Albano Martins*
Quando há cerca de seis anos fui confrontado com a situação em que se encontravam os galgos no Canídromo e decidimos que a Anima deveria resolvê-la, a bem dos animais e da imagem desta terra, muita gente, e muitos amigos, diziam-me que era batalha perdida.
Na altura, eram abatidos cerca de 30 animais por mês para outros tantos serem encomendados à Austrália para os substituir.
Importavam-se mensalmente cerca de 30 animais da Austrália, vendiam-se em hastas públicas, a preços que atingiam algumas vezes 18 vezes o custo normal e abatiam-se na mesma proporção os que não eram competitivos.
Ou seja, em dois anos toda a população (720) era teoricamente renovada.
Nenhum saía de lá vivo!
Muita gente achava isso normal, mandar matar tantos animais saudáveis, apenas porque já não eram competitivos!
Como se normal fosse um negócio que se prolongava no tempo desde 1963 (mais precisamente 54 anos) à custa do sofrimento de animais que eram muitas vezes postos a correr duas vezes na mesma noite e muitas vezes três noites seguidas, como refere Ricardo Pinto na sua peça de investigação publicada no Ponto Final de 12 de Outubro de 2016.
Como se ficou a saber pelo trabalho de Ricardo Pinto, o primeiro Canídromo começou as suas actividades em Macau em 1932, pela mão do empresário americano, estabelecido em Xangai, Sr. Gerrard, que trespassou de seguida a actividade a empresários locais, acabando por ser interrompida em 1938, pela guerra Sino-Japonesa para ser reaberta 25 anos depois, em 1963.
Em 2018, oitenta e seis anos depois das corridas de galgos terem iniciado em Macau, terminará a concessão do Canídromo.
Em 2011, em Dezembro, depois de uma reportagem do SCMP, e de um encontro em Macau com a GREY2K USA, a Anima tomou conhecimento da real situação dos animais no Canídromo.
A partir daí tentou resolver da melhor forma a situação, tentando dar uma oportunidade aos animais inactivos de poderem ter uma saída sem ser pela eutanásia.
A Anima pedia um programa de adopção, assumindo parte dessa responsabilidade.
No entanto, depois de duas reuniões em 2012, sob a égide da DICJ, o Canídromo diz que preferia outro parceiro e borrifou-se nesta pequena organização.
Nenhuma adopção a sério foi equacionada.
O Canídromo havia decidido pela via mais arrogante, não conversava, não respondia e o seu administrador executivo assumia a atitude do “Quero, Posso e Mando”!
Perante isso, nada mais havia a fazer pois o Governo não dava sinais de intervenção.
A estratégia da Anima passou então a ser outra, o encerramento do Canídromo.
No final de 2012 a campanha da Anima começa a intensificar-se.
Torna-se mais visível depois da sua participação na Conferência da AFA (Asia for Animals) em Singapura em Janeiro de 2014, donde acaba por sair uma carta dirigida ao Chefe do Executivo a pedir o encerramento do Canídromo, em representação de dez organizações internacionais, entre as quais a Anima, apoiada por mais 131 organizações espalhadas pelo mundo, muitas delas da própria China.
Em 2015, em Julho, depois do lançamento de uma petição que recebeu mais de 370 mil apoiantes (provavelmente a mais bem sucedida a nível mundial), a Anima organiza uma mesa redonda internacional em Macau, juntando dez organizações internacionais de protecção de animais, da Europa, Austrália, China, EUA, HK (China) e Taiwan!
Nesse mesmo ano, em Setembro, a Anima organiza em Macau uma vigília pelos galgos de Macau, apoiada por mais de 24 cidades espalhadas por todo o mundo, principalmente na Europa e nos EUA.
Nessa altura, último ano da concessão, o Governo de Macau reage dizendo que prolongava a concessão do Canídromo por mais um ano, para se estudar o assunto, afirmando não ser justo o negócio fechar de um dia para o outro (?)!
Em Outubro, a Anima participa numa reunião em Miami sobre a situação dos galgos a nível internacional.
No final de 2015, depois de um vídeo produzido pela Animals Australia, que havia participado em Macau na mesa redonda da Anima, a Nova Gales do Sul toma medidas drásticas contra as corridas na Austrália.
No ano de 2015, o Canídromo deixa assim de receber tantos animais como no passado e no final do ano nem mais um!
Em 2016, a empresa volta-se para a Irlanda, o maior produtor desses animais na Europa.
Nesse mesmo ano, a Anima com o apoio das organizações de protecção de animais inglesas e irlandesas bloqueia a vinda de 24 animais da Irlanda.
Como era necessário assegurar o corte de animais vindos da Irlanda, a Anima participa com outras organizações irlandesas, inglesas e a GREY2K USA Wordwide numa demonstração na Irlanda, acabando por ser recebida pelo Parlamento e pelo gabinete do Ministro da Agricultura. O objectivo era bloquear a exportação de animais para Macau, única forma de secar a indústria em Macau. No mesmo mês participa, com a GREY2K USA Wordwide, em Frankfurt, numa reunião com a Lufthansa para convencer a transportadora a não enviar esses animais para Hong Kong, que se destinam a Macau.
Nesse mesmo ano de 2016, o Governo anuncia que dá ao Canídromo duas opções, ou muda de local, mas passando a ter mais atenção com o bem-estar dos animais, ou fecha em Julho de 2018!
Em Setembro, a convite da Pet Levrieri, a Anima participa em Milão, como oradora convidada, na conferência internacional “Freedom for the Greyhounds”.
No mês seguinte, nos EUA, na Florida, perante uma audiência composta por dezenas de organizações de protecção de animais de todo o mundo, a Anima participa, também como oradora, na conferência “Greyhounds around the World”, onde anuncia o encerramento do Canídromo em Julho de 2018 e a sua estratégia para salvar todos os animais.
Que depende totalmente da decisão do Governo e do Canídromo.
Para isso, a Pet Levrieri lança uma petição internacional dirigida ao Chefe do Executivo a pedir para que os animais sejam todos entregues à Anima, alertando para os perigos para a imagem de Macau, como Centro de Turismo Internacional, se os galgos forem mandados para a China, Vietname ou outros países onde não há leis que os protejam.
Entretanto, enquanto o Governo decide ou não, a Anima prepara-se para tentar fazer sair gradualmente os animais inactivos para países preferencialmente europeus.
Negociações com transportadoras aéreas e companhias marítimas estão em curso para reduzir ao máximo os custos de transporte desses animais, evitando-se os intermediários de Hong Kong!
Neste momento, sem grande esforço, a Anima dispõe actualmente de mais de 250 adoptantes!
Nova campanha internacional está em curso, assinada pela Anima, GREY2K USA Worldwide e a Pet Levrieri e que vai contar com centenas de organizações de protecção de animais espalhadas pelo mundo. Trata-se do pedido para que essas organizações absorvam o contingente de cerca de 650 galgos ainda existentes no Canídromo.
Outra campanha internacional está também em curso. Convencer conhecidas personalidades do mundo a enviarem uma carta ao Chefe do Executivo de Macau a pedir a sua intervenção junto do Canídromo para que a Anima possa ficar com os animais e seja autorizada a gerir o espaço por um ano, enquanto se faz o reordenamento da área.
Macau só tem a ganhar se encontrarmos uma saída airosa para essa enorme pedra que tem no sapato!
Que vença o bom senso e algum sentido de humanidade!
* Economista



