-se os que parecem dar a entender que há quem seja o espelho da nação, que os telhados de vidros apenas existem na casa dos outros.

Quem não errou, que atire a primeira pedra.

Na imprensa, não são alguns jornalistas locais que dizem que o nosso PIB é o maior do mundo, quando provavelmente é dos mais pequenos do planeta? Confundindo crescimento com valores absolutos, ou PIB com PIB per capita? Ou quanto tratam os milhões como se fossem biliões, mostrando claramente que não têm dimensão alguma do que andam a falar, só para dar dois exemplos das centenas que aparecem nos nossos jornais diários, sem que desculpa alguma apareça depois publicada?

Vamos fazer como a bruxa malvada, olhar para o espelho e ver quem de todos é o mais belo ou tem o maior ego.

E já agora, nesse exercício de limpeza espiritual e sensatez da palavra, levemos connosco todos os que insistem em assinar peças sob pseudónimo, que não vivemos ainda em ditadura, ou os que nos prendam com textos de intrincada complexidade e muito detalhes técnicos, em domínios tão diversos do conhecimento científico, como se fossem especialistas de tudo, embora de vez em quando deixem cair no melhor pano conseguido uma daquelas gafes que nos faz chorar de tanto rir.

 

*Economista. Escreve neste espaço às sextas-feiras.