Docente e investigador. Ex residente em Macau.

António Aresta *

Énio da Conceição Ramalho (1916-2013) foi a todos os títulos uma figura intelectual singular, um macaense discreto, ora em Portugal, ora em Macau, com uma notabilíssima carreira no ensino liceal, na investigação, na criação literária e com largas investidas pela música ou pela pintura, paixões antigas de resto.

Frequentou o ensino primário e o ensino liceal na sua terra natal, em Macau, e por causa da pequenez da urbe terá tido, com certeza, a oportunidade de se cruzar nas ruas com Camilo Pessanha, com D. José da Costa Nunes e com Manuel da Silva Mendes. Quando entrou no primeiro ano, o Liceu tinha pouco mais de 100 alunos e o Reitor era o professor Carlos Borges Delgado. Na ‘Revista Macau’, a propósito do centenário de Liceu, em 1993, Énio Ramalho assinou um pequeno artigo justamente intitulado, ‘Tudo começa no Liceu’ onde desfia as suas recordações : “Dirigia nesse tempo o Liceu o Dr. Borges Delgado, que durante anos deu à escola o melhor do seu esforço. Teve a virtude de condimentar a aridez da vida escolar, fomentando o gosto pela música, sendo ele mesmo, o ensaiador e director da primeira tuna académica do Liceu. Também introduziu, como actividade extra-curricular, a prática teatral. Era também o Reitor quem dirigia os ensaios, quer da tuna, quer do teatro, numa das salas do velho edifício do Liceu, situado junto ao campo de Tap Seac, onde aos domingos se disputavam os jogos de hóquei em campo”. O professor Camilo Pessanha era então uma figura lendária : “Aí, na escola, leccionou e foi escutado com admiração”. Estudou música na ‘Schola Cantorum’, que funcionava na Igreja de São Lourenço, sob a orientação do padre açoriano Mateus das Neves.

Em 1935, com 19 anos de idade, inscreve-se no curso de Filologia Germânica, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Poucos estudantes macaenses iam prosseguir os estudos em Portugal. Ele próprio frisa esse aspecto: “Só a partir de certa altura, por volta dos anos trinta, ou finais dos vinte, alguns estudantes mais afoitos quiseram demandar estudos superiores, o que implicava uma longa viagem por mar, de mais de 30 dias, até à metrópole”.

Macau, nesse ano de 1935, estava embalada na consolidação da sua identidade cultural, a começar pela comemoração do Dia de Camões. O Chefe da Repartição do Gabinete, Filipe Augusto do Ó Costa, faz publicar o programa: “Às 17.30 horas do dia 10 de Junho próximo prestar-se-á homenagem no Jardim de Camões ao imortal Poeta, glória da nacionalidade, devendo comparecer os alunos das Escolas portuguesas e chinesas com os respectivos professores e um pelotão de cada uma das unidades militares, aquarteladas nesta colónia, bem como contingentes das corporações militarizadas. Usarão da palavra os senhores capitão José da Cruz Ribeiro e Ung-Chi-Lim, professor da Escola Chinesa Secundária Song Sat”.

Em Coimbra, Énio Ramalho conclui o curso com distinção, em 1939,  apresentando uma tese sobre “Aldous Huxley – o intelectual perante os homens e a vida”, que será publicada na prestigiada revista ‘Biblos’ e  editada em separata, em 1942, o que era uma segura indicação da sua originalidade e do seu valor. Recebe do Instituto Britânico o prémio para o melhor aluno do curso. Finaliza igualmente o Curso de Ciências Pedagógicas na Faculdade de Letras de Coimbra.

Após o estágio no Liceu Normal D. João III, em Coimbra, inicia uma longa carreira docente que o levará a Lisboa, a Viseu, a Macau e à Póvoa de Varzim. Em Macau foi Reitor do Liceu Nacional do Infante D. Henrique (1964-1967) e simultaneamente Chefe da Repartição Provincial dos Serviços de Educação.

