António Aresta *

António Aresta *

1.Macau, a Cidade do Nome de Deus de Macau, na costa meridional da China,  constituída por uma irregular península mais um pequeno grupo de ilhas, encerra em si mesma um tesouro intangível que cabe nesta interrogação utilitarista: como se explica a sobrevivência da  ininterrupta governabilidade portuguesa desde o século XVI até fim do século XX? Sem ocupação militar e com escassos incidentes repartidos pelos séculos, parece seguro deduzir-se, por baixo de uma narrativa linearmente eufórica, que houve uma convergência estratégica nos interesses dos povos tão diametralmente diferentes, portugueses e chineses, e que se consubstanciou num convívio e num relacionamento secularmente amigável, de mútuo respeito e de harmonia. Para além, claro está, das importantes relações comerciais regionais, da complexidade da rede de transportes marítimos, dos sobressaltos da diplomacia dos tratados ou da especial sensibilidade com as religiões e com a missionação.

A primeira embaixada europeia à China foi chefiada por Tomé Pires, o celebrado autor da Suma Oriental. Através de Macau, esse traço de união entre o Oriente e o Ocidente, entraram e saíram navios com ideias, jornais, sábios, inventos tecnológicos, peças de artilharia, cientistas, emigrantes e aventureiros, medicamentos, frutas e legumes, pinturas, cerâmicas, sedas, esculturas, missionários, comerciantes ou livros, quer dizer, um turbilhão civilizacional com gentes de todos os quadrantes que misturaram sangues e afectos e construíram uma requintada gastronomia e uma não menos simbólica teia de influências e contrapoderes de inspiração neo-confuciana, tão à feição do jeito suave de afirmar o imperativo categórico, pelos mandarins. Mandarim, diga-se, foi uma palavra e um conceito cunhado pelos portugueses, para designar quem pode e quem manda. O caminho do mundo passava por Macau. Por aqui andaram Matteo Ricci,  Fernão Mendes Pinto, Alexandre Valignano, Álvaro Semedo, Luís de Camões, Bocage, Francisco Rondina , James Legge, entre tantos de uma legião infindável.

O Colégio Universitário de São Paulo de Macau , criado em 1594 , foi justamente considerado como a primeira universidade de matriz ocidental no extremo oriente. Esta instituição escolar dos jesuítas, de efémera duração, é certo, permite sinalizar as estratégias de formação , de transferência de saberes e de investigação no apoio à missionação na China.

Macau testemunhou a expansão do imperialismo europeu e norte-americano pela China dentro e um pouco por todo o sudeste asiático. O nascimento da colónia inglesa de Hong Kong fez empalidecer a importância e a vitalidade económica de Macau que demorou a recompor-se, não obstante a sua ligação ao florescimento económico da indústria açucareira de Cuba, já em pleno século XIX.

Os 146 Governadores de Macau asseguraram um formidável legado institucional e político, onde a presença estruturante da cultura e língua portuguesas e a sua disseminação no trato, na guerra e na diplomacia não pode ser ignorada. Macau é o berço da sinologia portuguesa. Mas, paradoxalmente, Macau nem sempre estimou os seus sinólogos ou compreendeu os seus problemas.

 

2.É, pois, longa a história intelectual da sinologia portuguesa. Muito esquematicamente, poderemos fixar a genealogia da sinologia portuguesa em quatro linhas de força [linha clássica, linha histórico-cultural, linha erudita e linha literária], que ganharam vida a partir desse microcosmos que é Macau, com estéticas, hermenêuticas, ideologias e filosofias interdependentes, mantendo em comum apenas o modus cogitandi típico dos valores cosmopolitas da latinidade. O peso da linha histórico-cultural, quiçá excessivo, resulta essencialmente da fragilidade da linha erudita. A produção intelectual de dezenas de intelectuais, desde o século XVI, corresponde ao corpus maior da sinologia portuguesa

Joaquim Guerra, SJ, [1908-1993], é indiscutivelmente um dos nomes grandes da linha erudita, ao lado de Joaquim Afonso Gonçalves, Pedro Nolasco da Silva ou Luís Gonzaga Gomes, com um espírito verdadeiramente renascentista. Traduziu os clássicos chineses, concebendo uma metodologia realmente inovadora para resolver complexos problemas linguísticos, lexicográficos e de tradução literária, incluindo um dicionário e a romanização da língua sínica. Os jesuítas sempre corporizaram uma elite de elevada craveira intelectual e Joaquim Guerra, SJ, é outro exemplo que vem confirmar a regra.

Em 1992 foi legalmente constituída em Macau uma associação cultural intitulada “Asianostra/Estudo de Culturas”, cujo principal escopo era, como se pode ler nos seus Estatutos, “o estudo da cultura e civilização do Oriente e do Ocidente, tomando Macau como lugar privilegiado de encontro”.

Recordo que a primeira grande iniciativa da “Asianostra/Estudo de Culturas” foi a realização de uma importante Exposição Bibliográfica dedicada a “Lao Zi”, na Biblioteca de Sir Robert Ho Tung, em Maio de 1993 e cujo Catálogo foi editado em parceria com a Biblioteca Central de Macau e Instituto Cultural de Macau. No Catálogo ficou registado: “pretende-se, igualmente, homenagear o maior sinólogo português contemporâneo, o Padre Joaquim Guerra, SJ, cuja tradução intitulada ‘Prática da Perfeição’ (Daow-Tc-Keq), datada de 1987, é considerada de grande envergadura formal e com um ritmo poético notável, acompanhada, ainda, da versão em chinês alfabético que é uma inovação de sua autoria”.

