“Portugal devolveu à China uma Macau moderna, com sólida economia, boas infra-estruturas, estado de direito, liberdade religiosa e órgãos políticos parcialmente eleitos. A presença portuguesa proporcionou a Macau um rico legado ocidental.” 

Prof. Ming K. Chan, da Universidade de Stanford, Abril de 2013

 

Jorge A. H. Rangel

Jorge A. H. Rangel *

Como já foi referido em dois artigos anteriores sobre a conferência internacional “Portugal na balança da Europa e do mundo”, levada a efeito há poucas semanas no auditório da Fundação Champalimaud, em Lisboa, e integrada no ciclo “Roteiros do Futuro”, promovido pelo Presidente da República Portuguesa, o painel “Roteiro do Oriente”, presidido pelo General Vasco Rocha Vieira, incluiu uma esclarecida e estimulante comunicação do Prof. Ming K. Chan, do Centro de Estudos da Ásia Oriental da Universidade de Stanford (EUA).

Este académico, especializado em História da Ásia e em Ciência Política, tem sido uma presença constante e uma voz escutada em numerosos encontros internacionais, tendo também participado, nos últimos anos, em variadas actividades em Portugal e em Macau. Meu colega na comissão externa de acompanhamento do Instituto do Oriente (Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa), tem dado, igualmente, uma colaboração muito útil ao Instituto Internacional de Macau na sua projecção externa.

 

Uma perspectiva histórica

O título da sua comunicação foi “Three Oceans, Four Continents & Five Centuries of the Luso-Asian Interface: A TransPacific Perspective on Historical Portuguese Globalization Beyond 1513-2013”, na qual traçou um panorama positivo da longa permanência de Portugal no Oriente e explicou o significado do legado luso, analisando-o numa perspectiva estratégica, ao defender um possível reposicionamento de Portugal no Oriente no século XXI.

Os factores mais relevantes que fundamentam esta sua visão prospectiva são os seguintes: o meio milénio da globalização luso-asiática, desde a chegada de Vasco da Gama à Índia em 1498 até à transferência de poderes em Macau de Portugal para a China em 1999; o 5.º centenário da chegada de Jorge Álvares à China em 1513, lançando as sementes para o actual relacionamento intenso entre a China e o mundo lusófono, através de Macau; o duradouro legado luso; e os laços oficiais cordiais entre Lisboa e Pequim, permitindo que Macau, agora região administrativa especial da China, assumisse um reforçado papel e uma missão relevante no contexto do crescente envolvimento global da China, ao mesmo tempo constituindo mais-valias para o reposicionamento global de Portugal nesta era de “soft power”.

Depois de um bem traçado bosquejo histórico, identificando os momentos marcantes da expansão portuguesa no Oriente e salientando a capacidade de Macau como entreposto privilegiado e a sua contribuição para a transformação e modernização da China, sintetizou assim a situação deste território e as perspectivas que se abrem a Portugal:

“A possessão ultramarina de menor dimensão do império português foi o mais duradouro dos domínios ultramarinos portugueses na Ásia durante 447 anos, desde 1553 até 1999. Sendo o último território ultramarino que Lisboa entregou, Macau foi o palco do qual os portugueses fizeram a partida de forma mais cordial, mais digna e mais bem planeada, em profundo contraste com as involuntárias saídas da Ásia (Goa, 1961 e Timor-Leste, 1975) e a apressada retirada de África.

A presença portuguesa em Macau, tolerante e moderada, e os laços amistosos sino-portugueses asseguraram a transição suave de Macau até à transferência em 1999, ao contrário do percurso conturbado de Hong Kong para o seu “handover”, numa visível discórdia sino-britânica. Portugal devolveu à China uma Macau moderna, com sólida economia, boas infra-estruturas, estado de direito, liberdade religiosa e órgãos políticos parcialmente eleitos. A presença portuguesa proporcionou a Macau um rico legado ocidental. Os museus, os monumentos e o património arquitectónico restaurado ajudaram a consolidar a riqueza cultural que traduz o encontro do Oriente com o Ocidente em Macau.