Deixo aqui assinaladas algumas das suas obras didácticas e pedagógicas que conheceram sucessivas edições: “Caderno de Gramática Inglesa” (1946); “Gramática de Língua Inglesa” (1958); “Gramática da Língua Inglesa para o 2º Ciclo dos Liceus” (1959); “Guia de Conversação Inglesa” (1959); “Dicionário Essencial Inglês-Português” (1961); “Estampas para as Aulas de Conversação de Francês e de Inglês” (1966); “English Student’s Book” (1973); “Dicionário Estrutural Estilístico e Sintáctico da Língua Portuguesa” (1985).

Incursões literárias, poderemos encontrá-las em “A Princesinha na China” (1981) e “O Menino das Estrelas entre os Doutores” (1998). Neste volume de ficção futurista, cuja capa e contracapa reproduzem duas pinturas do autor, encontramos um subtil relance autobiográfico: “Tive um tio que era um excelente professor e possuía uma boa biblioteca, que deixou à viúva, com quem agora vivo. Muitas vezes eu ia às escondidas tirar um livro para dar uma espreitadela. Ele só tinha livros difíceis, sobre a educação, a sociologia, a política, e coisas do género. E ralhava-me, dizia que tais leituras só me faziam mal à cabeça. Mas eu gostava. Também havia livros sobre as naves inter-planetárias. Esses eram os meus preferidos”.  Ficou inédito um anunciado livro dedicado à China. Escreveu um ensaio sobre “A Pintura Chinesa”, publicado no Boletim do Instituto Luís de Camões, de Macau. Com muito interesse também , a conferência “O Valor Intrínseco da Palavra na Estruturação da Linguagem Poética”, proferida em 1998, e publicada em 2001 no livro “Reencontro com o Dr. Luís Amaro de Oliveira, o professor e o amigo”, uma excepcional e rara evocação, para o contexto mental português, de um grande professor do ensino liceal. Tradutor de William Shakespeare e de inúmeros outros autores, foi também este o modo que Énio Ramalho encontrou para aproximar culturas e povos e exercer um magistério cultural perante os seus concidadãos. E sobre a tradução deixou uma maturada reflexão: “Mas adaptar ideia e forma numa versão para outra língua só é possível, em parte, pois que para tanto há que deturpar a forma original, se não, também, a ideia. Quisemos, porém, fazer a experiência. Tentamos traduzir, para português, algumas composições poéticas da vetusta China, correndo mesmo o risco de desnudar a atmosfera poética do original. Não pudemos, por desconhecer a língua, ter acesso aos originais, pelo que nos servimos da tradução inglesa de Arthur Wally, da obra ‘Chinese Poems’. Na poesia da velha China intervém o elemento religioso, o popular, o aristocrático e o panteísta, este último reflectindo uma veneração dos fenómenos da natureza”. E pelo que aqui se vê, fará todo o sentido empreender um bosquejo bibliográfico dedicado a Énio Ramalho.

Vou deter-me um pouco no seu pensamento antropológico, consubstanciado em duas outras publicações, injusta e misteriosamente esquecidas nas bibliografias e nas antologias sobre a história e a contemporaneidade de Macau.

