Albano Martins*

Albano Martins*

1. Quando estávamos em plena fase de crescimento exponencial dos preços do imobiliário, e por arrastamento das rendas, embora com algum desfasamento, como ensina a economia, a AL nunca quis discutir esse problema, talvez porque ele não constituía preocupação alguma para a classe que ali predominava.

Depois, quando o jogo começou a vir por aí abaixo, e por arrastamento o preço do imobiliário, e das rendas também, de novo com algum desfasamento, lá resolveram decidir apresentar uma lei para controlar o aumento das rendas, através de um coeficiente que tomaria em consideração a inflação e a situação do imobiliário.

Enfim, uma coisa tão transparente que nem eu próprio sei que salada vai daí sair!

Mas houve logo quem avançasse um processo de fixação do tal coeficiente.

Que naquela casa o que há são pessoas desinteressadas que velam pelo nosso bem-estar.

Ainda bem.

Então, esse aumento teria como limite máximo o triplo dos juros legais, ou seja 29,25 por cento!

Pois, ainda dizem que não há quem goze com o pagode!

Estou a ser simplesmente simpático, para evitar ser segunda vez arguido!

Já repararam que apesar de ter prometido há duas semanas, finalmente esta coluna passou a chamar-se “o arguido”?

Continuando, estamos a ver que provavelmente a ideia da iniciativa poderia ser o contrário do que se dizia pretender, ou seja, impedir que as rendas começassem a ir por aí abaixo!

Lembremo-nos.

O mercado imobiliário, a partir do ano passado, começou a antecipar o sinal de retoma do jogo, o que, como sabemos, começou apenas a acontecer a partir de Agosto de 2016, aparentemente para não mais parar, até uma mãozinha invisível apertar de novo os calos aos casinos!

Muita incerteza pairava ainda no ar, os preços andaram a subir  e a descer sujeitos a várias correcções ao longo dos últimos meses, processo aliás normal quando se fecham posições para a tomada dos lucros ou quando as percepções de quem investe no mercado são diametralmente opostas.

Uns achavam que o melhor era pisgarem-se para outras bandas e outros esfregavam as mãos de contentes que agora vinha aí o El-Dourado!

Como vimos, em artigo anterior, mais de 90 por cento das gentes metidas no mercado eram residentes, embora não se saiba muito bem onde é que a Estatística terá metido o raio das empresas que andam no mercado, pois podem ser de direito local, mas não é líquido que os seus donos ou accionistas sejam todos de cá!

Continuando, agora que o mercado deu de novo sinais de estar em aceleração, quando está praticamente a atingir o pico de 2014, os nossos deputados deixaram de querer controlar os aumentos das rendas.

Curioso, não é?

Gente desinteressada essa!

Afinal de contas, querem fazer exactamente o quê com essa iniciativa legislativa?

Pôr na rua os arrendatários “trapaceiros”, como se diz no preâmbulo do diploma?

Apenas? Não me cheira.

O que me cheira é que muito provavelmente toda essa falta de transparência vá terminar no caixote do lixo de uma gaveta da Assembleia!

Cá por mim, não é por essas bandas que as coisas más que nos vão acontecendo vão passar a ser resolvidas de forma eficiente e justa para a maioria da nossa população!

Lembremo-nos dos números de novo.

Em Abril de 2017, os preços médios da habitação em Macau, quando comparados com os de Dezembro de 2014, tinham decrescido apenas já 0.62 por cento! Ou seja, a bolha está de novo na moda!

Mas, se desagregarmos um pouco mais esses dados, verificamos que em finais de Abril de 2017, teriam crescido 2,9 por cento na península de Macau e 4,78 por cento em Coloane!

Ora, ensina a matemática, se a média de preços caiu, mas Macau e Coloane viram os preços subirem, então o trambolhão dos preços terá acontecido na Taipa.

Pois, a Taipa viu os preços em Abril de 2017, comparativamente com os de Dezembro de 2014, estarem ainda abaixo 15,72 por cento!

Estamos a falar de 101.007 patacas contra 119.841 patacas em Dezembro de 2014!

A Mãe Pátria que venha depressa pôr termo a esse roubo descarado das poupanças do Zé Povinho, em nome da liberdade selvagem do mercado!

Uma casa que custasse um milhão de patacas no segundo trimestre de 2003, custaria em Abril de 2017, qualquer coisa como  15.464.331,83 patacas!

Valores médios, claro.

E já foi pior, vejam.

Num dos picos do mercado em finais de 2014, custaria 16.325.371,21 patacas e no grande pico de Dezembro de 2016, provavelmente o maior de sempre do nosso mercado imobiliário, teria atingido 16.753.550,69 patacas!

Enfim, muita fruta para quem tem poucos tostões para ir à praça!

