“Nos últimos vinte anos, a Orquestra tem desempenhado um importante papel no panorama musical de Macau. Desde 1989, participa anualmente no Festival Internacional  de Música de Macau e no Festival de Artes de Macau.”

 

Do programa do concerto de Natal

 

Jorge A. H. Rangel

Jorge A. H. Rangel *

A quadra festiva tem sido marcada, como habitualmente, por numerosas festas particulares e de organismos associativos, escolas, serviços públicos e entidades empresariais, além de variadas sessões musicais e actividades religiosas que celebram a chegada do Deus Menino. Especialmente gratificante foi, neste contexto, o memorável Concerto de Natal da Orquestra de Macau, levado a efeito no Grande Auditório do Centro Cultural de Macau na noite de 17 de Dezembro, com boa adesão do público, no meio do qual era visível muita juventude.

Com duas partes bem distintas, a primeira das quais integralmente instrumental, enriquecida com a participação do virtuoso artista convidado, Ryu Goto, que deliciou a assistência com os seus maviosos solos de violino, quatro coros locais actuaram conjuntamente após o intervalo, entoando cânticos de Natal do maestro e compositor britânico John Rutter, fundador e director dos famosos Cambridge Singers e amplamente reconhecido como o melhor compositor contemporâneo de música coral. Dele são os conhecidos “All Things Bright and Beautiful”, “For the Beauty of the Earth”, “Look at the World” e “Jesus Child”, muito bem interpretados na ocasião. Para corresponder aos aplausos da assistência, foi ainda cantado o “Joy to the World”. Parabéns aos coros do Instituto Politécnico e do Conservatório de Macau, ao Coro Juvenil de Macau e ao coro Dolce Voce pela muito agradável presença.

Trechos da “Música para os Reais Fogos de Artifício”, imortal criação de Händel, especificamente composta para a celebração de um espectáculo de fogo de artifício realizado no Green Park de Londres no dia 27 de Abril de 1749, no reinado de George II de Inglaterra, abriram o concerto. Seguiram-se outros, de Camille Saint-Saëns – “Introdução e Rondo Caprichoso” para violino e orquestra em lá menor, Op. 28, de 1863, com a sua linha melódica e reflexiva e uma dramática transição, terminando com uma série sempre surpreendente de rápidas escalas e arpégios de altos e baixos de violino, levando a um final empolgante, e de Pablo de Sarasate – “Ares Ciganos”, Op. 20, de 1878, com as suas duas secções deslumbrantemente contrastantes, passando da introdução orquestral predominante para um floreado apaixonante assumido vigorosamente pelo violinista solista.

 

Ryu Goto e Francis Kan

Ryu Goto foi, até por isso, uma excelente escolha e a expectativa do público foi completamente satisfeita, quando exibiu as suas variações brilhantes e arrebatadoras num Stradivarius de 1722, cedido pela Nippon Music Foundation. Apesar de ainda muito jovem, o seu talento é mundialmente reconhecido, tendo actuado em muitas das principais orquestras, como a London Phillarmonic, a Wiener Symphoniker, a European Union Youth Orchestra, a Hamburger Symphoniker, a Vancouver Symphony, a Sydney Symphony, a China National Symphony, a Shanghai Symphony, a China Phillarmonic, a Münchner Philarmoniker e a National Symphony Orchestra, e em salas emblemáticas como Carnegie Hall, Kennedy Center, Tokyo Suntory Hall, Sydney Opera House, Musikverein (Viena), Herkulessaal (Munique), Salão Nacional de Concertos de Taipé e Grande Teatro de Xangai. Grava, presentemente, para a Deutsche Grammophon em colaboração com a Universal Classics Japan.

A presença deste artista entre nós foi uma excelente prenda de Natal. Nos ensaios, no palco do Teatro D. Pedro V, mostrou-se agradavelmente impressionado com a beleza daquele recinto que Austin Coates classificara como o “mais bonito pequeno teatro do mundo, ao lado de La Fenice”. E vai, certamente, levar de Macau as melhores recordações.

Conduziu a Orquestra de Macau Francis Kan, seu maestro assistente, que é, simultaneamente, maestro da Orquestra do Conservatório de Macau, depois de ter colaborado com a Hong Kong Chamber Orchestra, a Hong Kong Sinfonietta, a Hong Kong City Chamber Orchestra e a Orquestra Sinfónica Pan-Asiática, além da Orquestra da Universidade de Hong Kong, como seu maestro principal.

Formado na Hong Kong Academy for Performing Arts e na Guildhall School of Music and Drama de Londres, Francis Kan ganhou o Grande Prémio no Concurso Internacional para Jovens Directores de Orquestra em Portugal, tendo ficado ligado, como maestro, à Orquestra Metropolitana de Lisboa, à Orquestra Nacional da Rádio-Televisão da Roménia, à Orquestra Filarmónica de Bucareste e à British Columbia Chamber Orchestra, além da Orquestra Juvenil da Ásia, no âmbito duma digressão internacional pelo Oriente e pelos Estados Unidos. Foi bom voltar a vê-lo, seguro e confiante, competentemente à frente da Orquestra de Macau.

 

20.º aniversário

Fundada em 1983 na Academia de Música S. Pio X, por iniciativa do saudoso e sempre lembrado compositor Pe. Áureo Nunes de Castro, que também foi meu professor de Música e Canto Coral e um notável e consequente promotor de actividades musicais e criador do magnífico Grupo Coral Polifónico, a Orquestra de Macau integrou-se, logo no ano seguinte, no Instituto Cultural de Macau, pouco tempo antes instituído por Decreto-Lei do Governador Vasco de Almeida e Costa, na sequência de proposta que lhe apresentei na qualidade de membro do Governo com a tutela da Cultura.

Lembro-me bem das conversas que mantive com o Pe. Áureo até se decidir que essa seria a melhor opção para garantir a estabilidade desejada na afirmação e no desenvolvimento duma orquestra que visava a profissionalização como factor de qualidade e permanência.

Ao completar 20 anos, é justo recordar os seus directores e maestros principais: Stuart Bonner (1983-84), Doming Lam (1984-89), Veiga Jardim (1989-1995) e Yuan Fang (1995-2000). Depois da transição, os responsáveis foram En Shao e Lü Jia. Como única orquestra profissional de Macau, coube-lhe um papel relevante no panorama musical local, sendo presença constante no Festival de Música de Macau e no Festival de Artes de Macau, oferecendo ao público um vasto repertório sinfónico e coral. A partir de 2003, a Orquestra dividiu as suas temporadas em ciclos de concertos, apresentando programas de música clássica chinesa e estrangeira, com uma qualidade crescente.

Músicos de renome internacional, como Lang Lang, Maria João Pires, Barry Douglas, Enrich Kunzel, Sarah Chang, Wang Jian, Leonidas Kavakos, Iván Martin, John Lill, Boris Berezovsky, Yundi Li e Joshua Bell, entre outros, têm actuado no seio da Orquestra, prestigiando-a e projectando-a além-fronteiras, tendo sido muito bem sucedidas as suas primeiras digressões ao exterior, primeiro a Chengdu, em Outubro de 1997, para participar no V Festival de Artes da República Popular da China, e depois, em Junho de 1999, último ano da Administração Portuguesa, a Portugal e a Espanha, apresentando-se em cinco cidades, e, em Outubro/Novembro do mesmo ano, a Pequim e a Xangai, para actuar no II Festival Internacional de Música de Pequim e no I Festival Internacional de Artes de Xangai.

As digressões multiplicaram-se ao longo dos anos, sendo um motivo de orgulho para a RAEM e para todos nós.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras e hoje excepcionalmente.