A primeira é “Macau, Lembrança Doutros Tempos….”, uma edição do Rotary Club de Viseu , sendo uma “Palestra proferida no Rotary Club de Viseu em 20-01-1951, em sessão dedicada ao Rotary Club de Macau”. Após uma inevitável contextualização histórica, em jeito de lição,  recorre à memória emocional para relembrar a sua cidade, “ao longo da baía murada, rente ao mar, um cordão de velhas árvores copadas ensombrava a estrada marginal, ao mesmo tempo que dava mais côr à paisagem. Atrás, os edifícios alinhavam-se numa extensão de mais de um quilómetro: boas construções, casas limpas, brancas, arejadas; outras amarelas, côr de rosa. Predominavam os tons claros e alegres. No primeiro piso, longas arcadas com passeio interior ofereciam abrigo aos transeuntes em dias de chuva e calor; casas particulares, algumas lojas, uma ou outra repartição pública, um ou outro hotel e o Palácio do Governo. Percorre toda a baía um nunca acabar de construções, que se estendem gostosamente por sobre as águas mansas”. Esta vivida descrição terá provocado certamente nos seus ouvintes em 1951 o desejo de conhecer essa “fascinante e longínqua jóia do império português”. E como se caracterizava a comunidade portuguesa? Énio Ramalho apressa-se a responder: “A população portuguesa da colónia leva uma vida bem diferente da indígena: constituída quase na totalidade por famílias de funcionários, ela divide as suas horas entre os afazeres da repartição e um ou outro passatempo habitual: reuniões familiares, partidas de ténis à tardinha, e, no verão, o mar. Há campos de jogos, onde os rapazes se alongam na prática do desporto. As crianças frequentam as escolas e o liceu, que conta cerca de 150 alunos. Há ainda uma escola secundária do comércio, um seminário, um colégio feminino dirigido por religiosas com numerosa frequência. O nível médio de instrução é elevado. De entre a população portuguesa natural da colónia não há um único analfabeto, e poucos são os que não tenham frequentado uma escola secundária. Há também uma escola luso-chinesa e inúmeras escolas chinesas, com uma população escolar de cerca de 30.000 jovens. Existe um jornal diário escrito em língua portuguesa e vários em língua chinesa. Uma guarnição militar metropolitana defende a cidade e encontra-se aquartelada em pontos estratégicos nas suas principais elevações”. Mas não deixa de reflectir em voz alta sobre as consequências da segunda guerra mundial na guerra civil chinesa, sobretudo no amanhecer do comunismo, com as óbvias consequências para Macau: “Metida entre duas guerras, a colónia viu subir assustadoramente os preços dos artigos, e mal se sabe ainda quando as coisas voltarão ao nível primitivo. Nuvens negras surgem no horizonte e são indício de novas tormentas. Os corações pulsam oprimidos pelo terror do que está para vir, pois a tempestade que agora ameaça os homens é outra. Dividem-se as hostes em cada campo, e as almas interrogam ansiosas: onde irá acabar tanta luta, tantos sacrifícios, tantas convulsões neste mundo atormentado? Mas a tempestade ruge mais forte para as bandas do Oriente, e Macau, pequena cidade multissecular reclinada sobre as águas mansas do rio, sente-se como todas as outras ameaçada. Pobre terra e pobre gente! Quatro séculos de luta pertinaz, de paciência, de coragem, de tacto diplomático, firmaram em terras do Oriente distante um cantinho de Portugal que hoje é nosso. Homens da minha terra! O espírito que através dos tempos vos tem ligado à Nação e mantido intacta a terra da Pátria no Oriente não permitirá que ela se perca”. Um optimismo muito cauteloso, dado o contexto regional, político e militar, absolutamente avassalador.

A segunda publicação intitula-se “Coexistência Cultural”, uma edição do Centro de Informação e Turismo, de Macau, e resulta de uma “Palestra proferida pelo Reitor do Liceu Nacional Infante D. Henrique, Dr. Énio Ramalho, no dia 11 de Maio de 1964, no Leal Senado da Câmara de Macau, por ocasião do encerramento da Semana do Ultramar”, inserida nas “comemorações do XL aniversário da Revolução Nacional”, cuja comissão provincial integrou as seguintes personalidades: presidente (governador da província, António Adriano Faria Lopes dos Santos), vice-presidente (Adolfo Adroaldo Jorge, presidente da comissão provincial da União Nacional), vogal (Armando da Mota Cerveira, comandante militar de Macau e presidente do Leal Senado), vogal (Francisco Martins, comandante da defesa marítima), vogal, (Octávio Galvão de Figueiredo, comandante da PSP), vogal (Manuel Barnabé Lopes, chefe dos Serviços de Fazenda e Contabilidade), vogal (Énio da Conceição Ramalho, chefe dos Serviços de Educação), vogal (Joaquim Morais Alves, chefe de secção interino dos Serviços de Saúde e Assistência e presidente do Conselho Provincial de Educação Física).

