Jorge A. H. Rangel *

Jorge A. H. Rangel *

“O presente protocolo tem como finalidade promover a cooperação entre as duas instituições com o objectivo de realizar, conjuntamente, actividades de natureza académica, científica, técnica, pedagógica e cultural em áreas de interesse comum.”

 

Ponto 2 do protocolo de cooperação

 

O Instituto Internacional de Macau (IIM) e o Instituto do Oriente, órgão operacional e centro de estudos do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, mantêm uma colaboração útil há quase década e meia, inicialmente através de algumas acções pontuais e depois, de forma mais estruturada e eficaz, nos termos do protocolo firmado pelo seu presidente, Prof. Narana Coissoró, e pelo autor deste artigo, na qualidade de presidente do IIM. Promoveram-se encontros, estágios e acções de formação.

De entre essas actividades realizadas, merece menção especial um curso intensivo que o Instituto do Oriente preparou expressamente, há poucos anos, para um grupo de 24 quadros superiores de serviços do Conselho de Estado da República Popular da China, incluindo o Gabinete de Ligação do Governo Popular Central na Região Administrativa Especial de Macau. Este curso, sobre Administração Pública Portuguesa, foi organizado a pedido do IIM, a quem tinha sido lançado por autoridades chineses o desafio de elaborar e orientar um programa de formação abrangente e diversificado, sobre a realidade portuguesa actual, que também envolveu institutos públicos, autarquias, universidades, empresas, personalidades e organismos da sociedade civil de Portugal. Eu próprio assumi a coordenação, juntamente com o vice-presidente e delegado do IIM em Lisboa, José Lobo do Amaral, tendo os resultados alcançados excedido, de um modo geral, as expectativas, conforme foi oportunamente reportado.

O Instituto do Oriente participou, a convite do IIM, em importantes encontros informais com responsáveis do mesmo Gabinete de Ligação e da Academia das Ciências de Pequim, nas suas visitas a Portugal. E professores e investigadores ligados ao Instituto do Oriente foram oradores em seminários levados a efeito pelo IIM. No regime de reciprocidade instituído, ofereci idêntica colaboração ao Instituto do Oriente em diversas conferências e integrei o corpo docente do seu Curso de China Moderna, ministrado em regime de pós-graduação, além de ser membro da sua comissão de acompanhamento externo, que todos os anos emite parecer sobre o seu funcionamento.

 

Protocolo actualizado

Após a fusão, em 2013, das duas maiores universidades com sede na capital portuguesa, a Universidade de Lisboa e a Universidade Técnica de Lisboa, de que o ISCSP e o seu Instituto do Oriente faziam parte, foi decidida a reavaliação das parcerias anteriormente estabelecidas. Foi neste contexto que se procedeu à revisão do protocolo que havia ligado o IIM ao Instituto do Oriente, mas, por decisão dos órgãos de gestão do ISCSP, não se tratou duma mera renovação, já que o conteúdo foi ampliado, bem como as suas perspectivas de desenvolvimento, além de, formalmente, a execução ter passado do Instituto do Oriente para o âmbito do ISCSP.

Assim, numa singela cerimónia presidida pelo presidente do ISCSP, Prof. Manuel Meirinho, que se encontra no exercício desse alto cargo académico desde Abril de 2012, o protocolo com o IIM ganhou nova vida e dimensão, passando a abranger actividades de natureza académica, científica, técnica, pedagógica e cultural em áreas de interesse comum, como a investigação e a formação, a cooperação técnica, projectos conjuntos, intercâmbio académico, documentação e informação. As duas partes manter-se-ão reciprocamente informadas quanto ao desenvolvimento das acções de cooperação, devendo o protocolo vigorar até Janeiro de 2022.

