João Figueira *

João Figueira *

Afinal o que querem as audiências? Se a Eurovisão fosse um jornal, seria um tablóide de má qualidade. Foi isso que a esmagadora maioria dos intérpretes fez, ou seja, cada um tentou ser pior que o concorrente, no pressuposto de que é essa a regra do jogo e que é assim que se ganha a coisa no actual circo mediático.

Cantores como Salvador Sobral entrariam na classificação de jornais de referência, ou seja, de qualidade, porque inteiramente indiferentes às pressupostas vontades ou desejos das audiências. O seu objectivo e atitude pauta-se por decisões próprias, embora respeitando a inteligência e a dignidade das mesmas audiências. Estas, afinal, gostam do quê?

O diário El País, pela escrita de Elvira Lindo, disse que a nossa canção tinha sido “um hino à música em quatro minutos”. No The Guardian, o crítico de televisão, Euan Ferguson, escreveu, por seu lado, que “o português é, possivelmente, a língua mais bonita para cantar canções suaves e boas”. De facto, como também escreve Fernando Navarro, no mesmo El País, a conquista de Salvador foi “o triunfo da música sobre o disparate do festival”.

O mais incrível é que ele ganhou na votação do júri e no televoto, alcançando um máximo histórico. Tudo isto, depois de uns dias antes, na conferência de imprensa após a passagem à final, ter prescindido de falar de si e da música, para se centrar numa mensagem humanitária a favor dos refugiados que morrem nas águas azuis do mediterrâneo. Mais uma vez o cantor fugiu à regra das palavras ocas e estupidificantes, para se centrar no essencial e fazer valer a sua consciência de cidadão comprometido com as causas que verdadeiramente importam.

Desde o princípio, portanto, que Salvador Sobral foi igual a si próprio. Não mexeu no cabelo, apenas mudou no casaco que levou para Kiev, mas mesmo assim nada que tivesse alterado aquela imagem de visual frágil, mas humano, com sentido e sentimentos, não de plástico, e, last but not least, foi o único a cantar na sua própria língua ­- ele que até fala fluentemente inglês.

Mantendo uma notável coerência artística, o cantor recusou adaptações festivaleiras que iriam travestir a canção em uma outra coisa qualquer, estragando aquele “Amar pelos dois”. Servida por uma harmonia instrumental bem construída, onde é indisfarçável a inspiração do fado que, a certa altura, se mistura tão bem com os aromas jazzísticos que a cantiga igualmente contém, a canção e o resultado final demonstram que a busca incessante e acéfala por aquilo que achamos que os outros querem e gostam, mais não é que a nossa própria falência de vontade, de personalidade e de atitude. Será que afinal sabemos mesmo do que gostam e o que querem as audiências?…

Um dia, há uma boa meia-dúzia de anos, o designer Henrique Cayatte contava-me numa entrevista que um conhecido administrador de um importante jornal discordava de uma certa opção gráfica dele, argumentando com o tal desejo e vontade do mercado. Cayatte, com aquela ironia sagaz que o caracteriza retorquiu: – “não tem problema, convidamos o mercado para almoçar e veremos se ele tem razão no que diz…”.

Por tudo isto, a vitória de Salvador Sobral é também a derrota dos fazedores de play-lists, dos programadores medíocres e dos que insistem em servir maus conteúdos e tratar indignamente os públicos e as audiências por acharem que estes só querem lixo.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau