Roy Eric Xavier*

Roy Eric Xavier*

Uma das realidades da economia global muitas vezes ignorada pelas associações Macaenses é a relação entre informação e negócios1. Geralmente, o conhecimento sobre os negócios vem na forma de informações sobre mercados locais e internacionais, sectores individuais desses mercados, dados sobre tendências comerciais, notícias sobre tecnologia, perfis de empresas individuais e até informações de contactos para potenciais parceiros. O facto da história de Macau poder ser considerada um activo económico por causa da sua mistura única de culturas europeias e asiáticas também deve ser incluído2. Uma parte crucial da recolha de informações é hoje a capacidade de comunicar directamente com outros profissionais de negócios através das fronteiras internacionais. Enquanto a China Continental está muito envolvida nas relações transfronteiriças através da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, muitas associações em Macau permanecem isoladas, apesar do amplo uso da internet e numerosos exemplos entre expatriados em todo o Sudeste Asiático.

Desde a década de 1820, por exemplo, as tipografias Macaenses em Cantão, Macau, Hong Kong e Xangai criaram um modelo para a recolha e fluxo de informações. De acordo com o investigador Hoi-to Wong, o acesso ao conhecimento sobre a China era uma parte importante de uma rede de informação inicial para comerciantes e missionários em Cantão comunicarem com homólogos na Europa e Ásia3. A circulação do conhecimento geralmente assumiu a forma de avisos, panfletos, livros, jornais e periódicos do governo, estimulando o crescimento de negócios, jornalismo, propaganda e discurso político no século XIX4.

O crescimento da informação impressa proporcionou um rico campo de treino para muitos Macaenses que migraram para Hong Kong na década de 1840 e Xangai na década de 1850. Nesses anos, várias tipografias empreendedoras abriram as suas próprias empresas e forçaram barreiras convencionais ao publicar boletins do governo, criando rótulos de produtos, notas bancárias, jornais de idiomas estrangeiros e até imprimiram e venderam bilhetes de lotaria5. Enquanto continuavam envolvidas em Macau através de diferentes empreendimentos, associações de beneficência e laços familiares, muitas tipografias empregavam familiares e residentes locais em Fuzhou, Xiamen, Ningpo e Hankou, e constituíram a maioria dos Macaenses em cada cidade até ao século XX6.

Uma das vantagens desta grande rede foi o conhecimento em materiais impressos armazenados nos primeiros arquivos e bibliotecas da empresa e a sua influência nas transacções envolvendo exportações internacionais7. Esse conhecimento era muitas vezes fundamental para obter vantagens em relação aos concorrentes, seja nos negócios ou na política. Muita informação ainda está disponível hoje em formatos impressos e digitais, indicando que o modelo do século 19 de criação de tais redes pode ser aplicável ao comércio do século XXI. A diferença é que, virtualmente, uma quantidade infinita de conhecimento pode agora ser preservada e transmitida instantaneamente em todo o mundo.

 

A Combinação Certa para Tempos Modernos

Esta combinação de informação, negócios e cultura pode agora ser utilizada pelas associações Macaenses se estas quiserem envolver-se na diversificação da economia de Macau. Aplicando os recursos da internet, um método para utilizar uma rede de informação moderna pode começar com a criação de uma “Plataforma Internacional de Intercâmbio de Negócios e Cultural” (IBCEP, na sigla inglesa). O que isso envolveria?

Uma IBCEP é uma base de dados de negócios on-line e um arquivo cultural. Permitiria, por exemplo, às PME e as empresas internacionais de Macau aceder a informações sobre empresas de outros países e procurar compradores e vendedores dos respectivos produtos e serviços. A IBCEP também forneceria informações culturais sobre Macau que serviriam como um recurso local e ajudariam os visitantes internacionais a entender a sua história única. Este elemento cultural proporciona uma vantagem económica a Macau, ao fornecer conhecimento historicamente preciso extraído de fontes chinesas e internacionais que irão apoiar o turismo, a indústria de viagens e promover hotéis locais. No mínimo, uma IBCEP forneceria informações logísticas fáceis de usar que podem ser utilizadas por viajantes e potenciais parceiros de negócios para aumentar as trocas transfronteiriças. As características individuais podem incluir:

 

Informações específicas para empresas:

