Sérgio Terra

Sérgio Terra

O incêndio que roubou a vida a quatro trabalhadores não residentes (TNR) que viviam numa loja da Rua do Tarrafeiro chocou muita gente em Macau, mas estranhamente ou talvez não, não motivou grandes manifestações de repúdio de deputados, que noutras ocasiões se mostram tão atentos aos problemas do quotidiano.

Como se não bastasse o silêncio da esmagadora maioria dos deputados, pior ainda é constatar que há quem use a tragédia como pura arma política, como foi o caso de Song Pek Kei na terça-feira, na Assembleia Legislativa. A deputada, filha de imigrantes do Continente, apenas fez uma brevíssima referência ao incêndio para salientar que os “TNR que saem da sua terra para trabalhar só querem ganhar mais uns avos” e “se o empregador não lhes facultar um abrigo, apenas podem pegar no subsídio de residência” para arrendar uma fracção, muitas vezes “subdivididas”, o que é “ilegal e pode ser perigoso em termos de segurança”.

Em causa estava uma tese que tem vindo a repetir: “a grande procura de arrendamento das fracções pelos TNR” fez subir as rendas, “obrigando os residentes a viver sob o alto preço dos imóveis e a grande inflação” e fomentando “conflitos sociais”.

Ainda que os incêndios matem pessoas em todo o mundo, impunha-se um alerta público sobre as condições degradantes em que vivem milhares de não residentes em Macau. Ao recordar a morte dos quatro TNR, a deputada não expressou indignação, não lamentou a perda de vidas humanas, nem exigiu uma investigação para apurar responsabilidades.

Reduzir o assunto a uma mera questão das rendas e consequente apelo à pressão do Governo junto das grandes empresas afigura-se como uma falta de respeito com as vítimas, os não residentes em geral e os valores humanistas que, ao longo de séculos, enriqueceram a História de Macau.