Um legado português vital em Macau é a comunidade macaense de 20.000 pessoas de ascendência luso-chinesa/asiática, que foram funcionários em lugares-chave, quadros técnicos e profissionais, desempenhando o papel de intermediários bilingues entre os governantes portugueses e os residentes chineses locais.

A amizade luso-chinesa criou um futuro promissor para a RAEM e para a cooperação da China com o mundo lusófono. A transformação de Macau no contexto da ascensão global da China acrescentou estimulantes páginas à nova edição da história de Macau depois do capítulo da despedida de Portugal. A desvinculação de Portugal das responsabilidades administrativas de Macau não deve ser apenas uma memória histórica mas tornar-se o ponto de partida para o reestabelecimento de uma relação privilegiada com a Ásia em todas as vertentes. O século XXI (o século da Ásia e do Pacífico) é um tempo oportuno para a nação portuguesa voltar a desenvolver uma interacção profícua e completa com a Ásia.

A economia asiática que se expande como o motor do crescimento do mundo significa também uma oportunidade para Portugal. O factor asiático afirmado na interface histórica luso-asiática pode abrir novos caminhos para ajudar a revitalizar a economia portuguesa na actual recessão da zona Euro. Muito pode ser feito para tirar proveito da dimensão asiática no reposicionamento estratégico de Portugal numa posição privilegiada.”

 

Medidas propostas

Perante altas entidades do Estado Português e da sociedade civil, Ming Chan, em resultado da sua reflexão sobre os desafios que Portugal pode assumir no Oriente, preconizou a adopção das seguintes medidas:

 

  1. Tirar pleno proveito dos recursos humanos existentes, nomeadamente os macaenses, os imigrantes asiáticos/chineses e estudantes em Portugal, bem como os portugueses com experiência asiática.
  2. Ampliar sistematicamente o conhecimento das línguas, culturas e histórias, bem como do desenvolvimento actual do mundo asiático, e desenvolver acções de intercâmbio com instituições asiáticas, com vista ao estabelecimento de sólidas relações institucionais e interpessoais.
  3. Atrair os asiáticos para os cursos de língua portuguesa e acções de formação em escolas e universidades portuguesas.
  4. Divulgar com mais eficácia nos mercados asiáticos os produtos portugueses – mercadorias e serviços, bem como aptidões e conhecimentos, artes, design e criatividade.
  5. Promover intensiva e extensivamente o turismo português no sentido de atrair mais asiáticos para visitas ao continente português, com extensões à Madeira e aos Açores.
  6. Estabelecer ligações aéreas entre Lisboa e Macau com escalas em Pequim e Xangai.
  7. Informar os asiáticos dos laços sólidos que aproximam Portugal dos outros países lusófonos e da fácil ligação de Lisboa aos lugares-chave lusófonos na África e no Brasil.
  8. Abrir as portas a mais investimentos directos asiáticos em Portugal.

 

No entender daquele académico, a China é a melhor escolha para um novo envolvimento de Portugal na Ásia, uma vez que é um gigante em termos de área geográfica, economia, reservas em divisas fortes, balança comercial, investimento estrangeiro directo e população. Além disso, Pequim está interessadíssima no desenvolvimento da cooperação com os países lusófonos, com especial incidência em Angola e no Brasil, sendo as relações luso-chinesas decisivas para a estratégia de Pequim em relação ao mundo lusófono, abrangendo oito países em quatro continentes, com uma área total de 10 milhões de quilómetros quadrados e uma população de mais de 240 milhões em todo o mundo.

A longa permanência de Portugal em Macau permite-lhe afirmar-se como o entreposto e a plataforma de promoção, sustentação e aprofundamento da cooperação sino-lusófona. Parafraseando um artigo publicado no jornal China Daily (28/06/2010) em que se descreve Portugal como uma ponte da China para o mundo, Ming Chan terminou a sua comunicação frisando que “A China é a ponte de Portugal para a Ásia e Macau é a ponte de Portugal para a China”.

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau. Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.