João Figueira *

João Figueira *

Era Outubro de 1982 e o outono, como o de agora, aquecia e armava-se em forte. Em Sitges, no litoral catalão, decorria o Festival internacional de teatro e eu tinha a felicidade de ali estar durante uma semaninha mais uns trocos a acompanhar o evento como jornalista. Foi um fartote: espectáculos memoráveis, noites longas de conversas nas animadas esplanadas da pequena cidade e a sorte de uma entrevista com o dramaturgo Alfonso Sastre.

Não foram, naquele Outubro já distante, os “10 dias que abalaram o mundo” de John Reed, mas foram 10 dias que me tocaram profundamente, talvez mais do que era suposto, por estar, então, a dar os primeiros passos como jornalista. Tudo era novo e tudo me fascinava!…

Regressei a Sitges vários anos depois, como viajante, mas a sensação daqueles dias era irrepetível. A cidade continuava agradável e apetecível, mas faltava-lhe agora toda a entourage do festival e das pessoas com quem falar e debater noites fora. Os lugares estavam lá, continuavam aprazíveis e disponíveis, mas as pessoas não. Talvez seja por isso que os lugares sem as pessoas certas perdem muito do seu encanto.

Por estes dias, Sitges é palco de mais um festival, neste caso do Cinema Fantástico, onde a actriz Susan Sarandon vai ser galardoada com o prémio honorífico. No âmbito da masterclass que dirigiu, a actriz partilhou com a audiência as suas preocupações e pontos de vista sobre cinema e televisão. E a este respeito não deixou de dizer que é com dificuldade que vê crianças com 10 anos ter acesso, por via das séries televisivas ou outros conteúdos, a cenas de sexo através das quais podem ganham um conceito errado acerca da noção de prazer para a mulher. Daí, acrescentou, ponderar seriamente num futuro breve vir a realizar filmes porno, com vista a melhorar “a imagem distorcida da mulher” que essa indústria veicula. Também por esse motivo, sublinhou, vale a pena pegar no cinema porno, mas do ponto de vista educativo. E foi também neste registo que, quando lhe perguntaram o que sentia ao fazer teatro e cinema, respondeu que a  diferença entre eles é igual à que existe “entre a masturbação e fazer amor”.

A pequena cidade, com as suas esplanadas, galerias e pequenos museus continua, pois, a fervilhar, mostrando que a sua vida e interesse não se esgotam nos quatro quilómetros de praias. Os festivais, vários e diversos, que ali têm lugar ao longo do ano encontram em Sitges o espaço ideal, porque não buscam a mundanidade dos grande eventos mediáticos, mas a fruição do encontro, do debate, da troca de experiências entre público e participantes. Tudo isso é muito facilitado pela pequena geografia do espaço que não excede os 30 mil residentes. Por tudo isso respira-se ali um ar diferente e por tudo isso apetece sempre lá voltar.

Mas este outono escaldante está, agora, a levantar fervura naquela cidadezinha da Catalunha, onde toda região – e a Espanha inteira – estão em ebulição a pretexto de um complexo processo de independência. O assunto é sério e, como sempre sucede nestes casos, a coisa descamba para o emocional. Não há argumentos, apenas panfletos em forma de palavras, mas desacompanhados de racionalidade. Também não vou agora discutir aqui a questão.

Na verdade, até apetece, para ver se a fervura diminui, fazer uma caricatura, lembrando que aquilo que se viu em Barcelona no dia 1 de Outubro, com a violência gratuita que por lá se exibiu, parecia um sucedâneo da chamada Festa Brava, precisamente numa região que proibiu as corridas de touros, em 2010. Mas até nisto não há acordo: anos mais tarde, o Tribunal Constitucional de Espanha haveria de anular a decisão aprovada no parlamento da Catalunha, com o argumento de que a tauromaquia era património nacional imaterial e, nessa medida, a sua proibição invade as competências do Estado.

Escrevo esta crónica numa altura em que as ruas de Barcelona começam a encher-se de aficionados a favor da independência e contra. A las cinco en punto de la tarde, como no poema de Lorca, quando Puigdemont subir à tribuna, saberemos se ele vai ser o matador ou o bandarilheiro da tarde. Será que vai sair em ombros?

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau