Roy Eric Xavier*

Roy Eric Xavier*

Esta época do ano é geralmente reservada para a reflexão sobre os acontecimentos recentes com uma expectativa do que o futuro poderá reservar. A maioria das análises na imprensa irá provavelmente focar-se na surpreendente vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais americanas e nos possíveis efeitos nas relações dos EUA com a China, a Rússia e o resto do mundo. Neste artigo, abordarei de forma mais restrita o estado das relações entre as comunidades étnicas nas superpotências, especificamente os descendentes dos Portugueses na Ásia, alguns dos quais vivem actualmente em Macau (que visitei recentemente) e outros nos países da diáspora.

Algumas das minhas observações baseiam-se nos primeiros resultados de um inquérito on-line (que ainda está activo – ver abaixo), comentários em redes sociais em Macau e opiniões individuais das pessoas com quem conversei na Ásia, entre 26 de Novembro e 4 de Dezembro. Ao concentrarmo-nos nesse grupo mais reduzido, temos a vantagem de ver como os laços culturais podem revelar ideias sobre temas comuns que tocam as pessoas através das fronteiras nacionais, incluindo a busca de identidade, o potencial para aprender com os outros e as perspectivas para trocas culturais e comerciais. Embora não devamos esperar qualquer resolução para estas questões, podemos obter um perfil aproximado deste grupo, e uma indicação das suas preocupações enquanto passamos para um futuro incerto.

 

Resultados iniciais do inquérito

Como participante no Encontro de 2016, pensei que seria uma boa ideia comparar as opiniões dos residentes de Macau e dos descendentes que vivem noutros países. Para isso, decidi reunir-me com residentes locais, monitorizar sites de redes sociais em Macau e actualizar uma pesquisa on-line que conduzi pela primeira vez em 2012. O novo questionário de 10 perguntas, disponibilizado em Português e Inglês, tem como alvos Portugueses mistos da Ásia (frequentemente referidos como Luso-Asiáticos, “Tou San”, ou Macaenses) com raízes familiares na China, Índia e Sudeste Asiático, e especificamente em Goa, Macau, Hong Kong, Xangai, Cantão, Japão, Malásia, Singapura e Timor. Para focar este grupo, a primeira pergunta requer que os entrevistados se auto-identifiquem como membros antes de prosseguir. O objectivo é começar com traços demográficos comuns, incluindo idade, país de origem, identidade cultural, tamanho da família e, em seguida, para destacar certas atitudes. Pelo facto de muitas vezes demorar mais tempo para as pessoas responderem, decidi manter a pesquisa aberta indefinidamente enquanto continuar a monitorizar os resultados.

Para os interessados, o inquérito pode ser acedido através deste link (https://www.surveymonkey.com/r/653V2Y3) ou de um smartphone usando o símbolo QR à esquerda. (Vários leitores de QR podem ser encontrados no iTunes ou na loja Google Android). Aqui estão alguns resultados iniciais.

Uma das primeiras coisas que notei na pesquisa de 2017 é que a idade dos entrevistados parece tender a ser mais jovem. Enquanto em 2012 aqueles com idades dos 19 aos 54 anos totalizaram apenas 33,3%, em 2017 responderam muitos mais na mesma faixa etária (51,6%). O maior grupo dos respondentes também mudou. Em 2012, a maior faixa etária tinha mais de 65 anos (39,9%). Em 2017, a maior faixa etária foi a dos 35 a 54 anos (41,94%), seguida dos 55 a 64 anos (29,03%) e dos 19 a 34 anos (9,68%). Se essa tendência se mantiver, as respostas sugerem que 80,65% das pessoas dos 19 aos 64 anos, geralmente consideradas em idade de trabalhar, estão a tornar-se mais activas na identificação das suas raízes culturais. Esta é uma tendência significativa que merece mais atenção.

Embora o avançar da idade possa representar menos no grupo dos mais velhos e mais jovens em 2017, o interesse dos menores de 65 leva a algumas conclusões interessantes. O primeiro lida com a sua própria identidade cultural. 67,74% dos entrevistados identificaram-se como Macaenses, e grupos menores como Portugueses (19,35%), Euro-asiáticos (12,9%), Europeus (9,68%) e Chineses (9,68%). Um vasto grupo (62,51%) vive em países de língua inglesa, como Austrália, Estados Unidos e Canadá, enquanto um número significativo (31,26%) reside em países de língua não inglesa, incluindo Portugal, Macau, Hong Kong e outros países europeus.

Também parece haver uma tendência para um maior uso dos media digitais. 84,38% têm contas no Facebook, enquanto 56,25% usam o LinkedIn. Um grande número (50%) está no Snap(Chat), Instagram ou Twitter, e um número ainda maior (75,01%) em serviços de mensagens como WeChat e WhatsApp. Mais importante ainda, o número de pessoas nesta comunidade é maior do que o esperado. A maioria dos entrevistados (53,15%) afirmou ter entre 36 e 150 membros vivos da família, com um número significativo (25%) a identificar entre 76 e “mais de 150” membros da família. Mais uma vez, estes são resultados preliminares, mas várias tendências parecem estar a tomar forma.

