Luiz de Oliveira Dias*

Luiz de Oliveira Dias*

No discurso que proferiu na solene cerimónia de graduação dos finalistas dos seus diversos cursos, o Reitor da Universidade de São José, Pe. Doutor Peter Stilwell, informou de que o ano lectivo que terminava fora o último que decorrera nas suas instalações num prédio comercial dos Novos Aterros. Sendo assim, o próximo já irá começar – se as inspecções e o GAES deixarem – no novo Campus da Ilha Verde. O fim de um ciclo, portanto.

E um ciclo completo: quando o Reitor Stilwell foi nomeado seu reitor a Universidade estava à beira da falência. Pegou nela com determinação – “o tempo da poda, como então disse” – retirou-lhe o quanto era desnecessário ou inadequado e fez dela uma Universidade verdadeira. E depois foi crescendo, aumentando o numero dos seus cursos, alunos e professores. E as obras do novo campus iam continuando, ao ritmo dos fundos conseguidos e das Obras Públicas, até que ficou pronto. A seguir, a longa espera do resultado das inspecções. E por fim, os acabamentos.

Entretanto, Stilwell promoveu a alteração dos seus estatutos passando o Bispo de Macau a ser o seu Chanceler. Obra feita dos pés à cabeça.

Quando, talvez em Setembro, o novo campus for inaugurado, o Pe. Stilwell pode ter a consciência de que cumpriu a nobre e difícil missão para que foi nomeado por D. José Policarpo, Cardeal Patriarca de Lisboa. Lembro-me que, à chegada, começou por tentar verificar se o processo era exequível. Como achou que era, passou à sua concretização, passo a passo, vencendo os obstáculos que tinha que vencer, vitória a vitória, até este sucesso final. E aí está uma nova Universidade ao serviço de Macau que funciona dentro dos parâmetros da fidelidade à Religião Católica e aos objectivos e normas do sistema do Ensino Superior de Macau.

Quem, como eu, tomou parte das reuniões e estudos que antecederam o arranque desta instituição é possivelmente a única testemunha do quão difícil iria ser a sua realização. Como testemunha igualmente do apoio determinante não só do Cardeal Policarpo, como do então Presidente Mário Soares e do Governador Rocha Vieira.

Em recente artigo escrito na altura da morte de Mário Soares, Peter Stilwell lembrou que no almoço realizado dias antes da sua partida para Macau na Universidade Católica de Lisboa na qual além dele próprio e do Cardeal também participou Mário Soares este lhe disse no abraço que lhe deu à despedida: “lembre-se de que a sua Universidade vai ser a responsável pela manutenção e difusão da Cultura Portuguesa em Macau”.

O Pe. Peter não somente se não esqueceu como lhe juntou outro imperativo: fazer com que a Universidade de São José fosse o braço cultural da comunidade católica de Macau.

Poucos são os projectos desta natureza realizados em tão pouco tempo e sob a condução de uma só pessoa. Ultrapassando um-a-um os muitos problemas que fora surgindo: falta de fundos, demoras da Obras Públicas, má vontade de vários sectores de Macau, recrutamento de professores abaixo do nível de ordenados oferecidos pelas outras instituições de Ensino Superior mas ainda atractivos…

Uma após outra, todas foram sendo ultrapassadas graças a duas coisas: a energia e confiança do reitor e, trata-se de uma instituição católica, a fé e as orações do seu reitor, o Sacerdote Peter Stilwell.

Agora, missão cumprida do princípio ao fim, alguns diriam que era altura de dar lugar a outro reitor, como por vezes acontece. Pessoalmente penso que não pode ser. Este reitor tem de continuar a ser o reitor da São José pois que o seu funcionamento do novo campus requer que continue a orientar a habituação de docentes, alunos e serviços, à sua nova realidade.

Na cerimónia de inauguração da nova sede faltarão, entre outras duas das altas individualidades que sonharam e empurraram o processo: o antigo Presidente Mário Soares e o então Chanceler da Universidade Católica portuguesa, Cardeal Patriarca de Lisboa D. José Policarpo. Nunca serão esquecidos.

 

* Docente. Anterior presidente do Instituto Politécnico de Macau.