João Figueira *

João Figueira *

Costa Rica – ouviram falar? Da América Latina, por norma, fala-se a propósito de más notícias: golpes de estado, narcotráfico, acidentes graves, sismos. As menos graves são sobre futebol e, mesmo assim, nem sempre.

Sem exército desde 1948, a Costa Rica canaliza uma boa parte do que poupa com a inexistência de forças armas para sectores como a Educação e a Saúde. O seu presidente, Luis Guillermo Solis, garante, de resto, que as poupanças com o exército possibilitaram que oito por cento do PIB fosse investido em Educação, a base do sistema democrático do país mais desenvolvido da América Central.

Apesar disso, as desigualdades entre pobres e ricos não param de aumentar, assim como a preocupação com o narcotráfico: 11 mortos por 100 mil habitantes, segundo dados oficiais reconhecidos pelo próprio presidente, em entrevista recente ao diário espanhol El País.

Reflexo dessa desigualdade crescente é o aumento de condomínios privados como autênticas fortalezas, fruto das políticas neoliberais dos anos 80, palavras de Luis Guillermo Solis, e do fracasso de uma política fiscal mais justa.

Devolver à sociedade uma parte do que ela nos dá constitui, como é sabido, um dos princípios fundamentais e ba
silares das sociedades democráticas mais justas e solidárias, como ensinava a velha social-democracia e defende a doutrina social da igreja. Não é coisa de perigosos esquerdistas, como se quer apressadamente fazer crer.

É curioso, aliás, trazer aqui as palavras certeiras e cruas que o director do Instituto Justiça e Paz, padre Paulo Simões, afirmou num debate recente, em Coimbra, sobre financiamento do ensino superior, ao denunciar que “há fome e desabrigo” entre estudantes universitários e que “a universidade não deve replicar os problemas da sociedade, mas antes criar modelos de inclusão”.

Há todo um programa social e uma visão humanista da sociedade nestas palavras, que descolam por completo da sofreguidão ideológica e económica dos que entendem que tudo se resolve e limita ao mero equilíbrio dos mercados. Como se estes tivessem alma ou pensamento próprio.

No fundo, o que está verdadeiramente em causa é: que fazer com o dinheiro gerado pela própria sociedade? No fim de semana passado, o The Guardian publicava uma extensa reportagem sobre Macau e a sua vida de casino, mas, ao invés de muitos trabalhos feitos com o apoio de serviços do Governo, em que tudo é glamoroso, feliz e próspero, o diário inglês mostra as contradições e os opostos de um Território que está entre os três que mais crescem, ao ano. Mais uma vez: que fazer com o dinheiro gerado?… Como reproduzi-lo ou, com ele, gerar uma melhor e mais sustentável sociedade?

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau