Jorge A. H. Rangel *

Jorge A. H. Rangel *

“E assim, por fases sucessivas, apareceu este grandioso colosso que hoje se chama Colégio D. Bosco, acabado de construir em 1963, com a ajuda do Governo da Província. Não obstante nele funcionar o ensino primário, o Colégio D. Bosco é principalmente uma Escola Industrial.”

 

Pe. Manuel Teixeira, “A Educação em Macau”, 1982


 

 

Como acontece em muitas partes do mundo, a congregação salesiana tem também em Macau uma presença muito significativa nas áreas do ensino e da formação da juventude. É esta uma vocação de sempre, sendo os seus projectos educativos inspirados nos ensinamentos e no exemplo de vida de S. João Bosco, mas permanentemente abertos à inovação e à modernidade. Da formação profissional aos ensinos técnico e pré-universitário, as escolas salesianas primaram sempre pela qualidade.

Em vários artigos publicados no corrente ano, referimos o livro do jornalista João Guedes, intitulado “César Brianza – a missão, o coro e o sonho da China” (IIM, Dezembro de 2016), a personalidade e a obra do sacerdote salesiano César Brianza e o percurso dos Pequenos Cantores do Colégio D. Bosco. Parece-nos, por isso, apropriado dedicar um artigo a este Colégio, que foi uma das quatro escolas secundárias de língua veicular portuguesa que funcionaram em Macau no século XX, oferecendo aos jovens macaenses uma diversidade de opções de formação. As outras foram o Liceu de Macau, depois denominado Liceu Nacional Infante D. Henrique, a Escola Comercial Pedro Nolasco e o Externato do Seminário de S. José.

Além de ser uma escola secundária industrial, oficializada pelo Decreto-Lei n.º 43.093, de 28 de Julho de 1960, o Colégio D. Bosco, gerido pela congregação salesiana desde a sua criação, integrava também nos seus planos curriculares os então denominados ensino primário e ciclo preparatório do ensino secundário. A primeira pedra para a sua construção foi lançada em Fevereiro de 1949 num terreno do bairro de Mong Há concedido em 1940 por decisão do Governador Artur Tamagnini de Sousa Barbosa, num período muito conturbado, com conflitos bélicos cada vez mais acentuados nesta área geográfica. Anunciou-se então o nome do edifício escolar: Colégio D. Bosco, de Artes e Ofícios, destinado ao Ensino Técnico e Profissional. O arquitecto foi António Bastos e o Pe. António Giacomino foi o primeiro director.

As obras, com avanços e interrupções, foram sendo feitas ao longo dos anos (salas de aula, dormitórios, oficinas, laboratórios, capela, refeitório, instalações desportivas e culturais) e novas alas foram acrescidas à estrutura inicial. “E assim, por fases sucessivas – como salientou o Pe. Manuel Teixeira em “A Educação em Macau (Direcção dos Serviços de Educação e Cultura, 1982) – apareceu este grandioso colosso que hoje se chama Colégio D. Bosco, acabado de construir em 1963…” Os apoios foram oficiais e provenientes também de outras entidades, destacando-se as contribuições do mecenas e filantropo Pedro José Lobo, a quem o Colégio prestou algumas homenagens.

 

Actividades de complemento educativo

No modelo educativo que abraçou, o Colégio foi exemplar no desenvolvimento de diversificadas actividades circum-escolares. Na obra atrás citada, o Pe. Manuel Teixeira identificou as principais áreas de complemento educativo: música e canto coral, desporto, sessões culturais, imprensa, associações juvenis e oratório festivo, onde as portas foram abertas a jovens de outras escolas, sendo a todos oferecidos jogos, sessões de cinema e outras salutares diversões, além da missa dominical e da instrução moral.

A música e o desporto ocupam um lugar primordial em todos os colégios salesianos. Assim aconteceu, naturalmente, no Colégio D. Bosco, onde o canto coral ganhou enorme projecção através do grupo dos Pequenos Cantores, fundado em 1959 pelo Pe. César Brianza e que esteve filiado na associação internacional dos Pequenos Cantores da Cruz de Madeira. No desporto, o Colégio estimulou a prática das mais conhecidas modalidades, atingindo níveis elevados, com os seus atletas alcançando resultados muito lisonjeiros nos campeonatos escolares.

Quanto a sessões culturais, o Pe. Manuel Teixeira recorda que o Colégio D. Bosco aproveitava “todas as ocasiões para dar aos seus educandos uma sólida preparação moral e cultural, técnica e literária, fomentando a prática de recitais, palestras, representações de cinema e outras manifestações”. Os jovens associavam-se em torno destas actividades e também se reuniam para dialogar e debater “sobre temas de interesse para a sua idade, orientados por um professor”. Teve grande sucesso um Clube de Guitarras, “para aprendizagem e actuação nas festas, dentro e fora do Colégio, tendo-se registado execuções notáveis, especialmente nas missas dominicais”.

Para divulgação das actividades e para manter um contacto regular com antigos alunos, era publicado quinzenalmente o boletim informativo Vida Colegial, “com excelente apresentação”.

Em resumo, as actividades desenvolvidas pelo Colégio D. Bosco muito contribuíram “para a valorização e projecção dos jovens de Macau, capacitando-os para enfrentar a vida com dignidade e proporcionando-lhes um futuro risonho, onde eles poderão actuar com confiança, com base na educação que receberam”.

 

Até à transição

O crescimento do Colégio não cessou em 1963. Continuou a desenvolver-se nas décadas seguintes, a remodelar as instalações e a enriquecer os equipamentos, continuando a operar como escola privada de língua veicular portuguesa, reconhecida e substancialmente apoiada pelo Governo de Macau.

Acompanhei de perto o seu funcionamento desde os anos da adolescência, participando nas suas iniciativas juvenis e nos campeonatos escolares, e mais tarde como membro do Governo responsável pela área da Educação, de 1981 a 1986 e de 1991 a 1999. Embora a minha escola fosse o Liceu, tive de entre os alunos do Colégio alguns dos melhores amigos de sempre.

Nos anos derradeiros da Administração Portuguesa, e após a criação da Escola Portuguesa de Macau, foi necessário repensar caminhos, tendo a congregação salesiana, através dos seus mais altos responsáveis, optado por rumos diferentes, passando o Colégio a assumir uma nova missão como escola privada salesiana de língua chinesa, integrada no sistema educativo entretanto aprovado para a RAEM.

Ainda no período de transição, o Colégio foi dotado de um novo complexo desportivo, inaugurado em Janeiro de 1997 e constituído por um campo de futebol de relva sintética, dois ginásios multiusos e uma piscina aquecida, com sistema de climatização geral. Como foi sempre seu timbre, o Colégio aceitou partilhar essas instalações com associações e clubes desportivos locais, franqueando-as também ao público em geral.

Os serviços que o Colégio prestou a Macau e à juventude foram inestimáveis. Para a sua história, deverá ser também referido que várias das suas salas de aula foram facultadas à então Universidade da Ásia Oriental para poder iniciar os seus cursos enquanto construía os primeiros edifícios académicos. Esta instituição privada de ensino superior, que iniciou o seu funcionamento em 1981, converteu-se dez anos depois numa entidade pública chamada Universidade de Macau, ao mesmo tempo que era também oficialmente criado o Instituto Politécnico de Macau.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.