Carlos Frota *

Carlos Frota *

No léxico de muitos países há palavras proibidas, porque carregadas de conotações políticas, pelo menos para quem as receia, normalmente os governos. Rohingya é uma delas, para as autoridades da antiga Birmânia.

O Papa Francisco, como se sabe, visitou o Myanmar (não Birmânia, outra palavra tabu) e foi aconselhado a não pronunciar a palavra Rohingya, em público e em privado, com as autoridades.

Mas não foi preciso dizer a palavra para ser clara a mensagem. E vimos o líder da Igreja Católica a defender, em nome de valores fundamentais, a liberdade religiosa de uma comunidade, não católica, mas muçulmana, perante o domínio da maioria budista. Ironia!

Aung San Suu Kyi teve que se justificar, apelando à compreensão da comunidade internacional para a dimensão dos desafios do seu país, num papel bem diferente daquele a que nos habituara, o da defensora das liberdades do seu povo.

Alguns dos media internacionais ficaram desapontados por não ter havido incidente diplomático durante a visita. Provocado pela imprudência diplomática do Papa, entenda-se. É, realmente, muito mal julgar a diplomacia vaticana…

À comunicação social interessava quase só o escândalo, a controvérsia. E por esse ângulo quiseram julgar a visita, e não pelo vivo apelo à tolerância religiosa, num mundo que tanto dela precisa.

É o nivelar por baixo. Cada um vê o mundo segundo o seu próprio prisma. E algum jornalismo, e alguns jornalistas, não escapam a esta regra universal.

O Papa não só pronunciou a palavra contestada no Bangladesh, como ali recebeu representantes daquela comunidade de refugiados muçulmanos, para lhes exprimir a solidariedade, em nome de todos.

Veremos o que dá o acordo entretanto celebrado, entre os dois países vizinhos, para regresso dos refugiados.

Pois, é sabido, “o diabo está… nos detalhes”.

 

Um mau jogador de xadrez

Se se ignorava que Trump é um mau jogador de xadrez, depreende-se agora, do seu comportamento internacional. E, no contexto desta crónica, faz duas jogadas erradas.

Donald Trump poderá tomar, nos próximos dias, uma decisão simbólica importante e, no plano político, grosseiramente errada: o reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel.

Como primeiro passo, dizem os observadores, para a transferência da embaixada americana para a Cidade Santa, em violação de uma regra fundamental do processo de negociações de décadas com os palestinos, processo moribundo, ou mais precisamente, morto e quase enterrado.

A regra era a de que o estatuto definitivo de Jerusalém deveria ser a última questão a ser negociada, no quadro da solução dos dois estados.

Como reagirá a Arábia Saudita e a comunidade muçulmana em geral?

Será que Riade está tão carente de patrono para os vários conflitos com o inimigo xiita, que engolirá este enorme sapo sem reagir?

 

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Outro erro, anterior: despedir sem cerimónia o conselheiro nacional de segurança, um mês depois de tomar posse, como se de  mero fusível a sacrificar. Ao ver-se acusado, Flynn quer salvar a pele e colabora agora com a equipa de  Robert Mueller.

Fazem furor em Washington as confissões do general sobre conversas com os russos. Diz-se que a seguir vem o genro Kushner. E Trump, nisto tudo?

O filme continua dentro de minutos…

 

Da actualidade do sabath

Pretendendo anular uns milhares de anos de evolução do mundo, o ministro israelita da saúde, Yaakov Litzman, pertencente ao ultra-ortodoxo Partido Unido Tora-Judaísmo, demitiu-se, por discordar dos trabalhos de manutenção de um trecho da rede viária, efectuados ao sábado.

Ao integrismo religioso do ex-governante sobrepôs-se a lógica óbvia da política, isto é, a da mera racionalidade das prioridades as mais óbvias. E lá saiu o ministro, mas a reparação das estradas não vai parar.

É que até para chegar às sinagogas são precisos bons caminhos…

Se este episódio fica por aqui, ele reconduz-nos todavia às condições mesmas em que o actual primeiro ministro israelita consegue manter-se no poder, refém do radicalismo de um pequeno grupo que lhe marca a agenda política, não só no plano da integridade da pátria judaica, mas das repercussões regionais, mormente no que diz respeito à expansão ilegal dos colonatos em terra palestina, e na definição última do estatuto político dos seus “incómodos” vizinhos.

 

Notícias de uma prisão cinco estrelas

Começam a sair em liberdade, em Riade, os ilustres sauditas, entre príncipes riquíssimos e gente “comum” só… bilionária, que o herdeiro do trono, o príncipe bin Salman mandou prender, há algumas semanas, e que obrigou a um “retiro espiritual” forçado no Hotel Ritz Carlton.

A situação é bizarra, pois aparentemente à margem de qualquer procedimento judicial formal, próprio dos casos clássicos de luta contra a corrupção, em qualquer sistema judicial que se preze.

Mas o interessante desta história é que há uma original dimensão “business”, no modo como estão a ser tratados os presos mais ricos do mundo.

É tudo parecido com mais um negócio. Imagino: atmosfera distinta, música ambiente, pratos refinados, diligentes chefs. Só que  o que se negoceia é a liberdade de cada um, mais ou menos próxima conforme o montante do cheque que estão dispostos a passar ao tesouro do rei, a título de retorno do que retiraram, das mais diversas formas, sem pedir licença.

Nas suas celas, perdão, suites de luxo, o exercício espiritual a que me refiro e simples e com um único objectivo: pensar e decidir no número de zeros que cada um há-de escrever no cheque.

Tudo se passará pois de maneira pacífica, cortês, civilizada. Quase normal. Com a normalidade acrescida aliás de, no termo das férias forçadas, cada um ter de pagar a sua estadia, no balcão próprio, ao empregado sorridente do check-out…

No fim, o novo homem forte do reino mandará contar o total da receita, certo de que  cada cheque pago representa uma fatia de poder que os visados perderam. Mas em termos contabilísticos, não poderá minimizar a coluna de ressentimentos e rancores que entretanto gerou. E que são tinta com que se poderão escrever, eventualmente, os novos episódios da telenovela saudita.

 

A democracia dos generais

O novo presidente do Zimbabué, Emmerson Mnangagwa, constituiu o seu governo com uma mão cheia de altas patentes das forças armadas, como se a sociedade civil do país estivesse privada de talentos para assumirem responsabilidades governativas.

Várias leituras se podem fazer de tal opção, umas mais benignas do que outras.

Primeira leitura: o presidente quis pagar um favor a quem o colocou no poder. Segunda, que pode complementar a primeira: escolheu responsáveis fiéis que, dominando o aparelho militar, assegurarão ordem e tranquilidade no país, preparando-o para a sua confirmação como chefe de estado definitivo e sem oposição genuína, nas eleições do próximo ano.

Interpretação benigna? Mnangagwa quis rodear-se de todos os meios de coacção necessários, em caso de reacção daqueles na mira da sua campanha contra a corrupção.

O sucessor de Mugabe deu três meses aos prevaricadores corruptos para fazerem regressar, dos diversos refúgios financeiros no estrangeiro, os milhões que desviaram de fundos públicos. O presidente conhece-os todos, atenta a sua longa experiência no interior do sistema que herdou.

Por isso, a transparência, o zelo e o rigor que porá no saneamento, agora iniciado, serão bons indicadores do que os zimbabueanos poderão esperar dele e do seu mandato.

 

* Primeiro Cônsul-Geral de Portugal em Macau. Docente da Universidade de S. José.