Helder Fernando
1. Quase não há optimismo que resista.
A Natureza rebela-se contra os ataques mortais que lhe fazem – nos rios, deltas, mares, terras e ares. Golpadas políticas das mais baixas que é possível imaginarmos. Governantes impreparados para compreender as comunidades e muito menos para governar. Dívidas públicas nascidas de falsários a quem foram permitidos estratagemas impiedosos para com o cidadão desarmado. Crescimentos económicos de fachada, sem o mínimo respeito pelos contribuintes. As denominadas crises económicas a derramarem-se pelos continentes, estrategicamente concebidas pela ganância louca dos poderosos, de cujos rostos e identidades, só sabemos os visíveis, e estes não passam de paus mandados.
Os presentes cenários reais erguidos desgraçadamente à custa dos mesmos desgraçados, os que não fizeram dívidas – e se as fazem têm de as pagar – a serem espoliados de tudo, alegadamente para as governanças cumprirem compromissos. Toda a gente sabe que jamais esse tipo de dívidas, virtuais ou não, irão ser pagas, nem na mais fantasiosa imaginação. Basta ler um pouco os especialistas, ouvi-los também é útil.
Os Estados Unidos batem todos os recordes deste tipo de dívidas. Conhecidos os tais 17 triliões de dólares por pagar, vem agora um pesquisador da Universidade da Califórnia garantir que a dívida norte-americana é muito superior, ultrapassando os 70 triliões. Ninguém consegue imaginar o que este número encerra. A ciência política deixou de ser ciência e deixou de ser política. Porque é insultar a ciência e ultrajar a política, qualquer governança solicitar empréstimos muitas vezes às mesmas entidades que provocaram o grande caos económico para os bolsos pequenos; porque é indecente assumir dívidas de bancos que agem de má fé, para a seguir, impiedosamente, retirar a aposentados, viúvas e viúvos, sobreviventes do baixo salário mínimo, o pouco que lhes resta.
Os donos das regiões, dos países, do planeta, nem querem ouvir falar da Economia Comportamental, das motivações sociais, de factores emocionais, dos processos cognitivos, antes de tomarem decisões que destroem vidas, que escangalham o mundo.
Os servidores desses donos, basta ouvi-los na sua tacanhez e insensibilidade, na deselegância e pobreza argumentativa, na sua irritação para com a réplica, para com o contraditório, basta ouvi-los, enterrados em dinheiro, na sua tacanhez militante.
2. É tão difícil deixar de pensar como difícil deixar de sonhar.
É tão difícil deixar de resistir como é difícil resistir.
É tão difícil irmos de encontrão sobre os que nos mentem como é difícil travarmos a rejeição que nos provocam.
3. Didier Drogba e Emmanuel Ebou, naturais de um país chamado Costa do Marfim, são atletas do futebol de alta competição e cidadãos conscientes que pensam e praticam alguma coisa do que pensam sobre desporto e outros aspectos da vida. Ambos jogam na Turquia, um país que, oficialmente, desde os anos 60, quando fez os primeiros namoricos com a então CEE, pretende integrar a Europa do Euro. Tanto Drogba como Ebou jogam no mesmo clube turco, o aparentemente milionário Galatasaray.
Pois bem, num recente desafio, esses dois jogadores entenderam expressar a dor sentida pela morte de Nelson Mandela, homenageando-o com duas frases que exibiram nas respectivas t-shirts interiores. Quando foi substituído, Drogba tirou a camisola e revelou os dizeres na t-shirt: “Thank you Madiba”, sendo aplaudido por muitos adeptos. Na t-shirt de Eboue, lia-se esta inscrição: “Rest in Peace Nelson Mandela”. Imediatamente a Federação turca de futebol avançou com procedimentos disciplinares. O argumento é o óbvio: aquelas exibições infringiram a norma que proíbe a exibição de mensagens políticas.
É o futebol quadriculado nos gabinetes a desumanizar tudo, a adormecer consciências, a formatar jogadores e adeptos, a aplicar o lado mais burro da justiça draconiana. A Turquia quer pertencer à Europa do Euro a tal moeda única um destes dias a confundir-se com partido único, a Europa do desemprego, da corrupção a alargar, do sacrifício sobre os contribuintes inocentes, do neo-nazismo e da xenofobia crescendo.
A Turquia, cuja liberdade religiosa e de expressão está próxima do Sudão ou da Coreia do Norte, está nitidamente no bom caminho.
* Radialista. Escreve neste espaço habitualmente às segundas-feiras e hoje excepcionalmente devido ao feriado da Imaculada Conceição.



