Francisco José Leandro

Francisco José Leandro *

Instrumentos de comunicação como o Facebook (ou outras aplicações similares) tornaram-se tão presentes no nosso quotidiano, que quase nem damos conta do modo como afectam as nossas vidas. Facilmente confundimos a realidade com a janela sobre a realidade que nos é oferecida por este tipo de ferramentas. Facilmente tendemos a partilhar informação com a intenção de lhe conferir existência, como se as redes sociais tivessem a capacidade de fazer a triagem da criação de uma realidade conveniente. Facilmente também deixamos que a janela portátil sobre a realidade se transforme numa fonte de referências permanentes, que parte do modo como outros mostram parcelas construídas da sua verdade. Facilmente, ainda, esquecemos que estes instrumentos são na verdade produtos comerciais disponibilizados por empresas (ou conglomerados de empresas), detentoras de uma capacidade de coligir e analisar informação sobre os seus “clientes”, informação essa que será depois, também ela, transaccionada como um produto comercial. Na verdade, o Facebook sabe mais de nós do que cada um possa imaginar. Para os utilizadores que costumam participar de jogos e baixar aplicativos os perigos são consideravelmente significativos, simplesmente porque são disponibilizadas involuntariamente informações pessoais. Talvez, esteja aí a explicação pela qual recebemos frequentes e-mails não solicitados com um conteúdo comercial.

Os utilizadores tendem a interagir com este tipo de ferramentas de três formas diferentes. Em primeiro lugar, produzem aquilo que se costuma designar pela construção e amplificação de uma certa imagem, através da selecção de temas, representações e símbolos, como se tivessem necessidade de mostrar à sua “comunidade de amigos” uma certa representação de si próprios. Nesta forma de interacção cada utilizador oferece à comunidade de utilizadores uma personagem criada ad hoc para realizar os desejos do próprio utilizador. Em segundo lugar, há lugar para a estruturação de uma perspectiva temática e para a exposição da atitude pessoal de julgamento, que, de certa forma, substitui ou, em alguns casos, complementa um suposto activismo social. Neste contexto, o “like” representa uma espécie de adesão que proporciona a validação, uma associação positiva, cuja opção dissonante se resume à ausência de interacção (note-se que não é oferecida a possibilidade de “I don’t like”). Finalmente, este tipo de instrumentos desempenha uma função de comunicação bi-relacional e multi-relacional, no sentido em que são oferecidas opções de interacção a todo o grupo sem gorar a possibilidade de manter a comunicação restrita a duas entidades. Também aqui, estes instrumentos oferecem a possibilidade de iniciar, excluir, retomar, interromper e denunciar o processo de comunicação consensual, dependendo quase sempre da exclusiva vontade de uma ou de duas das partes envolvidas no processo de comunicação.

Todavia, a partilha de mensagens neste tipo de ferramentas de comunicação tem sempre dois lados. A perspectiva de quem partilha e a leitura de quem acede aos elementos partilhados e, esses dois lados, não são necessariamente coincidentes. Tal como noutros tipos de instrumentos de comunicação, o destinatário descodifica a mensagem no contexto em que esta se produz, através das leituras das suas próprias referências de descodificação. Só que nas redes sociais que utilizam este tipo de instrumentos, cada comunicador e cada receptor, não só não têm acesso à linguagem verbal do originário da mensagem, como também se confrontam com inúmeras perspectivas, estruturadas de forma minimalista, relativas ao mesmo conteúdo.

Independentemente do modo como todos nós utilizamos este tipo de ferramentas, é muito importante ter consciência que elas são plataformas que, na maior parte das vezes, oferecem apenas dois tipos de possibilidades: por um lado, possibilitam a exposição reveladoramente negligente de traços pessoais e, por outro, permitem a construção intencional de uma máscara dos elementos tidos como convenientes no processo relacional de comunicação. Como tal, trata-se de uma forma de comunicação socialmente relevante, centrada em torno de uma leitura individual da realidade, mas que não substitui outras, designadamente aquelas que são disponibilizadas, pela comunicação jornalística, institucional, corporativa, empresarial e académica. Finalmente, talvez não seja demais relembrar que, cada vez mais, empresas e instituições oficiais recolhem informação dos perfis pessoais das redes sociais, antes de formularem a decisão final sobre uma possível contratação.

 

* Docente da Universidade de São José. Escreve neste espaço bimensalmente às quartas-feiras.