Luiz de Oliveira Dias*

Luiz de Oliveira Dias*

Esta proclamação é do candidato Ng Kuok Cheong (“eu quero ser o…”) na entrevista que deu há dias a este Jornal. Candidato esse a quem peço licença para nela abranger todos os outros, pois uns mais e outros menos do que os outros, todos assim se consideram ou se intitulam.

E antes de mais é de Justiça felicitar a Redacção do JTM pela forma exemplar com que projectou e executou a cobertura dos candidatos às próximas eleições para a Assembleia Legislativa garantindo-lhes “uma solução que, a um tempo, informe os leitores das várias perspectivas em debate e, a outro, todas as listas usufruam o mesmo tratamento jornalístico”. Não admira já que, muito antes deles, já este Jornal era ele próprio um “ícone da Democracia”.

Independentemente, como sempre fui, no que toca à cidade política macaense, não dou sequer uma opinião. E nem valia a pena porque o resultado das eleições directas e universais do seu núcleo naquele órgão da nossa limitada soberania em nada acabará por influenciar as suas deliberações dada a força que o bloco dos nomeados e indirectos continuará a ter.

Porquê então este tema para o Postal de hoje? Unicamente para fazer um voto: que na próxima legislatura a Assembleia se não esqueça de que uma das suas mais importantes atribuições é a da fiscalização dos actos do Governo. Pois não havendo quem a faça, por mais que os deputados se considerem “ícones da Democracia”, sem ter quem legalmente o fiscalize, nunca o Governo o poderá igualmente ser.

E, já agora, porquê tantos candidatos? Creio que uns por uma razão e outros por uma razão diversa. Alguns (muitos) pela vaidade de verem os seus nomes emergirem do anonimato e eles passarem a ser conhecidos por o Deputado tal e tal; e outros por se tornarem nuns dos sempre respeitados – e não só… – intermediários de qualquer cidadão para fazer chegar ao trono do Executivo os seus interesses, assim alcançando o prestígio social que doutra forma nunca iriam ter. E mais nada pois que, como já sublinhei, com o seu formato actual o grupo dos deputados eleitos por sufrágio universal mesmo que politicamente coeso – o que não tem acontecido – nunca conseguirá superar a barreira dos seus colegas nomeados e “eleitos” pela via indirecta.

Em todo o caso, é sempre politicamente interessante acompanhar a corrida dos 186 inscritos nas 24 listas aceites para apreciar as posições – as declarações – que cada um vai mostrar ao longo desta campanha e cotejá-las mais tarde com as posições que vierem a tomar no nosso pequeno Hemiciclo. E, já, agora para se compreender por que se intitulam “os ícones da democracia”.

Se ícone, como penso, significa modelo, exemplo, porta-voz ou porta-bandeira de qualquer ideal ou objectivo, qual será então a democracia de que intitulam ícones? A nomeada? A pela via indirecta? A sufragada por eleições universais e secretas?

Conforme podemos verificar nas antigas corridas eleitorais – e com todo o respeito por todos eles – creio que, salvas raras e ingénuas excepções, no fundo não passam de ícones de si mesmos.

 

* Docente. Anterior presidente do Instituto Politécnico de Macau.