Luiz Oliveira Dias

Luiz Oliveira Dias *

Que me desculpem os homens e as senhoras de boa vontade que há dias se reuniram em Congresso em Macau e que, entre outros temas ligados à droga e à família, discutiram a hipótese da descriminalização das “drogas leves”. Ora, a meu ver, drogas leves é coisa que não existe pois são o caminho mais directo e mais rápido para as pesadas. Só depende da esperteza do vendedor pois, como se sabe, 85% dos que as experimentam, ficam agarrados à 3ª ou 4ª doses. Digo-o porque, infelizmente o sei pois que, durante uma dezena de anos, tentei ajudar alguém que me era e sempre será muito querido a carregar a sua cruz até ao Gólgota da crucifixação por uma overdose de heroína. E tudo começara poucos anos atrás com uns simples “charritos” dessas tais “leves” tão assassinas como as outras.

Pouco tempo depois de voltar do Brasil, fui acordado a meio da noite por um telefonema duma menina desesperada a pedir-me que a fosse buscar à Estação do Entroncamento, a poucos quilómetros da minha linda Quinta do Ribatejo. Corri para lá pois o seu tom de voz deixara-me preocupado.

Passada meia-hora, dum comboio de mercadorias vindo de Lisboa, desceu uma menina muito magra, de roupa e cabelo pouco cuidados e grandes olheiras tristes, a arrastar uma mala mal fechada pelo cais. Era a menina muito querida que me telefonara a pedir ajuda.

Já no carro, nada lhe perguntei e nada, também, ela me disse. Só no dia seguinte à tarde, depois dum passeio calmo pela mata da propriedade – a que chamara Vera Cruz mas que, a partir daquela noite se tornou muito mais cruz do que vera – só então falou, em soluços, e a olhar o chão: tinha 9 anos de heroína!

Como disse, tudo começara anos atrás, com os do seu grupo da Linha (onde morava com a mãe) a fumarem uns “charritos inocentes” das tais drogas leves, como muitos teimam em chamar-lhes. Um dia, quando já estavam bastante apanhados pelo vício, o bandido que lhes vendia a morte – que mais tarde encontrei e a quem esmurrei o focinho ignóbil – anunciou-lhe que o “produto” tinha acabado porque a Polícia o confiscara todo; mas que tinha outras coisas e até melhores – heroína, cocaína, ice, lsd, ketamina, anfetaminas – era só escolherem. Recusaram assustados pois que, além de muito caras, toda a gente sabia que faziam tão mal que até podiam matar.

Tanto insistiu, porém – que isso eram histórias dos pais e dos mais velhos, que muito piores eram o álcool que bebiam e os cigarros que fumavam, que até lhes daria a primeira dose…que acabaram por render-se. Foi o primeiro passo da subida ao calvário daquela menina magra de olheiras tristes. Pobre criança – pobres crianças e pobres dos que os amam pois que, enquanto aos poucos se vão matando, destroem todos e tudo à sua volta.

Depois de mais de dez anos de flagelação em que, um a um, se foram os anéis e os dedos, os braços, os sonhos e as esperanças, a harmonia da família e, até, a minha linda Quinta do Ribatejo morreu deixando um menino pouco mais que bebé, que mal conheceu a mãe. Está no Céu, com certeza, pelo muito que fez para ajudar os outros e pelo tanto que sofreu. As drogas “leves” matam como as outras só que, levam mais tempo.

Durante os anos que demora a subida aos seus Gólgotas, estes jovens – estas crianças – vão contraindo herpes, hepatites, tuberculoses, esquizofrenias e, por fim, a SIDA. E tudo, como em Macau, pela inoperância das autoridades e a negligência das famílias e das escolas face à criminosa permissividade do “mercado”.

É preciso que se saiba – que se diga, que se escreva, que se grite! – que essas crianças, esses jovens não são criminosos nem, como tal devem ser tratados e punidos. Essas crianças, esses jovens são vítimas da sociedade e de todos nós que, em vez de os prevenirmos a tempo, os mandamos para as cadeias e para os hospitais.

Cheguei a defender publicamente – e assim continuo a pensar – que, enquanto o seu consumo não for descriminalizado (dizem que, em Macau, ainda tem “um longo caminho a percorrer”, se calhar como o da classificação da violência  doméstica como crime público e as eleições directas…), enquanto se não vai ao fundo das razões do problema, os tribunais deveriam considerar esses desgraçados em estado de inimputabilidade transitória sempre que em fase de carência aguda ou sob o efeito de estupefacientes; e, portanto, em lugar de os mandarem apodrecer na cadeia, lhes propusessem o internamento em instituições especializadas. Assim haja vagas em número bastante o que, em Macau, inexplicavelmente continua a não acontecer.

Do que li do tal Congresso nos relatos da imprensa, ninguém referiu esta possibilidade. Assim, enquanto aqui continuar a percorrer-se aquele “longo caminho”, enquanto os poderes públicos se recusarem a tomar inteira consciência da sua responsabilidade em salvarem da morte parte da sua Juventude – enquanto as drogas “leves” forem toleradas – esses jovens vão continuando a encher cadeias e a morrer em camas de hospital.

Como aquela menina linda de olheiras tristes que, uma noite, chegou à Estação do Entroncamento a arrastar pelo cais uma mala mal fechada.

 

*Docente. Anterior presidente do Instituto Politécnico de Macau.