António Cardinal*

António Cardinal*

A “decapitação” de Harry Kellar (1849-1922), uma maravilha mágica das “Grandes Ilusões”

A História do Ilusionismo seria, com certeza, muito diferente se nela não figurassem nomes como o excêntrico Pinetti (Chevalier Giuseppe Pinetti), italiano nascido em 1750, contemporâneo do também italiano, de Palermo, Conde de Cagliostro, nascido em 1743, que se apresentava senhor e gestor de poderes do divino. Obteve fama que lhe permitiu circular entre os nobres da Europa, mas também seriam estes poderes que o levariam mais tarde à prisão, ao fim da carreira terminada aos 52 anos de idade em San Leo, aldeia italiana situada na província de Rimini, onde se realizou o recente Campeonato do Mundo de Ilusionismo/FISM 2015.

Naturalmente que, além de Pinneti, outros nomes há na História do Ilusionismo que, pelo seu génio e arte são imortais como Robert-Houdin, Hermann (o Grande), Houdini (Eric Weisz), Okito, Thurston e Le Roy, estes já dos anos 1900. Aqui caberá a figura de Harry Kellar, americano nascido na Pensilvânia, falecido em 1922. Segundo textos da época, as “grandes ilusões” eram o ponto forte do espectáculo de Kellar, com destaque para o famoso efeito da bala disparada por um espectador, em direcção ao mágico, e recolhida na boca.

A magia e o mágico – admite-se há cinco séculos – eram tema de eleição, havendo a hipótese de uma suposta relação da magia com as famosas pinturas rupestres de Lacaux, um complexo de cavernas situado a Sudoeste de França, descoberto ocasionalmente por um grupo de quatro jovens em 1940 e incluídas desde 1979 no Património Mundial da UNESCO.

Há, ainda, referências publicitárias, supostamente com mais de 500 anos, através de cartazes com a transcrição gráfica do clássico efeito “copos com bolas”. E, se viajarmos ao Século XVI, atribui-se ao pintor e gravador holandês Hieronymus Bosch (1450-1516), representado em Espanha, no Museu do Prado, mas também em Portugal, no Museu da Arte Antiga, trabalhos que a que se atribuem representações de figuras ou actos com afinidades à magia.

A primeira pintura oficial que mostra um mágico em actuação data de 1651 sendo seu autor Wenceslaus Hollar, um checo nascido em Praga em 1607, cujo falecimento viria a ficar registado em Londres no ano de 1677. Segundo textos de alguns autores, Hollar descrevia a actuação de um maltês, de nome Blaise de Mante. Há, em relação a Blaise, uma incoerência, se não mesmo uma desconformidade. Após várias consultas, concluímos que Blaise de Mante, o mágico maltês, nasceu em meados de 1700, pelo que a não ter havido por coincidência outro mágico com o mesmo apelido, não será pois, afiançavelmente, este mesmo Blaise.

Wenceslaus Hollar descrevia e ilustrava, em 1651, um mágico em plena actuação, expelindo esguichos de líquido que ia ganhando e alterando a cor. Sendo ou não, e apostámos no não, Manfre o maltês, o certo é que os mágicos usavam ao tempo a ilustração gráfica com o objectivo claro de publicitar os seus espectáculos.

Há, por exemplo, uma ilustração dinamarquesa com acabamento de pintura manual, datada de 1860 (Magic – edição de Noel Daniel), que em três fases, na vertical, mostra a actuação de um mágico numa feira, a terreno descoberto. Curiosamente, o mágico é aqui representado num Pierrô, personagem de referência e fascinante na Dinamarca, em Bakken, a poucos minutos de Copenhague, considerado o parque de atracções mais antigo do mundo (criado em 1583) que publicita a “vida” do “seu” Pierrô, vindo da Ásia Menor, com mais de quatro mil anos. O site oficial de Bakken tem como elemento identificativo a figura de um Pierrô.

A ilustração dá-nos, para além da actuação do mágico na figura de um Pierrô, a exibição de marionetas, dança, um acto de adivinhação e… mostra de aberrações.

 

DICAS

– “The Illusionists”, actualmente considerado o show de magia mais vendido da história da Broadway, estará nos próximos dias 8, 9 e 10 de Dezembro no Palácio dos Congressos de Madrid. Nesta série, “The Illusionists” será dirigido pelo português Luís de Matos que, além de intervir na função de mágico, apresentará os convidados James More, Yu Ho-Jim, Leonardo Bruno, Gaetan Bloon e Josephine Lee, recente presença no britânico “Got Talent 2017”. “The Illusionists”, na versão 2018, farão, entre outros palcos, apresentações em Moscovo, Kiev, Marselha, Mónaco, Bordéus e Toulouse.

– Maria Luís Albuquerque, na entrevista dada ao jornal Público e Rádio Renascença, deu como exemplo Cavaco Silva no sentido de ser o mal amado mas o mais ganhador para mais adiante, sem identificar o alvo dizer: Afectos? “O que os portugueses precisam é de  ter uma alternativa”. Dúvida de Mágico: a alternativa referida por Maria Luís Albuquerque seria um afecto para Marcelo Rebelo de Sousa?

 

* Ilusionista – coordenador do MagicValongo Festival Internacional de Ilusionismo