José Rocha Diniz

José Rocha Diniz

Através da Lusa ficou ontem a saber-se que num estudo da Universidade de Macau, “The Summer 2014 protests in Macau: their contexts and continuities”, publicado este mês na Asian Education and Development Studies, o académico Albert Wong conclui que os protestos de 2014 de Macau “não surgiram do nada”, numa cidade que “nasceu da corrupção”, e foram impulsionados pelos ‘media’ de Hong Kong e redes sociais.

Para provar que Macau “nasceu da corrupção”, o académico relembra que quando “os portugueses chegaram à cidade em 1553” (sic) “subornaram” um dirigente chinês para que os deixasse secar as mercadorias após uma tempestade, “e eventualmente acabaram por se estabelecer”.

Esta parte do texto do académico Alberto Wong é um delírio inconcebível para quem é considerado investigador. Quando os portugueses chegaram a este local não havia cidade nenhuma, apenas pequenas povoações rudimentares de pescadores e camponeses; o suborno aos funcionários e mandarins de Cantão só está provado historicamente após o estabelecimento de comerciantes portugueses. E provado está também que logo desde 1573 os portugueses foram obrigados a pagar um aluguer anual (cerca de 500 taéis de prata) e certos impostos às autoridades chinesas. Se o dinheiro ficava em Cantão ou chegava a Pequim, persistem dúvidas; confundir um “imposto de chão” com subornos, é próprio de uma mente doentia…

Para “colorir” a corrupção, Wong teve que ir buscar as suspeitas de corrupção sobre o Governador Carlos Melancia nos anos 1990 (que os tribunais portugueses consideraram inocente) e a condenação do secretário para os Transportes e Obras Públicas Ao Man Long em 2008. Deduzir que por causa destes eventos, “Macau nasceu da corrupção” é ridículo para um denominado “investigador”.

O delírio de Wong continua na ligação que faz entre as manifestações de 2014 aos protestos “e até motins” pré-1999. Prova que nem percebeu a visão anti-colonial dos protestos dos anos 50 e 60, que começaram e acabaram à ordem de Pequim nem foi ao fundo dos protestos de 2014, que, como em todos os momentos da vida pública, tiveram múltiplas causas. Mas, por exemplo, considerar que um protesto de 20 mil cidadãos prova a “incapacidade” das associações de trabalhadores, que eram “ligadas à indústria e ou pró-Pequim ou pró-negócios”, é um disparate de todo o tamanho, pois a quantidade de trabalhadores ligados ao jogo e pró-negócios existentes na RAEM não se esgota em 20 mil pessoas.

Numa coisa tem razão – os protestos “não surgiram do nada”, sentença em que os soldados do senhor de La Palice não diriam melhor, e assim se mostra a categoria do investigador da Universidade de Macau.

Noutras duas coisas também pode ter razão: a importância das redes sociais e o facto dos “media” de Hong Kong influenciarem os protestos (isto é desempenharem um papel panfletário) aproveitando o silêncio dos media chineses locais, com excepção da TDM.

Os media locais em português fizeram ampla cobertura aos acontecimentos, mas Wong disso também não cuidou de saber.