João Figueira *

João Figueira *

Creio que é a Duke Ellington que devemos a famosa frase de que só há dois géneros de música: a boa e a má. Do jornalismo podemos dizer a mesma coisa, com a ressalva de que tal se aplica independentemente da importância e expressão dos respectivos órgãos de comunicação. Ou seja, pode haver jornalismo de excelência num pequeno jornal familiar de província.

O mais certo é nunca terem ouvido falar do The Storm Lake Times, diário de uma localidade de 11 mil habitantes situada no Iowa e cuja tiragem não excede os três mil exemplares. E o que é que este jornalinho, tão idêntico aos muitos existentes nas pequenas comunidades dos Estados Unidos, tem de especial? O que é que a baiana tem?…

Espantem-se, “batam em latas” ou “rompam aos saltos e pinotes”, como escreveu Mário de Sá-Carneiro no seu poema de despedida, mas olhem para aquele jornal com respeito e seriedade. Um país que tem alguns dos media mais influentes e bem apetrechados do mundo, que promove e distribui os prémios mais prestigiados de jornalismo à escala global, a quem é que acaba de atribuir o Pulitzer pelo conjunto dos melhores editoriais, a quem foi?… Ao The New York Times? – frio. Ao The Washington Post? – gelado. Chicago Tribune? – nem pensar. A distinção foi direitinha para a chamada América profunda, ou seja, para o The Storm Lake Times. Só nos “states”, dirão os meus amigos, como que a confirmar que na terra dos sonhos tudo é possível e tudo pode ser realidade. Ou, numa outra versão, “na terra dos sonhos podes ser quem tu queres”, como canta num outro contexto Jorge Palma. Mas não é de alucinação que vos falo – é de sonhos bem acordados.

Na verdade, quase todos os anos há uma distinção que vai para um órgão regional. Mas ganhar um Pulitzer na modalidade editorial, quando há gigantes a competir, é muito raro e é motivo para espanto. David ganhou uma vez mais a Golias.

Art Cullen, director e um dos proprietários deste jornal de família, é o autor do conjunto de editoriais que chamaram a atenção e impressionaram, pela coragem e fundamentação, o exigente júri. O tema dos editoriais centrou-se na denúncia da má qualidade da água na zona e das consequências que isso tem na agricultura. Ou seja, há um problema de contaminação da água e foi isso que o jornal elegeu como principal bandeira. Porém, os textos de Cullen não se ficavam, como muitas vezes observamos por aqui, pelo panfletarismo das ideias; pelo contrário: eram textos muito bem escritos e, sobretudo, excepcionalmente bem fundamentados. Com a conquista do prémio, o problema local da contaminação da água ganhou, por sua vez, uma dimensão estadual e nacional, o que, por certo, vai influenciar o destino deste assunto que se arrasta há demasiado tempo.

Há muitas décadas, recordar-se-ão alguns, houve um jornal na Beira Baixa que se bateu sozinho pela defesa da causa do regadio da Cova da Beira. Era um assunto de água também, mas naqueles anos distantes das décadas de 60 e 70, o Jornal do Fundão era pioneiro num estilo de jornalismo que bastante mais tarde haveremos de ficar a conhecer pela designação de civic journalism. Para a história dos media essa forma de praticar o jornalismo nasceu na imprensa regional norte-americana; porém, muito longe dali e muitos anos antes, já o Jornal de António Paulouro praticava esse jornalismo, sem que tal pioneirismo lhe seja reconhecido do ponto de vista conceptual.

É isso aí, caros amigos: como na música, só há duas formas de tocar o jornalismo: a boa e a má. E a prática actual mostra à saciedade que existem excelentes profissionais e muito bom jornalismo em órgãos pequenos e de curtos orçamentos, e mau jornalismo em grandes meios que, como a decadente e alheada  Norma Desmond, em Sunset Boulevard, se limitam a encher o peito de ar para dizer: “I’m ready for my close-up”.

 

* Professor de Jornalismo da Universidade de Coimbra e ex-residente em Macau