Em resumo, os inquiridos são agora mais jovens e geralmente mais activos. Dadas as suas auto-identificações, estão mais interessados nas suas próprias origens culturais. Um grande número de pessoas vive em países de língua inglesa e não inglesa. Muitos usam uma ampla gama de plataformas de redes sociais. Podemos também concluir que o uso da internet, e-mail e smartphones conectados é dado como certo. Além disso, a dimensão desta população parece ter sido subestimada. Vários entrevistados identificaram muitos mais membros da família. Juntamente com a pesquisa recentemente publicada pelo genealogista português Jorge Forjaz, o maior número de membros familiares identificados na pesquisa de 2017 poderia aumentar significativamente estimativas anteriores de Luso-Asiáticos (Macaenses)1. Se considerarmos as suas relações por casamento com outras de ascendência portuguesa (estimadas de forma conservadora em 42 milhões em todo o mundo)2, a rede cultural combinada de ambos os grupos seria muito maior e potencialmente chegaria a muitas outras nações.

 

Comentários Virais e Opiniões Locais

Dadas essas características comuns, é interessante comparar as atitudes em relação à identidade, às relações internas da comunidade e às trocas internacionais3. Entre os comentários das redes sociais em Macau durante o Encontro de 2016, por exemplo, houve uma recente discussão sobre a identidade Macaense no contexto do papel actual de Macau na China e sua história cultural. Alguns comentários mencionaram a ampliação da discussão para incluir os presidentes das associações das Casas de Macau na diáspora. Outros sugeriram uma maior interacção entre visitantes internacionais e residentes durante as reuniões e nas visitas ao exterior.

O mesmo comentador sugeriu que os Encontros anteriores ​​em Macau foram em grande parte “unidireccionais” sem muito diálogo. Sugeriu, em vez disso, “colóquios, discussões e reflexões” sobre a situação dos residentes. Estas experiências, argumentou, poderiam tornar-se a base para ensinar e comunicar com as novas gerações em Macau, o que poderia ajudar a estimular o reconhecimento de uma comunidade e identidade local.

Opiniões similares foram partilhadas pelos entrevistados na pesquisa on-line. 56% manifestaram interesse pela identidade cultural, procurando conhecer a ligação da sua família com Macau. Outra pergunta sobre os motivos da participação no Encontro de 2016 revelou que 32% têm interesse em Macau e na China da actualidade, enquanto 36% quiseram conectar e interagir com os Macaenses locais. Outros 36% expressaram interesse em intercâmbios culturais e comerciais com Macau e a China. Além disso, 43.75% manifestaram especificamente interesse em conhecer as oportunidades de negócios internacionais relacionadas com a Diáspora Macaense.

Vários residentes e visitantes também mencionaram oportunidades perdidas de partilha cultural ao longo dos anos, e o potencial de desenvolver relações com empresários locais que não foram seguidas. Outro residente concluiu que uma maior interacção com os visitantes revelaria a excelência de Macau ao resto do mundo. Ele escreveu: “Seria uma oportunidade para mostrar a nossa cultura, os nossos talentos, para promover os nossos artistas, criar shows envolvendo a população na comunidade: uma espécie de ‘Semana Lusófona’, mas focada… na cultura, identidade e valores Macaenses”.

 

Conclusão

Claramente, os membros da comunidade em Macau e na Diáspora esperam desenvolver algum nível de confiança que possa levar a intercâmbios culturais e comerciais. Também é evidente que as oportunidades para o fazerem não foram proporcionadas no passado, apesar da vontade de muitas pessoas participarem. Embora as opiniões, comentários e resultados iniciais da pesquisa aqui descritos não sejam conclusivos, mesmo essa pequena amostra sugere mudanças nas atitudes de pessoas ao redor do mundo que estão interessadas em iniciar tal diálogo. Caberá a muitos dentro e fora de Macau, tanto associações estabelecidas como indivíduos, iniciar esse processo no futuro.

 

NOTAS: 1-O meu grupo de investigação na Universidade da Califórnia, em Berkeley, o Projecto de Estudos Portugueses-Macaenses (FarEastCurrents.com) estimou que a população até 2016 seria de 1,5 milhão.

 

2- Ver as várias fontes sobre ascendência Portuguesa citadas por Wikipedia em “Pessoas Portuguesas”.

 

3- As identidades das redes sociais e dos comentadores individuais foram rejeitadas por questões de privacidade.

 

*Director do Projecto de Estudos Portugueses-Macaenses e professor visitante no “Institute for the Study of Societal Issues” na U.C. Berkeley.

 

Artigo traduzido do Inglês na sua totalidade. Para mais informações, ou a versão em Inglês deste artigo, visite www.fareastcurrents.com