João Figueira *

João Figueira *

“Quanto tempo pode aguentar uma pessoa sem luz?”. Esta é uma das perguntas centrais de um livro agora publicado na Argentina, da autoria da jornalista Leila Guerríero, que procura perceber todos os contornos da crise energética no país. Leio as primeiras linhas de pé, tão surpreendido pela complexa simplicidade da pergunta, como ainda entorpecido por aquele espaço tão sedutor onde me encontro, de um antigo teatro dos princípios do século XX e desde há anos convertido numa das mais belas e cativantes livrarias do mundo: El Ateneo Grand Splendid.

Buenos Aires é uma cidade de livros e livrarias. Arrisco dizer que não há no mundo uma tão grande concentração dessas lojas, como na movimentada avenida Corrientes, onde até no dia 31 de Dezembro à tarde, quando a maioria do comércio estava encerrado ou a fechar as portas, as livrarias eram os únicos espaços francos de convívio e que convidavam à visita.

Mas não percamos a luz de vista. Dezembro é verão na capital e as temperaturas ultrapassam com facilidade os 30 graus. Talvez por isso Buenos Aires seja uma cidade com muita luz, luminosa, pois claro, ao contrário da vizinha Montevideu que, no outro lado do rio de La Plata, se mostra cinzentona, mais triste e sem a vida e o cosmopolitismo da capital argentina.

Mas é a luz que eu persigo. E é sobre ela que me ponho a pensar, quando um ou dois dias mais tarde, no Centro Cultural Jorge Luís Borges, descubro o magnífico trabalho de um fotógrafo que desconhecia por completo: Sergio Larrain. Natural de Santiago do Chile, estudou engenharia florestal na Califórnia, mas haveria de ser na famosa agência Magnum que ele, com as suas fotos que correram mundo, se tornaria célebre. Henri Cartier-Bresson não lhe poupava elogios e em breve as suas imagens eram publicadas em alguns dos mais importantes jornais e revistas, como a Life, The New York Times ou Maris Match.

Larrain foi o primeiro fotógrafo latino-americano a ingressar na Magnum e tudo indicava que a fotografia seria o seu destino e a sua vida. Errado. Mas antes de lá chegar, vale a pena dizer que terá sido inspirado numa foto que ele tirou numa praça de Paris que mais tarde o realizador Michelangelo Antonioni foi buscar a ideia para filmar Blow Up. Larrain fez click e só quando estava a revelar a fotografia reparou em algo que não tinha visto antes: um par fazia amor ao longe, na paisagem que a imagem por casualidade conseguiu captar.

Há uma luminosidade encantatória nas fotos a preto-e-branco que a exposição nos mostra – e toda ela é uma revelação rara. De um dia para o outro, Larrain decide, no início dos anos 70, abandonar tudo. Queimou os negativos que tinha à mão e retirou-se até final da vida, em 2012, para Ovalle, onde passou a dedicar-se em exclusivo à reflexão, à prática de yoga e a escrever.

É o que resta do seu valioso espólio que agora nos é mostrado nestas 160 fotos que nos espantam e interpelam, mesmo quando nos arrancam um leve sorriso, como aquela imagem que nos mostra duas filhas de pescadores de Horcones, presas de cabeça para baixo nas traves onde se estendem as redes, a brincar como se fossem roupa a secar alegremente ao sol.

A luz e a sombra ou, se quisermos, o seu perfeito domínio, constituem os maiores segredos da fotografia. Mas a luz é imprescindível à vida e quase sempre não desejamos viver na sombra. Ao reler as palavras iniciais de Leila Guerríero e ao olhar pensativamente para as fotos de Sergio Larrain pergunto-me até onde a acção e experiência humana podem iluminar as nossas vidas e o que seria delas sem o voo artístico que nos espanta e desassossega.

Em A estranha ordem das coisas, António Damásio diz que que “as ciências, por si só, não podem iluminar a experiência humana sem a luz que provém das artes e das humanidades”.

Há frases que são autênticos flashes.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau