Jorge A. H. Rangel

Jorge A. H. Rangel *

 “… entregou a sua vida inteiramente à música. No entanto todos os que com ele privaram são unânimes hoje em afirmar que, apesar da sua paixão pela arte, o que o impelia verdadeiramente era a missão. A música era o seu instrumento de apostolado.”

 

 

Acaba de sair do prelo o volume VIII da colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau (IIM). Escrito por João Guedes, este volume é dedicado ao Pe. Áureo Nunes e Castro, missionário, músico e pedagogo, que nasceu na Candelária do Pico (Açores) em Janeiro de 1917 e faleceu em Macau em Janeiro de 1993, tendo aqui passado a maior parte da sua vida dedicada à Igreja e à música, desenvolvendo uma acção notável neste domínio, como grande mestre de gerações de jovens, compositor e dinamizador cultural.

João Guedes sintetizou, no 1.º capítulo, o percurso deste sacerdote, justificando plenamente a sua inclusão no escol de missionários que esta colecção editorial pretende recordar e homenagear, por integrarem aquela “geração de ouro, de tantas figuras excepcionais em Macau radicadas, grandes nas obras, como no quase anonimato de uma humildade que é a expressão de um verdadeiro sentido ancilar da vida e do destino”:

“Fazer a história da vida do padre Áureo da Costa Nunes e Castro é contribuir para trazer à luz uma área da cultura de Macau ainda bem mal iluminada. Trata-se da memória da música, na sua área vulgarmente chamada clássica, ou erudita. Buscando na história, desde que a documentação existe preservada, o que corresponde essencialmente aos séculos XIX e XX as referências à música são muitas e variadas.

A passagem por Macau dos seus intérpretes é conhecida e ficou assinalada, mas isto apenas quanto aos intérpretes, já que quanto aos compositores as referências são poucas e mais raras ainda as que dizem respeito a compositores clássicos que, pode dizer-se, quase não existem de todo. É pois neste contexto de raridade que avulta a biografia de Áureo Castro, autor que ‘só não foi uma figura que enfileirou com os grandes compositores apenas porque escreveu pouco’.

Áureo Castro nasceu na ilha do Pico, nos Açores, um arquipélago que sempre contribuiu significativamente para engrossar as fileiras dos missionários católicos que partiam para o mundo. Note-se porém que de entre as ilhas do arquipélago é, em termos comparativos demográficos, o Pico que mais missionários entregou à igreja católica romana (12,3%) relativamente às restantes ilhas açorianas.

Por outro lado Áureo Castro é originário de um arquipélago onde a generalidade da população possui propensão intrínseca para a música que se reflecte não só no seu característico folclore inspirador de vários géneros musicais em Portugal e não só, mas também na forma como o culto da música é acarinhado tanto institucionalmente quanto a nível privado pelas famílias.

Por outro lado, ainda, Áureo Castro pertencia a um clan que produziu figuras eminentes da Igreja com destaque para seu tio, o cardeal D. José da Costa Nunes, bispo de Macau e de Goa que atingiria a dignidade de Camerlengo da Santa Sé, tendo sido um dos primeiros prelados a integrar o Concílio ‘Vaticano II’ por indicação expressa do Papa João XXIII.

Apesar da conjuntura familiar e das origens, porém, Áureo Castro não estaria predestinado a atingir qualquer notoriedade não fora a sua formação ter sido ministrada no Seminário de S. José de Macau, colónia onde chegou a 15 de Setembro de 1931. Nessa data o seminário, pode dizer-se, que congregava em si o que de melhor se praticava em termos pedagógicos em Macau, desde o desporto à música, passando pelas ciências e pela educação física. (…)

Áureo Castro revelou durante os seus anos de estudo boa aptidão escolar, mas também particular inclinação para a música que não deixaria de ser notada pelos seus professores e que viria a determinar o seu futuro como missionário. Concluído o curso seria ordenado em plena ‘Guerra do Pacífico’ (1943), ocupando as funções de pároco na Sé e em S. Lourenço. Simultaneamente leccionaria canto coral e religião e moral em várias escolas. A par de tudo isso encetou também carreira breve como jornalista no jornal católico ‘O Clarim’.

Para além do jornalismo e da sua intervenção apostólica, Áureo Castro era um produto do seu tempo, dominado pelos nacionalismos crescentes e pela omnipresença do ‘Estado Novo’ de Salazar. Não admira por isso que tenha aderido à ‘União Nacional’, o partido único do regime. Esta adesão, porém, deve-se sem dúvida em grande parte senão inteiramente à influência tutelar de seu tio, o cardeal D. José da Costa Nunes, que em conferências, nos jornais e em livros proclamava a missão redentora de Salazar de reunir o estado e a igreja desavindos em Portugal para ressuscitar o nome de Portugal pelos quatro cantos do universo terrestre. (…)

Todavia, era muito mais a música do que as ideologias políticas, ou filosóficas, que verdadeiramente o cativava, ingressando por isso com grande entusiasmo, ainda que com a apreensão de não conseguir fazer o melhor, que decorria da sua tendência para o perfeccionismo, que o fazia escrever e reescrever os seus trabalhos inúmeras vezes que em 1951 ingressa no Conservatório Nacional de Lisboa onde se formaria com distinção.

O regresso a Macau em 1956 marca uma viragem profunda na sua vida quando a música passa verdadeiramente a constituir o centro das suas preocupações, primeiro com a fundação do Grupo Coral Polifónico, mas principalmente com a criação da Academia de Música S. Pio X de que seria o principal esteio e que durante décadas seria também a única instituição de ensino que preparava músicos para o ingresso no ensino superior não só em Portugal, mas também em vários outros países do mundo, com destaque para o mundo anglo-saxónico. No âmbito da Academia de Música S. Pio X organizou inúmeros concertos para os quais convidou músicos com carreira internacional.

Em 1983, em colaboração com o compositor inglês Stuart Bonner, fundaria a Orquestra de Câmara de Macau com músicos amadores e professores da Academia que mais tarde seria incorporada no Instituto Cultural de Macau.

Áureo Castro entregou a sua vida inteiramente à música. No entanto todos os que com ele privaram são unânimes hoje em afirmar que, apesar da sua paixão pela arte, o que o impelia verdadeiramente era a missão. A música era o seu instrumento de apostolado. (…) Neste âmbito compôs uma obra sólida mostrando-se precursor nomeadamente quando funde nalgumas composições a música ocidental e oriental.

O seu espírito um tanto introvertido, que contrastava com o de outros missionários do seu tempo, fez que não conhecesse como eles tanta exposição mediática durante a vida, mas a sua obra não deixou de ser reconhecida através da condecoração que seria atribuída à sua Academia e a medalha de Mérito Cultural que pessoalmente lhe seria conferida. As condecorações valem o que valem, mas certo é que Áureo Castro, o missionário que veio da ilha do Pico nos Açores, se ergue como um dos grandes expoentes da cultura de Macau do século XX.”

Por tudo isso, João Guedes conclui – e bem – que “vale a pena contar a sua história”. E assim, por iniciativa do IIM, nasceu mais um livro que destaca a acção de missionários que, ao longo do século XX, ajudaram a preparar Macau para os desafios de um tempo novo de mudança.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.