Jorge A. H. Rangel

Jorge A. H. Rangel *

“Fazer a história da vida do padre Áureo da Costa Nunes e Castro é contribuir para trazer à luz uma área da cultura de Macau ainda bem mal iluminada. Trata-se da memória da música, na sua área vulgarmente chamada clássica, ou erudita.”

João Guedes, Novembro de 2015


Num dos artigos anteriores, dei nota da recente publicação do 8.º volume da colecção “Missionários para o Século XXI”, o qual, pela pena do jornalista João Guedes, foi dedicado ao Pe. Áureo Nunes e Castro, notável mestre que foi, para muitos e também para mim, um privilégio ter como professor de educação musical, além de respeitado amigo. Ao ler o livro, pude recordar o pedagogo e o músico que João Guedes muito bem soube retratar, com a colaboração de pessoas que com ele privaram:

 

“A sua presença física contrastava em absoluto com a sua sensibilidade musical, a sua bondade e senso de humor. Alto, de porte atlético e cabelo hirsuto sobre a testa estreita dominava por si só um coro, ou uma orquestra.

 

O seu ouvido apurado não deixava passar o menor deslize. ‘Quando o coro não correspondia, enfurecia-se atirando com os óculos em desespero, mas quando atendíamos os seus requisitos comovia-se e gesticulava alegremente,’ lembra Iao Ng que integrou o Coro Polifónico.

 

A sua impulsividade notada nos ensaios de coros e orquestras era no entanto particularmente sentida na docência e principalmente nas aulas que ministrava no ensino secundário. Às vezes quando inquiria a turma sobre um qualquer assunto que tinha explicado e não vinha resposta pronta não era raro voar um livro pela sala fora.

 

Nas aulas de latim, ou de moral que ministrava a par da música, era bem mais paciente para com os seus alunos e curiosamente o mesmo se passava com os seus alunos da Academia. Provavelmente, porque se encontravam já noutro patamar de ensino absorvendo com muito mais facilidade e rapidez os ensinamentos do mestre.

 

‘O Pe. Áureo era impulsivo e como era exigente consigo mesmo exigia aos outros. Muitas vezes não compreendia que nem todos tinham os dotes dele,’ lembra Eduardo Tavares que foi seu aluno no seminário. ‘Numa ocasião um estudante observou que a música de Bach era difícil. Ele acto contínuo levantou-se, dirigiu-se para o piano e começou a improvisar ao estilo de Bach para demonstrar quão simples podia ser aquele estilo de música.’

 

As improvisações de Áureo de Castro decorriam do seu espírito impulsivo que o fazia reagir emocionalmente a uma conversa, numa aula, ou apenas porque o ambiente o predispunha, como lembra o compositor Richard Gamlen que entretinha longas conversas com ele no seu pequeno gabinete do Centro Católico, que lhe parecia sempre demasiado acanhado para conter a secretária, o piano e as estantes com livros.

 

‘Ali passávamos horas muito agradáveis com os nossos cachimbos, um ou dois copos de “chá da Escócia” discutindo música (naturalmente), política internacional e tantos outros assuntos. Por vezes o Pe. Áureo dirigia-se para o piano e começava a tocar peças da sua lavra marcadamente românticas. Tinha boa técnica adquirida primeiro no Seminário e mais tarde no Conservatório, sob a orientação de diversos professores. Estou a vê-lo, em camisa de algodão e suspensórios, levado pelas suas mãos vigorosas não sei em que voos de imaginação – era na verdade uma visão inspiradora.’

 

‘O Pe. Áureo era introvertido e a certa altura da vida passou a recolher-se muito nas suas coisas. Era o contrário do Pe. Lancelote que, se as pessoas não iam ter com ele, ia ter com as pessoas.’ Mas apesar dessa sua faceta não tinha dificuldades em fazer amigos e talvez essa característica do seu carácter o tenha ajudado no trabalho solitário que é o de compor. O Áureo Castro, diz o maestro Simão Barreto que foi seu aluno, só não foi um grande compositor porque escreveu pouco.

 

Aliás para além dos seus trabalhos na área da polifonia coral, cantatas, sonatas e do seu Te Deum, este ‘um exemplo de música moderna para uso litúrgico’ como sublinha o maestro Veiga Jardim, as suas composições reflectem uma singular fusão de novas correntes da música contemporânea europeia nos primórdios do século XX e de elementos da música tradicional chinesa, como observa a professora Cecília I – Ian Long. Neste campo apresenta-se como um precursor capaz de introduzir um elemento novo de fusão entre o Ocidente e o Oriente na música clássica. (…)

 

Nos últimos tempos de vida, a doença foi-se apoderando lentamente do seu corpo, impedindo-o de se mover e de continuar a escrever a música que era a razão de ser da sua vida.

 

Áureo da Costa Nunes e Castro morre em Macau no dia 21 de Janeiro de 1993 e com ele se encerrou definitivamente um ciclo da cultura do Território de que foi iniludível protagonista, marcando definitivamente uma época.

 

A cultura em geral e a música erudita em particular muito lhe devem e o estado reconheceu o seu papel atribuindo-lhe a Medalha de Mérito Cultural, condecoração que imporia também à sua Academia S. Pio X de que foi a alma inspiradora e a trave mestra.”

 

Uma colecção que vai prosseguir

 

            O Pe. Áureo Nunes e Castro é o nono sacerdote lembrado na colecção “Missionários para o Século XXI”, do Instituto Internacional de Macau, em oito volumes já publicados: “Padre Lancelote Rodrigues – Vida e Obra”, de Leonor Seabra; “Padre Joaquim Angélico Guerra, SJ – Um Globetrotter ao Serviço de Deus e da China”, do Padre Henrique de Jesus Rios, SJ; “Mário Acquistapace: Um Salesiano no Extremo Oriente”, de Mário Rodrigues Baptista; “P. Benjamim Videira Pires, Meu Irmão”, do Pe. Francisco Videira Pires; “Luigi Versiglia e Callisto Caravario, Mártires Salesianos na China”, de Luís Cunha; “Manuel Teixeira, de Menino a Monsenhor”, de José Teixeira; “Um Apóstolo do Oriente – Aproximação à Vida e Obra do Cardeal Costa Nunes”, de José Valle de Figueiredo e “Pe. Áureo Nunes e Castro, Missionário, Músico e Pedagogo”, de João Guedes.

 

Na sessão comemorativa do centenário do nascimento do Pe. Benjamim Videira Pires, levada a efeito no auditório do Instituto Internacional de Macau, no dia 8 do corrente, foi confirmado que vários novos títulos da colecção estão já em preparação. Nesse encontro, protagonizado pela professora e investigadora Beatriz Basto da Silva, que apresentou uma excelente comunicação sobre a vida, personalidade e obra daquele sacerdote que deixou obra marcante como historiador, escritor e pedagogo, foram colhidas sugestões do público presente sobre outros missionários a contemplar em futuras edições. A colecção vai, pois, ter a desejada continuidade.  

 

 

 

* Presidente do Instituto Internacional de Macau.

Escreve neste espaço às 2.ªs feiras.