João Figueira *

João Figueira *

Dizia Montesquieu: “Até na virtude há que ter limites”. Claro que se referia à necessidade da divisão e partilha de poderes, de cuja ideia ainda hoje beneficiamos. Ora, há escassas semanas, sem a menor pinga de virtude, Caetano Veloso foi proibido de cantar em São Bernardo do Campo, no Brasil. Desde início dos anos 80, quando Joan Baez foi impedida de subir ao palco, ia a ditadura de João Figueiredo a caminho do fim, que um concerto não era barrado. Há nesta proibição, algo de tristemente melancólico face à peripécia ocorrida há mais de 30 anos: a cantiga como arma de protesto.

A música e as palavras de Caetano iam estar ao serviço das pessoas que lutavam – e lutam – por uma moradia. No passado, Joan Baez, que aproveitou o cancelamento do seu espectáculo para travar conhecimento com opositores do regime, entre os quais estava Lula da Silva, foi impedida de cantar no Brasil por se entender que as suas palavras desassossegavam as consciências pesadas do regime. Hoje, porém, quando o país se diz democrata, a proibição de cantar assume contornos ainda mais graves (se tal é possível).

Parece, assim, reassumir uma inusitada actualidade a letra da música que o Grupo de Acção Cultural (GAC) cantava nos anos 70: “a cantiga é uma arma/ eu não sabia/ tudo depende da bala/ e da pontaria/ tudo depende da raiva/ e da alegria/ a cantiga é uma arma / de pontaria (…)”.

A música tem, de resto, um historial rico como instrumento de resistência, tanto no Brasil, como em Portugal. Claro que não faz revoluções sozinha nem vence batalhas que pertencem a outros patamares da sociedade. Contudo, ela é um elemento cultural importante e imprescindível aos processos de transformação sociais e políticos. Através da música podemos perceber movimentos sociais, de resistência e de protesto. Através dela os escravos negros do norte da América inventaram novos ritmos e novas sonoridades e assim nasceu o blues e depois o jazz.

No Brasil até aquela inocente marchinha de A Banda, cantada por Chico Buarque tem muito que se lhe diga: “A minha gente sofrida/ despediu-se da dor/ pra ver a banda passar/ cantando coisas de amor”. Ou como A Felicidade de Vinicius – que começa com um aparente equívoco: “tristeza não tem fim/ felicidade sim” – também significa muito mais do que parece. Aqui a palavra “fim” assume em todo o seu esplendor uma polissemia que lhe empresta um sentido que vai muito para além da primeira e apressada leitura. Esse “fim” não é o inverso de princípio ou um ensaio de eternidade. É a ideia de finalidade. Ou seja, a tristeza não faz sentido, nem tem qualquer finalidade. Só a alegria. Dizer isto naquela altura e desta forma, é de poeta. Caetano pertence à mesma estirpe dos que procuram pelas palavras (e pelos actos) novos sentidos para a vida e para o mundo. Como antes dele e num outro contexto, Joan Baez ergueu a sua voz contra a guerra do Vietname e cantava pelo direito à liberdade de pensar e de agir.

Com a proibição, no final de Novembro, do concerto de Caetano, o Brasil mostrou que aprendeu pouco com a história e que esta está longe de ser um percurso sem retrocessos.

É nestas alturas que apetece lembrar um velho ditado árabe: “o futuro é filho do presente e tem a cara do pai”.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau