Eva Cabral*

Eva Cabral*

GUTERRES CONTRA UM “APAGAMENTO” DA ONU – Um banho de realidade depois de seis meses de eleito secretário-geral da ONU. Apenas seis meses depois de assumir funções nas Nações Unidas, António Guterres sente as consequências da presença de Donald Trump na Casa Branca, diz o eurodeputado Paulo Rangel. António Guterres  discursou ontem, pela primeira vez, no Parlamento Europeu como secretário-geral das Nações Unidas, tendo como fundo um cenário complexo do ponto de vista internacional: continua a crise dos refugiados, a administração Trump alterou os equilíbrios estratégicos e a União Europeia continua a ser um anão político, cada vez mais frágil desde o Brexit e que treme de cada vez que há eleições em países relevantes, como aconteceu agora em França. Paulo Rangel considera que a visita do português surge numa fase de “apagamento” do seu mandato como secretário-geral das Nações Unidas, apenas seis meses depois de assumir funções. O social-democrata Paulo Rangel admite que o secretário-geral da ONU possa trazer dois temas fortes na agenda: os refugiados, por um lado, já que se trata de assunto “a que está muito ligado”, desde logo pelos seus dez anos de experiência como Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR); além disso, Guterres poderá querer chamar a atenção para a “situação de fome em África”, em particular na zona da Somália. Já para o socialista Carlos Zorrinho, a presença de Guterres em Estrasburgo representa um momento de “elevada importância política”.

 

PORTUGAL NÃO MANDA EM ALMARAZ – É uma evidência. Portugal não manda em Almaraz. A novidade é que a realidade acabou por ser defendida pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que frisou, no parlamento, que o Estado português não se pode imiscuir na decisão que compete a Espanha de encerrar ou manter em funcionamento a central nuclear de Almaraz. Enfim: o senhor de La Palisse não diria melhor. Santos Silva, que falava na comissão parlamentar de Ambiente e Ordenamento do Território, disse que o Governo “segue a orientação da Assembleia da República quanto a Almaraz e que a decisão de eventual fecho ou prolongamento da central compete ao Estado espanhol. Não garanto uma coisa [o eventual encerramento da central depois de 2020] que depende de decisões que não são minhas”, sublinhou, respondendo aos deputados, quando questionado sobre a posição de Portugal relativamente ao encerramento da central espanhola, localizada a cerca de cem quilómetros da fronteira portuguesa.

 

REDUZIU RISCO DE POBREZA – Quase 2,6 milhões de portugueses estavam em risco de pobreza ou exclusão social em 2016, menos 1,5 pontos percentuais que no ano anterior, apesar de um aumento de 79 euros no rendimento mensal das famílias, segundo dados estatísticos revelados agora. Os números estão no Inquérito às Condições de Vida e Rendimento feito pelo INE, que contou 2,595 milhões de pessoas, entre as quais 487 mil com menos de 18 anos e 468 mil com mais de 65, em risco de pobreza e com outros problemas daí decorrentes. Casas com falta de divisões habitáveis, sem casas de banho, apertadas e escuras são os problemas nas condições de vida que mais afectam famílias com crianças que se contam entre os que estão em risco de pobreza. De 2015 para 2016, o rendimento médio disponível por família aumentou 79 euros, para 1.497 euros por mês, ou seja, 17.967 euros anuais. O valor de 2015 esteve ao nível de 2008.

 

MINISTRO DA ECONOMIA SATISFEITINHO – O ministro da Economia afirmou que o crescimento da economia registado no primeiro trimestre de 2017 superou “todas as expectativas” e “é equilibrado”, mas não chega, sendo preciso que no futuro aconteça por via da inovação. Manuel Caldeira Cabral está assim  satisfeitinho: “O crescimento da economia tem acelerado nos últimos três trimestres. Foi importante dar mais confiança aos consumidores, com reposição de rendimentos, mas é igualmente importante dar mais confiança aos investidores. Tudo isso resultou num crescimento que é equilibrado”. Caldeira Cabral destacou que Portugal regista “um dos maiores aumentos de emprego desde o novo século”, que foi “conseguido com melhoria do saldo externo e melhoria do saldo das contas públicas, e não criando novos desequilíbrios”.

 

DESCONFIEM DAS PREVISÕES – O consultor Roland Kupers aconselha empresários a “desconfiarem” das previsões económicas. Este consultor especializado em estratégia, complexidade e resiliência aproveitou o destaque dado momentos antes pelo ministro da Economia ao crescimento homólogo de 2,8% da economia portuguesa no primeiro trimestre do ano para notar como uma evolução tão “impressionante” dificilmente seria previsível há alguns meses. “O facto de não fazermos ideia de que tal ia acontecer há alguns meses revela-nos as dificuldades que temos em prever o futuro”, afirmou o professor-associado da Universidade de Oxford e co-autor do livro ‘The Essence of Scenarios – Learning from the Shell Experience”, destacando como as últimas décadas têm revelado a “incapacidade total para se antecipar uma crise financeira”, já que “nenhuma das últimas recessões foi prevista”. Para Kupers, tal como “não se espera que os dentistas prevejam quando um doente vai ter uma cárie” ou como “a meteorologia não pode ser prevista com muito mais do que cinco dias de antecedência”, a extrema volatilidade num mundo recheado de eventos de “elevado impacto” torna impossível fazer efectivas previsões.

 

NOVOS ALERTAS DO CFP – Pois é: o Conselho de Finanças Públicas (CFP) alertou que a melhoria estrutural prevista para 2017 é “inferior à exigida” pelas novas regras orçamentais aplicadas quando Portugal sair do Procedimento por Défice Excessivo (PDE). Se o PDE for encerrado com base no desempenho orçamental de 2016 – o que deverá acontecer porque o défice orçamental ficou nos 2%, abaixo da meta de 2,5% exigida a Portugal e do limite de 3% definido pelas regras europeias – o país passa da vertente correctiva para a vertente preventiva do Pacto de Estabilidade e Crescimento a partir de 2017. Isto quer dizer que ficará obrigado a apresentar, a partir de 2017, uma melhoria do saldo estrutural de pelo menos 0,6 pontos percentuais do PIB “até que o Objectivo de Médio Prazo seja atingido”, sendo que esta meta é actualmente de um saldo positivo de 0,25% do PIB para Portugal.

 

* Jornalista. Assessora de Passos Coelho nos XIX e XX Governos Constitucionais.