A complexa arte da coexistência  foi sempre um dos segredos da sobrevivência de Macau, como Wu Zhiliang magistralmente demonstrou na sua tese de doutoramento. Estranhamente ou não, algumas questões que Énio Ramalho formulou permanecem intactas na sua radicalidade: “Mas, que povo é este que nos rodeia, como vive e como pensa, que costumes são os seus? Que interesses nos ligam, quais as lições a colher desta gente laboriosa, que nos concede as primícias do seu solo, nos empresta os braços para o desbravar, a excelência do seu espírito inventivo, os produtos do seu labor paciente – a troco duma administração multissecular que dá a este pedaço de terra aquele toque de lusitanidade, e aos seus costumes certo sentido cristão e europeu?”. O conhecimento do Outro, uma alteridade compreensiva, deverá ser uma construção feita em duas fases. Énio Ramalho desenvolve assim o seu pensamento: “Julgamos que a primeira tarefa a empreender é a de que as obras dos nossos poetas e escritores sejam traduzidos para a língua chinesa, uma vez que são em pequeníssimo número os chineses capazes de ler e entender a língua portuguesa; e não só a nossa literatura como a nossa arte em todas as suas facetas, e também a nossa história, todo o esforço criador na ciência da navegação e descoberta. Não pensamos que até agora se tenha feito qualquer tentativa séria nesse sentido. Na literatura, por exemplo, Camilo Pessanha, artista de rara sensibilidade que esculpiu em rimas de cristal muito das belezas e do exotismo da China, não é mais do que um desconhecido nesse país. De Camões, cuja obra merecia ser divulgada no Oriente, cremos que pouco mais conhecem além da velha gruta”. A coexistência cultural deve ir mais longe na sua reciprocidade: “A coexistência deverá significar não apenas a presença física de dois povos que ocupam o mesmo espaço geográfico, e que em tudo mais se mantém estranhos um ao outro; esses serão, quando muito, dois inquilinos do mesmo prédio, pagando em comum as obrigações relativas à conservação daquele. A verdadeira coexistência terá de significar qualquer coisa de mais profundo, com raízes na alma e no entendimento: há-de traduzir-se na aproximação e intercâmbio dos espíritos, a compreensão mútua, – o conhecimento recíproco de quanto diga respeito a cada um deles: a sua história, os seus usos e costumes, a sua arte, e o papel que a cada um coube adentro da missão civilizadora dos povos”.

Este pensamento heterodoxo teve a virtualidade de reconhecer que na balança da coexistência luso-chinesa ou sino-portuguesa pesaram mais os afectos, as cumplicidades e os negócios, ao passo que a cultura em todas as suas facetas e a aprendizagem das  línguas tiveram um peso pluma.

A exortação, “Povo da China! nós te saudamos ao cabo de 4 séculos de convívio fraterno”, sintetiza bem a sinceridade do autor que acreditava que a coexistência começava por este primeiro passo.

Pouco tempo depois, em 1966, o Território é abalado pelo pequeno sismo ideológico conhecido por um-dois-três, com radicalismos e devastações. Macau, esse continuou porque a coexistência era uma realidade viva e mais poderosa do que as episódicas divergências.

Fazendo o balanço do passado, não tem hesitações: “O Liceu foi, e tem sido, durante largos anos um agente modelador de mentalidades e foi, sem dúvida, a zona de confluência de duas culturas, a ocidental e a oriental. Teria por força de ser assim ser, dada a presença envolvente da China com a sua espiritualidade milenária a influenciar os seus vizinhos seculares – através da língua, do seu teatro tradicional, carregado de simbolismo, recheado de guerreiros lendários da antiga história pátria, e através da sua música, que diariamente espalha as cinco notas de caprichosa tessitura melódica pelos cafés e casas de pasto”.

A arte da coexistência foi a magna lição de Énio Ramalho.

 

* Docente e investigador. Ex-residente em Macau.