João Figueira *

João Figueira *

No seu mais recente e notável livro, 4 3 2 1, Paul Auster fala-nos de uma vida e quatro destinos. Ao longo de mais de 800 páginas (é uma obra à antiga) vemos desfilar a América dos anos 50 aos 70 do século passado, através dos quatro destinos ficcionais que o autor dá à mesma personagem. No final, há um gosto amargo que sobressai no leitor: o desejo impossível de poder viver quatro vidas ou outros tantos destinos.

Também podíamos desejar que, por magia, uma das nossas vidas pudesse ficar suspensa no tempo, para que mais tarde acordássemos dessa letargia e prosseguíssemos como se nada fosse. Mesmo assim, deixaríamos que o imprevisto — elemento crucial no enredo destas quatro versões de vida do escritor  norte-americano — nos acompanhasse para tornar menos previsível e programado esse tal destino. Em ficção tudo é possível e até o tempo pode ser mais elástico. De tal forma assim é que até podemos escrever e falar com os outros depois de morrer. Olhem como Machado de Assis nos diverte com as sublimes Memórias póstumas de Brás Cubas!…

É toda uma estória contada ao contrário, para ficar “mais galante e mais nova”, nas palavras do autor que tem o cuidado de explicar porque começa por falar na sua morte e de como foi o funeral. Em 4 3 2 1, que à primeira vista parece a contagem para um contrarrelógio da volta a Portugal em bicicleta,  o único elemento que atravessa as quatro narrativas, além do protagonista, Archie Ferguson, é a deslumbrante Amy Schneiderman, por quem ele fatalmente se perde de amores em todas as vidas possíveis criadas pelo escritor.

Por mais voltas que se dê à vida, há amores e paixões a que é impossível escapar ou que nos entram  por todos os poros. Já parece a jornalista e também escritora espanhola, Rosa Montero, que numa das suas obras conta que se habitou a ordenar todas as recordações, em função dos namorados e dos amores de cada momento.  Ou ainda Nick Hornby, cujo livro, Alta Fidelidade, adaptado ao cinema por Stephen Frears, nos conta a divertida estória de um vendedor de discos vinil que um dia, seguindo o princípio musical dos hit-parades, decide fazer o top-five das suas paixões.

Brincar assim, às vidas, e com a vida, é também uma forma, um estratagema de escapar ao excesso desta realidade dura e às vezes triste ou depressiva (talvez incompreensível) em que hoje o mundo se acotovela.

Há qualquer coisa de estranho e de anacrónico nestes tempos sobre os quais todos os dias ouvimos dizer que só a excelência pode vencer e por isso tudo fazemos para a conseguir, e depois cai-nos na sopa uma das piores listas de líderes políticos de que há memória.

Nem vos digo o que Paul Auster disse há dias, em Madrid, sobre Trump. Vocês imaginam, certo?…Também vos poupo ao que, em modo caseiro, por aqui se vai proclamando a pretexto de umas eleições autárquicas marcadas para 1 de Outubro.  Mas a coisa é geral, digo, à escala global.

Se calhar falar assim da escrita e gostar desse tal mundo ficcional, como quem brinca numa infância despreocupada, mais do que fugir à realidade — como se a escrita não fosse a maior das realidades  — é, como Martin Amis diz dos escritores, uma forma de permanecer  sempre criança.