  • Informações sobre empresas de Macau e negócios internacionais, proprietários e fornecedores,
  • Informações detalhadas sobre os seus produtos, serviços, instalações e recursos,
  • Práticas normalizadas e procedimentos para empresas chinesas e internacionais,
  • Informações sobre serviços de importação e exportação para empresas chinesas e internacionais,
  • Informações específicas sobre políticas, direitos e tarifas comerciais em diferentes países,
  • Logística para transporte, incluindo aéreo, terrestre e marítimo em todos os locais,
  • Informações específicas sobre ambientes de negócios em importantes cidades internacionais,
  • Tendências gerais do mercado e do sector em todo o mundo que podem afectar negócios

 

Conhecimento cultural para incentivar

o interesse pela História única de Macau:

  • Informação histórica sobre as origens de Macau e diferentes comunidades étnicas,
  • Informações culturais sobre famílias e comunidades Macaenses relacionadas com os negócios,
  • Locais específicos através do mapeamento GPS 3-D, incluindo sítios históricos e pontos de referência,
  • Informações no site sobre centros de línguas, gastronomia, comunidades e bairros locais,
  • Um arquivo de fotos históricas, vídeos de actividades locais e entrevistas com directores,
  • Informações sobre imigração, economia local, bancos e requisitos para vistos,
  • Fotos, vídeos e outros recursos de media para desenvolvimento cultural e comercial,
  • Links para recursos governamentais em Macau, China e outras cidades internacionais

 

Conclusão: Existe a necessidade

de uma IBCEP em Macau?

A falta de informações fidedignas ​​para conduzir negócios fora de Macau, que é a chave para a diversificação da economia local, é evidente pelo limitado intercâmbio entre empresas locais e os designados países de língua portuguesa. A maioria dos contactos começou em 2003 com a criação do “Fórum para a Promoção da Cooperação Económica e Cultural”, que tenta usar as relações com os governos de Angola, Brasil, Cabo Verde, Timor-Leste, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé e Príncipe para estimular projectos comerciais. No entanto, os resultados têm sido limitados devido à falta de promoção local, agitação política nalguns países e à situação de subdesenvolvimento da maioria das economias8. Ao contrário de Hong Kong, que não limita as relações com países específicos, o foco limitado de Macau em contactos baseados na língua, um remanescente da transferência de 1999 para a China, coloca-o em desvantagem competitiva para vizinhos como Zhuhai e Fujian numa economia global em que as diferenças culturais já não são um obstáculo para a realização de negócios.

Uma vantagem que Macau negligenciou é a das comunidades de expatriados amplamente dispersas em países que não são de língua portuguesa. Pesquisas publicadas em 2011 pelo Instituto de Estudos do Sudeste Asiático em Singapura e pesquisas realizadas em 2013 e 2014 pela Universidade da Califórnia em Berkeley indicam que mais de um milhão de luso-asiáticos que têm laços tradicionais com Macau residem actualmente em pelo menos 35 países ao redor do mundo9. Os membros da segunda e terceira gerações estão agora firmemente enraizados em empresas que fazem negócios com a China. Vários indivíduos, com base em entrevistas recentes, também são CEO das suas próprias empresas e empresários que olham para Macau como uma porta potencial para a China. Tal como os comerciantes do século 16 entenderam o carácter único e a posição estratégica de Macau em relação à China, os intervenientes modernos estão agora à procura de informações para fazer contactos semelhantes.

As vantagens culturais para o desenvolvimento de negócios também são evidentes. Em 2004, Gary Ngai Mei Cheong, presidente da Associação de Macau para a Promoção do Intercâmbio entre a Ásia-Pacífico e a América Latina (MAPEAL), escreveu que era crucial que Macau conservasse a sua identidade histórica como uma ponte para promover intercâmbios comerciais e culturais entre China e o resto do mundo10. Um dos melhores métodos é a preservação de materiais culturais, não apenas em Macau, mas em países onde as comunidades Macaenses se desenvolveram. O Instituto Cultural está em processo de preservação de monumentos e sítios históricos. A Fundação Macau também está a tentar recolher imagens, itens pessoais e documentos relacionados com essa história. Infelizmente, como percebeu recentemente a Dr. Helen Ieong, do Projecto Memória de Macau, as associações Macaenses não conseguiram reunir informações de comunidades no exterior, nem essas associações puderam ajudar as autoridades chinesas a atrair profissionais de negócios entre os seus membros expatriados.

