Jorge A. H. Rangel *

Jorge A. H. Rangel *

 

“O texto agora dado à estampa não destoa. Claro, rico, bem ancorado em chão firme e prudente na alçada das considerações que vai fazendo em catadupa e que se articulam num arco narrativo maior, dá corpo a um trabalho de fôlego que nos enriquece.”

Prof. Armando Marques Guedes, no prefácio

 

Vai ser lançado no fim do mês em Pequim, num seminário a levar a efeito na Universidade de Estudos Económicos e Negócios Internacionais (UIBE), no seio do seu Centro de Estudos dos Países de Língua Portuguesa, e logo a seguir na Livraria Portuguesa em Macau, no próximo dia 1 de Dezembro, a obra “A Faixa e Rota chinesa – a convergência entre Terra e Mar”, da autoria do investigador Paulo Duarte. Edição do Instituto Internacional de Macau (IIM), trata-se do primeiro livro em língua portuguesa sobre este relevantíssimo tema, desenvolvido com abrangência, consistência e extensão.

 

Um centro de estudos plurifacetado

O IIM, como centro multidisciplinar de estudos e investigação académica, acompanha de muito perto a evolução política, social e económica da China, praticamente desde o início do seu funcionamento pleno, em Janeiro de 2000, imediatamente após a eleição dos titulares dos seus órgãos sociais e a aprovação das principais linhas de acção que orientaram o seu desenvolvimento, quando os primeiros programas de actividades foram também elaborados. Neste contexto, a par duma vertente fundamental que é a dos estudos de Macau, que abarca matérias que vão da memória e do legado histórico-cultural aos desafios que são presentemente colocados a este território que Portugal administrou e que tem hoje o estatuto de região administrativa especial da China, são os novos caminhos e opções político-económicas deste imenso país, com milénios de história e uma vontade legítima de retomar um lugar cimeiro no contexto internacional, que prendem a atenção de muitos dos nossos investigadores e colaboradores em várias partes do mundo.

Parcerias diversas estabelecidas com outros organismos e instituições, como universidades, centros culturais e institutos de investigação, foram reforçando e ampliando a nossa capacidade de intervenção. De entre eles, importa referir o Instituto do Oriente (do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa), a que o Doutor Paulo Duarte, autor deste importante trabalho intitulado “A Faixa e a Rota chinesa: a convergência entre Terra e Mar” está também agora ligado, e o IBECAP – Instituto Brasileiro de Estudos da China e Ásia-Pacífico, cujo presidente, Prof. Severino Cabral, co-organizou com o IIM dezenas de actividades, de que se destaca a série de seminários subordinados ao tema geral “O papel de Macau no intercâmbio sino-luso-brasileiro”, que têm sido anualmente levados a efeito em sete cidades de três continentes.

Foi numa sessão complementar realizada em Macau, em vésperas duma conferência em Pequim, em Dezembro de 2016, que pudemos contar, pela primeira vez, com uma comunicação de Paulo Duarte, precisamente sobre o significado deste ambicioso projecto de afirmação política e económica denominado Uma Faixa, Uma Rota, que tem sido objecto de estudos e seminários que têm contado com a nossa activa e interventora participação. De então para cá vimos as nossas relações estreitadas, pelo que foi apenas natural que o IIM assumisse a publicação deste valioso e bem estruturado trabalho, incluindo-o numa das suas colecções editoriais mais procuradas, a “Suma Oriental”, reconhecida pela sua inegável qualidade.

Esta ligação em boa hora criada conhecerá certamente novos contornos no futuro próximo, até porque Paulo Duarte soube interpretar muito bem o papel que Macau pode desempenhar no desenvolvimento desse projecto, “como polo importante na Faixa e Rota chinesa, entre outros aspectos, enquanto interlocutor entre a China e os países de língua oficial portuguesa, algo que em muito beneficiará do contributo de excelência prestado pelo Instituto Internacional de Macau”, conforme referiu numa das páginas deste livro, em que também enaltece o papel do IIM “na produção de ciência e, em concreto, no contributo para a compreensão do que é a China, a sua idiossincrasia, ambições, projectos e expectativas face à Comunidade Internacional” e também “através da produção de conhecimento, para que os académicos, as elites e os responsáveis políticos chineses compreendam melhor as expectativas do mundo face à China”. Sintonizados nestes propósitos, é previsível a intensificação duma colaboração útil, duradoura e mutuamente gratificante.

 

Conteúdo desta relevante obra

Ainda há pouco tempo, tivemos o prazer de assistir à apresentação, em Lisboa, do livro em língua inglesa Pax Sinica – all roads lead to China (Chiado Editores, Junho de 2017), de Paulo Duarte, com prefácio do Prof. Li Xing, da Universidade de Aalborg, Dinamarca, onde dirige a Journal of China and International Relations. Neste prefácio são sintetizadas as questões mais candentes relacionadas com o crescimento da China, que Paulo Duarte muito bem identifica e desenvolve ao longo de oito esclarecedores capítulos em que a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota é analisada em todas as suas vertentes e implicações. Incansável no seu labor intelectual, tão pouco tempo volvido saiu do prelo este novo estudo – “A Faixa e Rota chinesa: a convergência entre Terra e Mar”, o qual está dividido em duas partes, visando a primeira proporcionar uma compreensão da China actual, que inclui uma apreciação crítica das principais tendências da nova política externa chinesa e da posição chinesa face à periferia centro-asiática, com enfoque na vulnerabilidade energética e sua “securitização”. Na segunda é escalpelizada a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota, nos seus objectivos fundamentais e nas suas vias terrestres e marítimas, não deixando de nos oferecer as conclusões a que chegou e uma visão prospectiva do desenvolvimento dos imensos corredores que ligarão a China à Europa e ao mundo, englobando a Cintura Económica da Rota da Seda (componente terrestre) e a Rota da Seda Marítima do Século XXI (componente marítima).

Particularmente interessante é a forma como o autor aborda a intrigante questão do “soft power” chinês. Conceito desenhado por Joseph Nye, o “soft power” complementa o tradicional “hard power”, funcionando ambos em inevitável interligação. O “talento de seduzir” e a capacidade de influenciar através da promoção cultural, difusão de ideias e pela constância da diplomacia, com vista à criação duma “sociedade harmoniosa” e à construção duma imagem crescentemente positiva do país, tentando desmistificar a tese da ameaça chinesa e oferecendo um modelo “win win” para todos os parceiros, em projectos colectivos de criação de prosperidade, são objectivos permanentes do exercício do “soft power”. O autor aborda também com a necessária objectividade a questão do Mar da China Meridional, nas suas diversas perspectivas, incluindo os propósitos de “securitização” das mais importantes vias marítimas e de criação duma grande “marinha de águas azuis”.

Assina o prefácio um especialista em matérias de estratégia e observador atento e qualificado da conjuntura política internacional, o Prof. Armando Marques Guedes, professor universitário e ex-director do Instituto Diplomático, organismo dependente do Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal. Este respeitado mestre resumiu assim o trabalho do autor: “Paulo Duarte habituou-nos a vasculhar os seus livros e artigos académicos – e muitos são já, para alguém tão jovem, doutorado há não muito tempo –, cartografando com a minúcia devida decisões e resultados de uma articulação (melhor, de uma série de conexões) em que a China hoje em dia se empenha”.      

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.