 

2. Se a minha memória me não falha, dentro de 2 dias teremos a inflação oficial de Abril.

Escrevia eu no JTM de 28 de Abril passado que os dados da inflação de Abril em Macau, poderiam apontar para valores entre 1,49 e 1,52 pontos percentuais, embora no final do ano a inflação seja, para mim, evidentemente, mais alta.

Estou a tentar “adivinhar” um valor num intervalo máximo de erro de 0,03 pontos percentuais!

É obra!

E também um grande tropeção se não acertar. É que já apostei mil patacas em como esse seria o cenário mais provável!

Que raio, um homem não pode ser perfeito, mas a verdade é que um jantar no Miramar dá sempre algum jeito!

 

3. Agora imaginem se eu era o ex-Procurador Ho Chio Meng.

Estava lixado, provavelmente teria incorrido em mais um crime.

Não sei bem onde andam as nossas gentes.

Nem sei bem se todas elas sabem o que andam a fazer.

Mas que são crentes são!

De facto, acusar um homem daqueles, que era suposto ser o baluarte da justiça, de ter andado quase todos os dias a cometer crimes  ao longo de tantos anos (disseram 15?) como Procurador, não me deixa nada sossegado.

1.536 crimes?

É obra.

Ou melhor, nem sei como é que o homem conseguiu fazer coisa diversa, nos tempos livres da sua “associação de malfeitores”!

Não podiam ter pelo menos arredondado a conta para a casa das centenas mais baixa?

Não?

Ok, ok, enfim, tenho cada vez mais medo deste segundo sistema!

Um dia destes, volto a ser arguido outra vez.

Agora que apanhei o gosto, vou rir-me também porque acho que a imprensa de língua portuguesa ou inglesa, vai começar a apanhar a sério, e as eleições vão ser o primeiro teste.

Das  leis que nós ainda temos ou das leis que alguma gente não quer ter.

 

4. O CCAC já nos habituou às suas investidas de justiceiro.

A verdade é que temos de seguir as leis.

E eles aí têm razão.

Resultado, um a zero.

E se estão mal feitas, que se peça responsabilidades a quem as fez.

Resultado, um a um.

Coisa complicada essa, sabido donde vêm elas e quem as faz.

Apesar das minhas seis (ou cinco? ou sete?) cadeiras de direito que fui obrigado a tirar para ficar com o canudo de economia, embora só tenha boa memória do Direito Constitucional e do Direito das Obrigações, que o resto, achei, era mesmo para quem gostasse dessa arte, não consigo chegar tão longe.

Um homem inscreve-se numa habitação económica.

Espera anos e anos a fio.

Caramba, um homem não é feito de pau!

E não digo o resto, mas dou a dica que é quase ao contrário, porque é alentejano e seria um sinal de má educação.

Mas, entretanto, resolve casar.

Um homem não pode ficar toda a vida solteiro, embora essa não seja a solução mais inteligente, sabido o que hoje sei.

Enfim, a minha mulher não me ouve, mas se me ouve se calhar dirá o mesmo.

Continuando, sai-lhe, entretanto, depois de anos e anos a fio à espera de uma habitação económica, uma casinha no sapatinho do casamento, que a sua meia-metade tinha o que ele não tem.

O que, convenhamos, é quase sempre verdade.

Começam os problemas todos.

Os juristas fazem pareceres.

Toda a gente berra.

Uns dizem que não, paciência, “você não tinha casa quando concorreu mas agora tem casa e portanto há que dar casa a quem a merece, e você não”.

Resultado, um a dois.

Cá por mim até acho bem, que essa história da neutralidade é mesmo para jornalista de profissão.

E nem sei porque vem a propósito a história da mulher não fazer parte do agregado familiar, mas também não quero saber, porque se vivem juntos, para mim é o mesmo que um mais um.

Que é dois, claro, embora seja apenas um agregado.

Um parênteses, quanto a isso de um mais um serem dois.

Na nossa base normal de raciocínio, que é a base dez, um mais um são dois, mas se for na base dois é 10, se a minha matemática não anda com o mesmo Alzheimer que eu.

Continuando, todos têm razão!

Resultado, dois a dois.

O CCAC, porque a lei está mal feita, que para ele é o que conta, não queiram violá-la que vão para o banco dos réus, como o Procurador.

O IH, porque na verdade embora as gentes da terra não tenham culpa alguma do processo ter levado uma década, e entretanto, terem-se indo casando e ganhando casinhas como prendas de casamento, a verdade é que no momento de aquisição já não eram tão carentes quanto antes.

Nada carentes, porque entretanto ganharam uma casa, no sapatinho, e… uma mulher, e agora querem mais uma… económica!

“Two in one”, ou dois num, na nossa linguagem!

Vou parar, que isso de dois num é uma história meio-tailandesa demasiado arriscada para quem casar com o sexo oposto!

E mais o arguido não fala!

 

* Economista. Escreve neste espaço às sextas-feiras.