Já na vigência do novo protocolo, o IIM foi co-organizador duma grande conferência sobre o papel de Macau como ponte ou plataforma de cooperação e sobre o ambicioso projecto das novas rotas da seda, enquadrado na iniciativa denominada “Uma Faixa e Uma Rota”. Esta conferência teve o ISCSP como empenhado e competente anfitrião e contou com boas comunicações de dezenas de reputados especialistas, tendo a sessão de encerramento, que mereceu a presença de altas entidades públicas, académicas e empresariais, sido presidida pelo Presidente da República Portuguesa, Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, que fez, na ocasião, uma notável intervenção, recordando a forma muito positiva como se processou a transição de Macau e se desenvolveram as relações luso-chinesas e identificando as mais-valias e as oportunidades oferecidas por esse relacionamento no tempo presente. A iniciativa teve o envolvimento de várias outras entidades, como a AICEP, a Embaixada da República Popular da China, o Conselho Empresarial da CPLP, o Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico, o China Logus, vários bancos, empresas e a Fundação Jorge Álvares, cujo presidente, General Garcia Leandro, que foi Governador de Macau de 1974 a 1979, teve um papel de coordenação e liderança que foi fundamental para o sucesso do evento.

O IIM, na sequência de apoios anteriores a bolseiros e colaboradores do Instituto do Oriente, está neste momento, em consonância com o protocolo, a apoiar mais um mestrando do ISCSP, facultando-lhe o acompanhamento possível e o uso das instalações do IIM como base de trabalho. Um dos anteriores estagiários do ISCSP e colaborador do Instituto do Oriente – André Castel-Branco da Silveira – acabou por prolongar a permanência em Macau, a fim de aqui fazer o mestrado em Estudos Europeus, tendo o IIM assegurado os apoios logísticos e funcionais necessários. André Silveira doutorou-se depois em Cambridge, com uma bolsa parcial do IIM, sendo o seu percurso como estudante uma verdadeira história de sucesso e, provavelmente, o melhor exemplo que se pode apontar das consequências da parceria que estas instituições em boa hora criaram. A sua tese de doutoramento, sobre a governabilidade dos recursos hídricos da China, analisa um conjunto de questões de extrema relevância e premência nas áreas ecológica e sociológica e os estudos efectuados tiveram a participação interessada de universidades chinesas.

 

Breves notas sobre o ISCSP

O ISCSP foi fundado em Janeiro de 1906 como Escola Colonial, sendo em 1926 elevado a estabelecimento de ensino superior (Escola Superior Colonial). Em 1954 ganhou maior dimensão e um novo nome (Instituto Superior de Estudos Ultramarinos), sendo integrado na Universidade Técnica de Lisboa em Agosto de 1961. No ano seguinte, instalou-se no Palácio Burnay, na Junqueira, já como Instituto Superior de Ciências Sociais e Política Ultramarina (ISCSPU). Na sequência da mudança de regime político ocorrida em Abril de 1974, viveram-se tempos difíceis e foi determinada a sua reestruturação, com nova alteração do nome, passando de ISCSPU a ISCSP (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas).

Como bem referiu um dos seus maiores Mestres de sempre, o Prof. Adriano Moreira, que foi seu respeitado director de 1958 a 1969, o Instituto “tinha a consistência suficiente para resistir, renovar-se, e ter o lugar que lhe pertence”, estando “pronto a intervir na quarta dimensão da Universidade para o século XXI”. Quando Adriano Moreira proferiu a sua inolvidável oração de sapiência em Janeiro de 2002, no acto de inauguração das modelares instalações do ISCSP no novo campus do Alto da Ajuda, estava aberto um novo ciclo na sua história.

Numa mensagem que abre o livro “Tradição e Inovação – 1906-2012”, Manuel Meirinho lembrou que a escola “foi pioneira num modelo de formação interdisciplinar e que se fez escola de ciências sociais e políticas de relevo nacional”. Será justo acrescentar que é de relevo nacional, mas com evidente projecção externa, pelas suas sólidas ligações académicas e científicas ao mundo.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.