João Figueira *

João Figueira *

Manoel de Barros, escritor fundamental da língua portuguesa nascido  em Mato Grosso e falecido em 2014, dizia: “Não quero saber como as coisas se comportam / Quero inventar comportamentos para as coisas”.

A liberdade poética de Manoel de Barros, que o levava a inventar toda uma outra linguagem para os sentidos que desbravava, é hoje aplicada, afinal, a muitos sectores onde a imaginação e a capacidade criativa humanas não conhecem limites.

Reparem: desde domingo passado, que quatro jovens voluntários chineses da universidade de Beihang, uma das instituições superiores de aeronáutica mais prestigiadas do país, estão fechados num laboratório, onde vão permanecer 200 dias sem qualquer ligação com o exterior, simulando uma missão espacial, de preparação para a viagem tripulada à lua, que Pequim quer enviar na próxima década. Há que inventar, pois, comportamentos para essas coisas que são o desconhecido, o imprevisto e o risco.

A um outro nível, a antiga jornalista Sara Carbonero, que muitos conhecem apenas na qualidade de mulher de Iker Casillas, criou com outra amiga e antiga jornalista, um site de moda e decoração chamado Slow love, que o ano passado já facturou milhão e meio de euros, para um investimento inicial de uns míseros 40 mil euros. Nada mal. Pois bem, ao adoptarem uma designação que vai ao arrepio da pressa e instantaneidade dos dias que correm, as duas empresárias procuram também modelar comportamentos, influenciar atitudes, embora neste caso piscando o olho às marcas e produtos que veiculam, publicitam e dão pública exposição. Em todo o caso, lentamente, como se o que fazem e mostram existisse num ambiente sem gravidade, como nas expedições espaciais, onde tudo se move em câmara lenta.

Outro comportamento novo para coisas antigas são as visitas virtuais a alguns dos grandes museus. Isso mesmo: já é possível observar com toda a tranquilidade as obras do Metropolitan, do British ou até do espanhol Thyssen, sem aquelas aglomerações horríveis de pessoas à frente dos quadros ou das esculturas a tirarem selfies e mal olhando para a obra de arte. Agora, até de chinelos e calções e de copo na mão, no sossego da nossa varanda ou casa, podemos passear pelos corredores admirar com toda a calma do mundo aquele quadro ou peça que nunca conseguiríamos ver com o mesmo detalhe e tranquilidade no espaço do museu.

Por falar em arte, quem tem de mudar rapidamente os seus comportamentos são os responsáveis do Museu Mexicano de São Francisco, uma vez que acabam de saber que a quase totalidade das obras que possui são falsas ou irrelevantes. Segundo um especialista em arte maya, apenas oito dezenas das cerca de duas mil peças têm qualidade para ser expostas.

Claro que a invenção dos comportamentos a que o poeta Manoel Barbosa se refere levam-nos para outras direcções e sentidos. Mas não deixa de ser curioso observar, afinal, como tudo muda e como tudo é incerto. Ou dito de outra maneira, como tudo hoje é precário.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau