Um amigo meu passou agora uma semana em Singapura. Voltou encantado. Tanto quanto desencantado está com Macau: “Queres arrendar um casa? Encontras logo e compatível com o teu ordenado. Precisas dum táxi? É só chamares e, em menos de cinco minutos, aparece. Tens medo da inflação? Lá ninguém se rala com ela. Queres uma consulta num hospital público? Chamam-te em menos de uma semana. Ao passo de que aqui…”. Qualquer dia ainda vai pra lá morar. Afinal, é nestas coisas pequenas, triviais, que nos respeitam a todos que assenta a qualidade de vida duma cidade – das pessoas que vivem numa cidade.
Tenho acompanhado pela Imprensa as ações de campanha do candidato Fernando Chui Sai On a Chefe do Executivo. Reuniões interessantes uma vez que têm sido oportunidade para esclarecer e revelar um ou outro projeto destinado a satisfazer algumas necessidades da população. Positivos, com exceção da ideia de passar a ser das concessionárias a responsabilidade da concessão de residência aos seus funcionários: para além de se tratar duma intromissão indesejável do poder público na gestão de empresas privadas, seria perigosamente discriminatória relativamente a muitos outros sectores profissionais.
Voltando às ações. Nunca ouvi o Candidato responder concreta, directa e claramente às perguntas sobre aquela meia dúzia de problemas que continuam a agravar a nossa maneira de viver; os tais cuja solução faz de Singapura uma cidade onde apetece viver. Daí as sugestões, algumas das várias sugestões que vou fazer, com a certeza de que se achar conveniente as transmitirá ao Candidato.
Começo por sugerir que mande um dos seus colaboradores tentar apanhar um táxi (já que os autocarros andam sempre apinhados) no centro da cidade. Ao fim de meia hora de braço em vão no ar, tem de acabar por se encaminhar para uma dessas bichas que passou a haver sobretudo junto dos casinos a esperar a sua vez. Se tiver muita sorte, conseguirá o seu em pouco mais de meia hora, sempre de pé seja novo ou velho, homem, criança ou mulher mesmo que grávida – ninguém dá a vez a ninguém – naquela que se desenvolve ao lado do antigo Casino Lisboa. Isto porque, como acontece em várias outras, essa bicha cedo se transforma em duas – a regular, organizada, relativamente educada e a que, a meio desta, se vira para trás a caçar os táxis que se vão aproximando e parando á custa de uma nota mais. Polícias? Nem sombras. Os tais inspectores com que q D.S.T.A. prometeu reforçar a acção? Nunca se viram. E quem diz esta, fala também, por exemplo, a da que se forma ao lado do B.C.M. ou perto do Solmar, em que chega a haver pancadaria brava. O tal colaborador ou assessor não sabia disto porque costuma andar na carrinha do Serviço…
Uma outra sugestão seria a de o mesmo entrar num supermercado para comprar alguns dos produtos alimentares mais habituais – arroz, açúcar, batatas, ovos, massa, frutas, hortaliças, água…e que no fim peça ao gerente uma lista dos preços de há 6 meses e de há 1 ou 2 anos. Ficaria espantado mas, não se preocuparia pois que as senhas de presença das comissões de que é membro cobririam largamente o aumento.
Uma terceira sugestão é que o tal diligente assessor vá a uma imobiliária procurar um apartamento para arrendar para ele e sua família. Não terá dificuldade em encontrar na cidade ou na Taipa por uma renda entre 15 e 20 mil patacas por mês, mais de um terço do rendimento familiar. Mas é pegar ou largar e acaba por assinar porque para o mês que vem a renda voltará a subir. Em todo o caso deve ler cuidadosamente o contrato pois em geral uma das suas últimas cláusulas dispõe que a renda aumentará pelo menos 10% ao fim de um ano, o que é descaradamente contra a Lei. Fiscalização para estes energúmenos? E aqueles Deputados ligados ao sector aceitariam essa intolerável invasão na esfera dos seus interesses?
Poderia fazer mais algumas sugestões mas, daria para vários Postais; só me limito a só mais uma. Que encarregue outro dos seus colaboradores (que o primeiro já está a fazer as malas para ir para Singapura) de ir marcar uma consulta externa no nosso Hospital. Se o conseguir para mais ou menos 6 meses, é noticia de 1a página nos jornais. Quanto a ele, bastará um telefonema de alguém do Gabinete para quem manda nessas coisas e o problema fica resolvido em menos de uma semana.
E é esse o problema: quem decide não conhece realmente – pessoalmente – os problemas da maioria da população. Se os conhecesse talvez pudesse ser mais concreto nas respostas a eventuais perguntas sobre estes temas mais angustiantes. Se não, vamos ter de esperar mais cinco anos…
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Entretanto (estou a escrever na terça-feira 26) a campanha foi toldada pela detenção de Jason Chao, já constituído arguido pelo Ministério Publico. Estando o processo apenas no início, limito-me a fazer votos por que decorra de forma a confirmar a independência do Poder Judicial e sempre dentro do espírito do 2º Sistema e do princípio “Macau governado pelas suas gentes”.
*Docente. Anterior presidente do Instituto Politécnico de Macau.




