Albano Martins*

Albano Martins*

Quando o mercado cambial é atacado por especuladores que procuram tirar benefícios rápidos das alterações das taxas de câmbio, as economias intervêm através dos respectivos bancos centrais ou autoridades monetárias.

Acontece um pouco por todo o mundo e já várias  vezes terá acontecido, como toda a gente se recorda, em Hong Kong, Região Administrativa Especial da China, considerada a economia mais livre do mundo.

Durante essas intervenções, o custo do dinheiro que se pede emprestado, para efeitos especulativos no mercado, chega a atingir valores astronómicos, que as autoridades puxam as taxas de juro (custo do dinheiro), nomeadamente as overnights, para valores altíssimos, forma encontrada pelas autoridades monetárias para penalizar ou desincentivar os especuladores no mercado cambial.

Portanto, controla-se e desincentiva-se movimentos especulativos!

Ninguém na economia (interna) protesta e todos acham que a estabilidade dos valores entre moedas (câmbio) deve ser mantida a todo o custo.

Macau tem a sorte disso ser feito por intervenção de Hong Kong, devido ao facto da sua moeda estar ligada ao seu dólar e por essa via, indirectamente, ao dólar americano.

Uma decisão correcta tomada há muitos anos pelas autoridades Portuguesas, pois Macau não tem nem reservas (dimensão) nem “expertise” para se envolver nesse tipo de política cambial e monetária.

Já tivemos uma experiência desajeitada nos anos 80, poucos são os que se lembram!

Os especuladores nesse mercado cambial são homens cinzentos que ninguém conhece, o que facilita a intervenção das autoridades na região.

Apesar dessa intervenção e das medidas que se tomam para travar a especulação nesse mercado, a economia continua livre à mesma.

Intervém-se, mas isso não viola a lógica nem o princípio de uma  economia livre nem da liberdade dos mercados.

A intervenção serve para regular e colocar o mercado e seus intervenientes nos eixos!

Agora, transpondo essa filosofia para o mercado interno, fica a pergunta: porquê que não se faz o mesmo no mercado imobiliário, quando os seus preços disparam, distorcendo a relação de preços internos da economia?

Porque em economia livre não se deve intervir?

Hipocrisia, como se viu!

Claro que não se intervém aqui porque os homens neste mercado imobiliário interno não são cinzentos, os lobbies são bem conhecidos e eles dominam quase tudo, tão bem representados estão no próprio “parlamento” desta aldeia grande mas de pensamento estreito!

Vejam o desfecho da lei do arrendamento.

Se não é para chorar, pode significar que Macau governado pelas suas gentes pode significar Macau destruído por algumas das suas gentes! Não todas, claro!

E é por isso que o primeiro sistema intervém cada vez mais no segundo, acredito.

Sendo assim, prefiro então o primeiro sistema a um segundo sistema que nos faz a todos estúpidos!

Claro que não abdico da liberdade, mas prefiro o risco de a usar, ao risco de ser usado e esmagado por essa massa faminta que nos vai aos bolsos!

Como pouco se produz em Macau e a principal indústria se encontra na mão dos casinos, que criou imensas oportunidades para Macau, embora haja muita gente que teima em cuspir no próprio prato, o resto da economia fica quase todo reservado para os caçadores do imobiliário, que alimentam, indirectamente, claro, outras profissões, mas que distorcem os preços da habitação, dos escritórios e dos espaços comerciais, tornando a maioria da população incapaz de poder aí viver com dignidade, estabilidade e qualidade e aí poder tentar competir, com os seus próprios pequenos negócios.

Primeiro, porque essa destruição de preços impede que possam ter acesso a uma habitação condigna que não lhes coma o salário durante toda a vida e, depois, porque lhes impede de poderem ter a sua própria actividade económica e comercial, tal o enorme preço dos escritórios e lojas ou das rendas exorbitantes que lhe são impostos, elas próprias um produto directo ou um reflexo, como queiram, do próprio mercado imobiliário.

Assim, quando no nosso “parlamento” se discutia o problema das rendas e da necessidade de ser criado um mecanismo que limitasse o seu crescimento, achei mesmo que a esmola era grande de mais para o pobre do esfomeado.

Começaram, ao que parece por iniciativa própria, por pretender passar a mensagem de que não queriam sugar o sangue da malta que estava disposta a ir ao mercado de arrendamento, colocando, por motu proprio, um tampão no crescimento dos seus preços.

O primeiro tampão era um gozo para a inteligência das nossas gentes, pelo que rapidamente se deixaram disso.

Finalmente depois de muito pensamento profícuo, deram uma volta de 180 graus, alertando, alto e em bom som, que afinal de contas esse mecanismo de controlo das rendas iria retirar muitas casas do mercado de arrendamento, sendo então um erro impor um limite ao crescimento das rendas.

Certo, certíssimo, também concordo com eles.

Talvez pela primeira vez na vida.

Mas, o que aquela malta não disse, e, claro, nunca ousaria sequer discutir, mas eu digo, era que o Governo, se quisesse actuar no mercado de arrendamento, para o controlar, teria de actuar simultaneamente também no mercado de compra e venda.

Ou seja, se as casas devolutas fossem sujeitas a impostos mais elevados, capazes de desincentivar a sua desocupação, se o mercado de compra e venda do imobiliário fosse sujeito a mais entraves e medidas mais dissuasoras, como por exemplo, impostos mais elevados nas transacções ou penalização da aquisição de habitação adicional por parte de residentes ou não residentes, então os homens do imobiliário não teriam outro remédio senão continuar a colocar parte das suas fracções no mercado de arrendamento, a preços controlados pelo Governo!

Como não há Bolsa em Macau, as nossas e outras gentes, entre elas também os junkets, entretêm-se a brincar com a bolsa do imobiliário, infernizando a vida de toda a comunidade!

Só a nossa inflação não traduz o aumento brutal do custo de vida gerado por essa distorção, achada natural por parte dos defensores do mercado imobiliário deixado em roda livre, que confundem economia livre com o direito de exploração desenfreada do vizinho, sem regras, nem ética, nem limites socialmente aceitáveis!

Do segundo trimestre de 2003 até Julho de 2017, utilizando dados estatísticos e dados dos Serviços de Finanças, constatou-se que o valor de uma habitação viu os seus preços serem em média multiplicados por 15,74, o que representa mesmo assim uma quebra face a Maio, quando essa relação era de 18,47, a maior de todas as que conheço desde que me dedico a essa arte de bem calcular a melhor maneira de meter dinheiro ao bolso, que a banca, pagando miseravelmente (devido também ao peg), incentiva aplicações alternativas e agressivas na economia real.

E como não há muitas alternativas de aplicação por cá, o imobiliário está sempre à porta, com montanhas de agências cheias de abutres à disposição das gentes da terra que queiram sugar o sangue do resto da malta!

Uma casa que em média custava um milhão de patacas no segundo trimestre de 2003, custa hoje, em média também, qualquer coisa como 15.736.281,47 patacas!

Se isso não é gozar com o pagode, então que viva a economia em roda livre!

Eu cá passo, então, a preferir o primeiro sistema que é mais limpinho e cheira melhor!

E sei muito bem quando me vai chatear, que a liberdade é um activo sem preço, fundamental mas responsável!

 

* Economista. Escreve neste espaço às sextas-feiras.