Dinis de Abreu*

Dinis de Abreu*

Um dos mais intrigantes mistérios do ex-Presidente Jorge Sampaio, biografado exaustivamente em dois volumes de memórias, é o seu assumido horror a Macau, que deixou perplexos muitos portugueses que habitam no território, 17 anos depois de ter sido devolvido à China.

A animosidade de Sampaio em relação a Macau – bem como ao seu último governador, o general Vasco Rocha Vieira -, é antiga e só surpreende pela acidez que ainda conserva, tanto tempo decorrido sobre as cerimónias da passagem do testemunho.

Sampaio foi infeliz em várias passagens do que já veio a público do 2.º volume da sua história de vida, cuja editora, para assegurar tão ciclópica tarefa, precisou do apoio de uma ‘bolsa’ financiada por várias instituições e empresas, com valores que ficaram sigilosos, vá lá perceber-se porquê.

Se na política interna os rancores de Sampaio – em contraste com a fleuma que gosta de cultivar – se exprimiram por um inacreditável “fartei-me do Santana como primeiro-ministro”, já na ‘frente macaense’ o antigo chefe do Estado destila um ressentimento vesgo sobre a personalidade do último governador responsável pela administração portuguesa de Macau. Fica-lhe mal.

Sampaio convenceu-se – ou convenceram-no – de que Rocha Vieira estaria a ‘glorificar-se’ em Macau para se lhe opor como candidato presidencial. E a hipótese perturbou-o, temendo que ensombrasse a desejada entronização num segundo mandato em Belém.

E nunca mais arredou pé dessa ideia, cavando divergências com o governador – ao mesmo tempo que mantinha na ‘reserva’ um conselheiro e seu grande amigo, o advogado Magalhães e Silva (que há muito sonhava com o lugar, após uma passagem pelo executivo local).

Sucede que nem Sampaio teve coragem para substituir Rocha Vieira, nem Magalhães e Silva se resignou à perda da oportunidade histórica. E ambos elegeram Rocha Vieira como uma espécie de ‘inimigo de estimação’.

A crónica do que se passou a seguir não foi edificante. Sampaio adiou por tempo escandaloso a condecoração devida a Rocha Vieira e quis entregá-la sem dar nas vistas.

Quando o assunto parecia arrumado, eis que Sampaio aproveitou o livro para confessar que “nunca gostei de Macau” e sublinhar a sua acrimónia com esta pérola: “Em 500 anos nem ao menos conseguimos ensinar português e ficámos com a fama de tipos que foram para lá enriquecer”.

É estranho. Macau representa um dos mais expressivos testemunhos da capacidade dos portugueses para se relacionarem com outras culturas e de coexistência pacífica entre diferentes filosofias e credos.

As igrejas católicas coexistem com templos budistas e a procissão do Senhor Bom Jesus dos Passos, na Quaresma, é tão respeitada como o ritual de outra confissão religiosa. Desde que assumiu Macau como região administrativa especial, Pequim tem sabido acautelar a herança portuguesa.

Talvez por isso, vencidas as hesitações próprias da transição, houve portugueses que regressaram a Macau e não poucos que migraram para o território em busca de novas oportunidades de vida.

Respira-se em Macau um ritmo vertiginoso de crescimento, alargando-se a espaços conquistados ao mar, com uma ‘cidade nova’ erguida entre a Taipa e Coloane (o Cotai).

A TDM continua a emitir televisão e rádio falados em português. Os jornais portugueses publicam-se regularmente. A Escola Portuguesa respira vitalidade, quando não poucas vozes agoirentas vaticinaram, em 1999, o seu fecho a curto prazo. O tradicional Clube Militar é um ‘santuário’ de gastronomia portuguesa, apreciada também por chineses. Ensina-se o português e tem aumentado o interesse dos chineses pela língua, até por causa dos PALOP.

Mas pouco importa. Um dos vícios clássicos da política portuguesa é a fulanização e o imediatismo. Contagia-se o Estado com quezílias e arrufos marginais. A conjuntura esquece a História. Os ciclos eleitorais determinam as estratégias partidárias. Mente-se para ganhar votos. Engana-se o eleitorado, com larga cumplicidade de muitos media.

Influenciado, talvez, por ajustes de contas pessoais, Sampaio mostra uma chocante ignorância sobre o passado e o presente de Macau.

E é pena. Poderia ter-nos poupado à sua visão mesquinha das coisas, ao afirmar sobre Macau que “tive sempre o sentimento de que falhámos completamente a nossa missão”, procurando ‘lavar a fachada’ com a inesperada lamúria de quem quer ficar bem no retrato: “Eu não podia ter feito mais. Só eu sei o que sofri, literalmente. Dei uma luta de morte, apenas por razões de patriotismo e de alguma decência, para fazer as coisas bem feitas…”. Comovente.

Faltou, afinal, perguntar-lhe: que fez ele por Macau? Se descontarmos as intrigas palacianas e as teorias conspirativas, literalmente nada. Parafraseando-o…

 

*Este artigo foi publicado inicialmente pelo semanário português “Sol”, a quem o JTM agradece a autorização dada à sua republicação em Macau