António Marques da Silva*

António Marques da Silva*

Esta insatisfação

Não consigo compreeender

Sempre esta sensação

Que estou a perder

Tenho pressa de sair

Quero sentir ao chegar

Vontade de partir

P´ra outro lugar.    

 

Estou além. António Variações.

1. Foram quase três meses de paragem. Uma curta estadia em Portugal e o regresso a Macau, a um novo trabalho e às páginas deste jornal. Sim, eu acho que sou um pouco como o António Variações era: “Só estou bem aonde não estou”. Mas Macau entranha-se e acabamos por ir sempre adiando o adeus. Não sei, mas acho que é esta humidade que ajuda a criar raízes fortes e profundas. Ou serão as rotinas, os amigos, este modo de vida descomprimido? De certeza, esta sensação ambivalente e confusa de que estou a perder nesta minha pressa de partir, mas vontade (maior?) de chegar.

Ponderei se valia a pena continuar estas crónicas porque já são quase 12 anos e, por vezes, o filão da imaginação parece já ter dado o que tinha a dar. E, eu costumo dizer (e reafirmo) que quando era jovem tinha a ilusão de mudar o mundo mas que agora só anseio que o mundo me não mude a mim. Porém isto não significa resignação, comodismo ou capitulação, antes pelo contrário. Eu, para não mudar, necessito de continuar activo, de ter opinião e de a exteriorizar, de ser um cidadão de corpo inteiro.

Quero retribuir a Macau um pouco do muito que esta terra me deu. E, para tanto, nada melhor do que exercer, na sua plenitude, os direitos, liberdades e garantias consagrados na Lei Básica como essência do segundo sistema, realçando dentre eles o da liberdade de expressão de pensamento, ínsito no artigo 27.º.

Aqui estou, pois, de novo, livre e tentando ser responsável que liberdade sem responsabilidade é libertinagem, com exemplos de sobra em Macau.

2. E como vai Macau neste ano de eleições já marcadas para o dia 17 de Setembro? Tudo como dantes, quartel general em Abrantes? Parece que sim, mas talvez não.

As receitas do jogo iniciaram um processo de retoma e logo o povo começa a sentir no bolso os efeitos colaterais do “fogo amigo” com as rendas e os preços das casas a subirem artificialmente. E claro as idas aos restaurantes cada vez mais proibitivas; chegam a ser pornográficos os preços praticados, alegadamente devido aos aumentos das rendas. Mas será só, ou haverá também, pelo meio, uma dose forte de ganância? Tudo bem, os turistas incautos pagam e a nós resta-nos comer preferencialmente em casa. Até porque os preços sobem e, em muitos casos, a qualidade diminui.

Ano de eleições este, e as mensagens de apelo para que fiquemos em Macau no dia das eleições e não nos esqueçamos de ir votar já começaram a cair intrusas nos nossos telefones, sem pedido e sem autorização. O tempo urge e no aproveitar é que está o ganho!

A esta matéria voltaremos para a semana, mas antevejo que muita gente deve andar preocupada – e com razões para isso – face ao anúncio da candidatura vencedora nas últimas eleições de que nas próximas irá apresentar duas listas o que pode, com grandes probabilidades, elevar para quatro o número dos seus eleitos.

* Jurista