Luiz de Oliveira Dias*

Luiz de Oliveira Dias*

Quando anteontem saí da Sé onde fui assistir à missa por alma de Mário Soares, um dos muito bem pensantes cá da terra (que, como outro, se considera um grande democrata) dirigiu-se-me com estas palavras: – Então você, católico e monárquico, vem à missa por alma deste seu inimigo político? Tive, naturalmente, que o corrigir: em primeiro lugar, sou realmente católico e monárquico e também da direita ao contrário de Mário Soares que se dizia – e era – republicano, socialista e laico. Mas, não éramos inimigos políticos – apenas adversários e, aliás, bons amigos – e sempre senti por ele, pela sua coerência e a sua coragem, uma grande admiração.

Disse-lhe ainda que, para mim, a missa não é uma manifestação política mas um acto religioso. Neste caso pela alma deste português sempre teve tanto orgulho em o ser como eu tenho.

Conheci Mário Soares alguns anos antes da Revolução de 1974. Fomos apresentados por um funcionário meu que muito prezava, por sinal militante comunista, junto do balcão de uma pastelaria da Baixa, em Lisboa, que ficava muito perto do seu escritório de advogado e do Banco em que eu trabalhava antes de ser saneado. Quando soube que eu era de Leiria, disse-me com vivacidade – “também eu!”.

Soares não era exactamente de Leiria mas de uma aldeia próxima – as Cortes – de onde são dois dos ramos da minha família materna. Sempre fiel a essa raiz, quando criou a Fundação a que deu o seu nome, instalou-a no antigo solar dos Viscondes de São Sebastião que comprara alguns anos antes, onde ia com frequência descansar e encontrar-se e petiscar com alguns amigos mais chegados quase até adoecer.

Acontece que minha bisavó materna, ali nascida e senhora de uma grande fortuna e de uma inteligência vivíssima, tinha o hábito de mandar para o Convento todas as suas empregadas e para o Seminário os que trabalhavam em sua casa. Dizia-se lá em casa que assim fez com cerca de 30 entre os quais – a sua glória – um rapazito das Cortes que foi Bispo de Coimbra.

O avô de Soares era um dos seus caseiros e, como tinha muitos filhos, essa minha bisavó ofereceu-se para ser madrinha de um deles e de lhe custear os estudos: João precisamente o pai do Mário. Claro que assim que chegou à idade, mandou-o como os outros para o Seminário e pagou-lhe os estudos até à sua ordenação.

Alguns anos depois, já João Soares era Cónego da Sé de Leiria, proclamada que foi a República logo ele pediu a dispensa dos votos argumentando que nunca tivera vocação sacerdotal e que só tinha ido para o Seminário porque sua madrinha, “uma senhora muito rica” (a tal minha bisavó) o convencera a ir. Tão bem soube argumentar que o Vaticano lhe deu a dispensa que pretendia. Depois, sempre ajudado pela sua madrinha, formou-se e criou em Lisboa o Colégio Moderno que ainda lá funciona.

Devido às suas convicções, Mário Soares foi muitas vezes preso e exilado. Mas nunca desistiu. Foi o que pode chamar-se um lutador-vencedor. Por muito que alguns dos seus inimigos políticos o detestem, ninguém pode esquecer três das suas proezas mais famosas: a libertação do Cardeal Patriarca de Lisboa do cerco que a brigadas comunistas haviam posto à sua residência no Campo de Santana, o inesquecível discurso que fez no comício-gigante da Fonte Luminosa em Lisboa em que se afirmou frontalmente anti-comunista, e a libertação das propriedades alentejanas postas em auto-gestão e ocupadas selvagemente pelas cooperativas agrícolas do PCP.

Hábil diplomata, soube conquistar o respeito e, em muitos casos, a amizade de muitos dirigentes políticos estrangeiros. Inclusivamente do presidente do Partido Republicano norte-americano, David Rockfeller, que um dia no Rio de Janeiro, em reunião que ficou secreta, nos disse – ao General Spínola e a mim – que o seu Partido estava disposto a financiar a fundo perdido os Partidos políticos portugueses não marxistas com duas condições – que o coordenador desse programa fosse o próprio Spínola e o futuro homem do regime viesse a ser Mário Soares. Movido pelo seu orgulho de Português e de oficial de Cavalaria, o velho general recusou.

Foi por estas razões e algumas outras que, apesar de católico, monárquico e da direita – ou por tudo isso mesmo – que fui na passada segunda-feira à missa por sua alma.

 

Que descanse em Paz, que bem merece.

 

* Docente. Anterior presidente do Instituto Politécnico de Macau.