Claramente, há uma necessidade de mais informações sobre os mercados internacionais e potenciais parceiros de negócios, desde o mandato da China para Macau diversificar a economia. Também é necessário recolher materiais relacionados com a história de Macau para promover sua cultura única e apoiar o turismo. Mais uma vez, compete aos líderes das associações Macaenses avançar com um plano. Enquanto dirigente de uma dessas associações, sugiro que uma plataforma on-line para intercâmbios comerciais e culturais internacionais funcionaria bem para iniciar o processo11.

 

NOTAS:

1.A maior parte do contacto internacional com Macau foi filtrada através de 12 associações Macaenses apoiadas pelo Conselho das Comunidades Macaenses (CCM), que foi fundado em 2000 e recebe fundos para realizar reuniões de três em três anos, promover viagens e encorajar intercâmbios comerciais. A maioria dos membros, que são cerca de 10.000, tendem a ser aposentados com um envolvimento profissional limitado nos respectivos países. Com base em entrevistas recentes, há pelo menos 10 outras organizações Macaenses em todo o mundo que não foram reconhecidas pelo CCM.

2-Roy Eric Xavier, “Macau’s Culture as an Economic Asset”, Documento de Trabalho, Instituto para o Estudo das Questões Sociais, 2015 (https://www.academia.edu/18589314/Macaus_Culture_as_an_Economic_Asset)

3-Hoi-to Wong, “Interport Printing Enterprise: Macanese Printing Networks in Chinese Trading Ports”, Bickers e Jackson, eds., “Treaty Ports in Modern China: Law, Land and Power”, Routledge, Londres, 2016: 139-157.

4-Ibid, p.141

5-Ibid, p.145.

6-Ibid, p.143.

7-Os economistas da Universidade de Princeton, Wolfgang Keller, Ben Li e Carol Shiue, estimaram que, entre 1868 e 1947, a actividade comercial na China cresceu 6,4% ao ano devido à expansão de diferentes produtos da China. Keller, Li e Shiue, “China’s Foreign Trade: Perspectives from the Past 150 Years”, 2010: 23-4. A maior parte desse crescimento até 1935 foi na exportação de produtos como algodão e produtos de lã, têxteis, metais, produtos de madeira, máquinas, produtos do mar, alimentos secos, óleos, açúcar, chás e tabaco. Hong Kong representou pelo menos 25% de todas as importações e exportações, com o restante espalhado entre os outros “Portos do Tratado”.

8-Alguns desses sentimentos foram manifestados ​​num artigo de 2010 publicado na Revista de Macau. “… observadores disseram que, apesar dos progressos em termos de comércio e relações económicas, os empresários locais têm sido pouco envolvidos no processo e os resultados directos do fórum não conseguiram corresponder às expectativas. Billy Ip Kuai Peng disse que é necessário prestar mais atenção a “como fortalecer a pesquisa de mercado e a entrega e distribuição de informações”. Https://www.macaomagazine.net/politics/macao-china-and-portuguese-speaking-countries.

9-Paulo Teodoro de Matos, “The Population of the Portuguese Estado da India”, em Laura Jarnagin, ed., “Portuguese and Luso-Asian Legacies in Southeast Asia, 1511– 2011”, Vol. 1, p. 162. Os inquéritos foram conduzidos pelo meu grupo de investigação, o Projecto de Estudos Portugueses e Macaenses, no Instituto para o Estudo das Questões Sociais.

10-Dr. Gary Ngai, “Macau Communities: Past, Present, and Future”, p. 113, publicado em “Macau: Cultural Dialogue Towards a New Millenium”, eds. Ieda Siqueira Wiarda e Lucy M. Cohen, Xlibris Corp. 2004.

11-Dr. R.E. Xavier é membro fundador da Aliança Internacional Macaense (AIM-Macau).

 

*Director do Projecto de Estudos Portugueses-Macaenses e professor visitante no “Institute for the Study of Societal Issues” na U.C. Berkeley.

 

Artigo traduzido do Inglês na sua totalidade. Para mais informações, ou a versão em Inglês deste artigo, visite www.fareastcurrents.com