O semanário “Tribuna de Macau”, na edição de 15 de Janeiro de 1994, dedicou-lhe várias páginas, sob o título, “Na morte do padre Joaquim Guerra”, tendo recolhido o depoimento de Celina Veiga de Oliveira, Tomás Pereira, José Silveira Machado, Carlos Marreiros e do autor destas linhas. Mantenho no essencial o meu depoimento, “o princípio do fim da sinologia portuguesa”, que caracterizei como uma aventura individualista centrada em mestres sem discípulos e na incapacidade de criar escola. É um problema complexo que não cabe aqui desenvolver.

No primeiro número, de Maio de 1994, da “Asianostra/Revista de Cultura Portuguesa do Oriente”, foi publicada uma importante, e última, entrevista que Joaquim Guerra, SJ tinha concedido a Henrique Rios dos Santos, SJ , a verdadeira alma da “Asianostra/Estudo de Culturas”. Vale a pena reter esta passagem: “Os caracteres sempre me entusiasmaram. Esses textos são sempre iluminadores de caminhos e não frases sem nexo ou sentido. O mundo religioso está dirigido para a perfeição do homem. Uma linguagem deve ser entendida para ser vivida, se não é inteligível como se poderá passar à prática? Esses textos por serem sagrados não devem limitar o homem; antes pelo contrário, o homem deve procurar captá-los e buscar o seu sentido escondido. Para que serve uma sabedoria que não pode de modo algum ser captada como tal?”. Este deslumbramento e esta demanda terão sido a verdadeira ignição para a acção que o levou a traduzir para compreender e para ensinar a liberdade de saber.

 

3.O presente volume, “Joaquim Guerra, S.J. (1908-1993). Releitura universalizante dos Clássicos Chineses”, da autoria de António José Bezerra de Menezes Jr., é no essencial a tese de doutoramento apresentada, em 2013, à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciência Humanas, da Universidade de São Paulo, no Brasil. O seu autor, António José Bezerra de Menezes Jr., é um sinólogo e reputado especialista em estudos chineses que, com este estudo de excepcional importância presta um altíssimo serviço aos estudos sinológicos em língua portuguesa, reforçando também  a sua internacionalização.

Após os meritórios excursos biográfico-culturais de Jorge Bruxo, de Henrique Rios dos Santos, SJ, e de outros tantos  ensaios dispersos, o pensamento de Joaquim Guerra, SJ, já merecia uma obra desta natureza, erudita e mobilizadora de uma hermenêutica vasta de sentidos e de saberes de inteligência.

Refere o autor, para enfatizar a magnitude do trabalho realizado, que “a tradução dos clássicos chineses feita por Joaquim Guerra é antes de mais nada uma obra de fôlego e de grande erudição. Em seu conjunto compreendem 14 volumes num total de mais de 12 mil páginas”. Reconhece ainda que “concilia uma profunda pesquisa lexical e uma poderosa intuição para harmonizar passagens difíceis do texto com o quadro geral do pensamento confuciano”. Um dos objectivos centrais é estudar as ambiguidades teológico-filosóficas e as hesitações taxinómicas, por exemplo, “mostrar como a tradução de Joaquim Guerra entra em choque com a concepção agnóstica do confucionismo, cujas origens se encontram tanto na interpretação neoconfuciana de Zhu Xi, seguida por James Legge, quando nos intelectuais da República da China (1912), como Hu Shih que procurava reinterpretar o confucionismo com base no positivismo e do pragmatismo, no esforço de modernizar a China, adotando a ciência e a tecnologia ocidental, mas preservando a cultura oriental na sua identidade confuciana”.

De resto, uma vez consolidada a genealogia do processo criativo, é tempo de olhar para a fenomenologia da própria tradução : “Quanto às traduções de Joaquim Guerra, embora do ponto de vista do resultado estético estas não tenham o mesmo brilho de outros tradutores e sua utilização de algumas formas dialetais as tornam por vezes dificultosas, são bastante precisas e inovadoras quanto ao sentido dos textos. Isto se deve principalmente ao seu engenhoso método de tradução, que procura empregar outros significados mais raros dos ideogramas quando estes se harmonizam melhor com o pensamento confuciano. Tal se aplica no caso de passagens cuja interpretação usual da tradição neoconfuciana seja vaga ou até incongruente, ou ainda nos casos em que as traduções ocidentais se apresentem desarticuladas ou excessivamente trivializadas”.

Cuidadosamente, faz-nos lembrar que “Joaquim Guerra irá criticar a interpretação neoconfuciana e particularizante de James Legge (entendida como uma criação puramente chinesa e alienada do resto da humanidade) e a interpretação agnóstica dos intelectuais chineses da República e de muitos sinólogos ocidentais do século XX”.

Aguardamos, ainda, um pouco de luz sobre a “Structural Semantics”, publicada em 1980, esse corpus hermeticum , que provavelmente guardará a faceta mais original do pensamento de Joaquim Guerra, SJ.

Será a ocasião para se equacionar a reedição das obras de Joaquim Guerra, SJ, sobretudo aquelas que pudessem ser publicadas sem aparato erudito para cativar outros leitores e induzir interesse pelo estudo da cultura chinesa.

 

4.Uma palavra final para o Instituto Internacional de Macau que, com sobriedade e visão estratégica, tem sabido ocupar um lugar absolutamente ímpar nos estudos orientais, na história da relações luso-chinesas, na sinologia, na história e memorabilia macaense. Esta colecção “Suma Oriental” é, porventura, um dos seus melhores cartões de visita.

 

Prefácio a “Joaquim Guerra, SJ (1908-1993). Releitura Universalizante dos Clássicos Chineses”, de António José Bezerra de Menezes Jr., edição do Instituto Internacional de Macau, 2015.

 

* Docente e investigador. Ex-residente em Macau