Docente e investigador. Ex residente em Macau.

António Aresta *

No exíguo grupo dos poetas de Macau, Leonel Alves (1921-1982) é porventura aquele que mais busca o recreio do espírito, as emoções pensadas, com grande bonomia reflexiva, na senda do que diziam os antigos, ‘primum vivere, deinde philosophare’, ou seja, primeiro é preciso viver e viver, só depois haverá condições para filosofar. A sua poesia encontra-se reunida no livro “Por Caminhos Solitários”, publicado em Macau no ano de 1983, um pequeno tesouro de pensamentos cuja ignição está na problematização e na meditação dos valores orientais e ocidentais pelo que mal se compreende que tenha passado despercebido e injustamente esquecido. Nesses caminhos solitários, telúricos e abertos à compreensão do Outro, nota-se uma receptividade comovida que é a marca de água da sua persona poética. Tal como José Joaquim Monteiro, Leonel Alves é uma figura muito importante  na tradição da sinologia popular portuguesa.

A raiz antropológica da poesia de Leonel Alves oscila entre o angelismo das ideias e uma sensibilidade errante, por vezes dolorosamente errante. Começa com a pergunta: “Sabem quem sou?/Meu pai era transmontano/Minha mãe china taoista/Eu cá sou, pois, euraseano/Cem por cento macaísta. /Meu sangue tem a bravura/Dos touros de Portugal,/Temperada co’a brandura/Do chinês meridional./Meu peito é luso-chinês,/Meu génio sino-lusitano,/E toda a minha altivez/Sabe ter um trato lhano./Tenho um pouco de Camões/E defeitos lusitanos/E nalgumas ocasiões/Pensamentos confucianos”.

Os filhos da terra, o filho de Macau, ele mesmo, merece um poema, cujo recorte ou  dimensão psicológica é notável: “Cabelos que se tornam sempre escuros/ Olhos chineses e nariz ariano/ Costas orientais, peito lusitano/ Braços e pernas finos mas seguros./ Mentalidade mista. Tem dextreza / No manejo de objectos não pesados / Tem gosto por Pop Songs mas ouve fados / Coração chinês e alma portuguesa. / Casa com a chinesa por instinto / Vive de arroz e come bacalhau / Bebe café, não chá, e vinho tinto. / É mui bondoso quando não é mau / Por interesse escolhe o seu recinto / Eis o autêntico filho de Macau”.

O tempo e a memória, no vero sentido bergsoniano, continuam a ser redescobertos, com uma candura que vibra em cada palavra e renasce  em cada verso: “Passo pela casinha onde morreu/ Meu saudoso pai e fico a meditar/ Porque da velha Vila Pouca de Aguiar/ P’ra aqui veio e aqui lutou e sofreu? / Passo pela casinha onde morreu/ Minha santa mãe e pergunto a razão/ Porque saíra do seu berço Cantão/ Para vir aqui onde só padeceu. /Encontraram-se as suas almas aqui,/ Atraídas por um misterioso fado, /Sob cujo olhar também em Macau nasci”. Macau deixa de ser uma abstracção conceptual para se transformar numa rede de afeições, de afectos, de murmúrios e de diálogos.

É no poema ‘Meditação’ que encontramos porventura uma das melhores projecções das atitudes éticas, uma ética para o ser, uma ética para o agir e uma ética dialógica: “Disse um budista que a meditação / Coloca o homem no centro do mundo / A pensar nos seus dois lados a fundo / Com a sua cabeça e coração. / Do lado esquerdo se perdoa o mal / Mostrando-se-lhe os bens da temperança / Assim se avivará mais a esperança / De levar o ódio pró que é racional. / Do lado destro se louva a bondade / Na esperança de que as suas raízes / Sejam a panaceia da maldade. / E, trazendo os dois lados, sem deslizes / Para bem junto do eixo da equidade / Os homens viverão então felizes”.

No turbilhão da vida e da materialidade do quotidiano, impõe uma referência e um louvor a Confúcio, mestre da sabedoria: “Iluminaram os teus olhos claros / Os ásperos caminhos da Moral / P’ra que seguisse o teu povo um Ideal / Que tornasse o seu solo e lar mais caros / Confúcio! Quão confuso fiquei eu / Quando o acaso me quis dar tua luz / Tornando mais leve a pesada cruz / Que sem compaixão a sina me deu / Ao lar e às seculares Tradições / Exigias a mór fidelidade / Com repúdio total das vis paixões. / Mas o Mundo não deu continuidade / Ao teu Ideal de tantas gerações / E vive hoje em constante adversidade”. Não se esquece de pedagogicamente enfatizar, para os mais distraídos, “Disse Confúcio que a Sabedoria / Nasce quando se dá boa atenção / A tudo o que se vê no coração / Directamente e à luz clara do dia “. Os ensinamentos morais e éticos de Confúcio transformaram-se numa sabedoria intemporal e numa apologia do bem. Para todos.

Ao pensar nos homens e na história das nações deixa vir ao de cima o seu fascínio pela História pátria: “Um Albuquerque, vivo e talentoso / Um Mascarenhas, de raro valor / Ou um Almeida, nobre e corajoso”. Associa a cada figura uma tábua de valores, fazendo-nos pensar no enlace patriótico e ideológico típico do ensino da história no passado, hoje infelizmente perdido porque vazio de sentidos.

O poeta maior do século XVIII português, Manuel Maria Barbosa du Bocage, que também esteve em Macau, mereceu-lhe estes versos de uma franca admiração, pontuada, no entanto, com alguma censura ao seu atribulado trajecto existencial: “Tinhas inspiração quási divina / Mas quiseste fazer-lhe injusto ultraje / E ficaste na História, ó Bocage / Como poeta brigão, boémio traquina. / Nasceste para ser outro Camões, /Pois teu estro também tinha engenho e arte, / Mas esbanja-los foste em toda a parte, / Com desprezo das tuas aptidões. / Brincaste com as Musas nas tabernas,/ Bebendo com fadistas e foliões / Em noites que p’ra ti eram eternas./ Mas deixaste nos nossos corações / Melodias das mais doces e ternas,/Que inda soarão por muitas gerações”.

Dificilmente se encontrará na sinologia popular portuguesa de Macau uma tão divertida quanto justiceira caracterização duma casa chinesa e respectivo ‘modus operandi’ social: “Junto à entrada está o deus-porteiro / Que não deixa entrar diabos e ladrões / E àquele que abra e saia dos portões / Assegura que volte são e inteiro / Na sala está o Buda folgazão / Enchendo a casa de luz e alegria / E p’ra que nunca falte o arroz do dia / Na cozinha está o deus do fogão. / Trabalha o patrão numa grande mesa / E entre ábacos e livros aos montões / Majestoso se ergue o deus da riqueza. / Na alcova está a deusa das paixões / Para dar ao casal toda a certeza / De dar ao seu lar novas gerações”.

O livro “Por Caminhos Solitários” merece ser reeditado, se possível com a adição de poesias inéditas, porque a comunidade de Macau não deve ficar privada de poder apreciar a estética e o pensamento poético de Leonel Alves. Dizia o autor, “Se sou o que sou, dou graças / À China e a Portugal” e “Sempre sonhei ser um dia / Um bom sino-luso vate”.

 

*Docente e investigador. Ex-residente em Macau.